Reportagem

Mães solteiras são sofredoras mas grandes guerreiras

Kílssia Ferreira

Solteira, há mais de 15 anos, Leonilde de Sousa é mãe de quatro filhos. enfrentou muitas dificuldades na vida até acabar a formação em Psicologia Clínica, curso que fez na Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto.

Leonilde de Sousa é um exemplo do empenho das mães solteiras

A história de Leonilde, 52 anos, é triste, mas deixa claro que é a sina de uma mu-lher batalhadora, que, mesmo depois de duas separações conjugais, continuou a estudar e a trabalhar, assim como cuidava dos filhos, hoje, to-dos formados.
Aos 17 anos, na primeira relação, teve a primeira filha e depois veio outro. Nesta altura, ela era enfermeira e trabalhava por turnos, o que facilitava  cuidar dos filhos. Mas separou-se do marido. Cinco anos depois partiu para outra relação, deixando os dois meninos aos cuidados da mãe, por causa da proximidade da escola destes com a casa da avó.
Da nova relação, ela teve mais dois filhos. Mais um ca-sal, que era o motivo da grande felicidade de Leonilde e do marido. Tudo parecia bem, até que, mais uma vez, o destino a lançou  de novo para o grupo de mães solteiras. Nesta altura o último filho estava com seis anos.
Embora afirme que existe uma grande diferença entre mãe solteira dos anos passados e desses últimos tempos, Leonilde acredita que as dificuldades eram maiores, uma vez que nem sequer havia o costume de se arranjar uma “babá” para cuidar das crianças.
“Logo, tudo era mais difícil e as avós e nossas irmãs ajudavam muito nesta tarefa de cuidar dos netos e dos so-brinhos”, disse para avançar que a adolescência é a fase mais complexa para uma mulher cuidar sozinha de uma menina.
As dificuldades financeiras eram o grande bico-de-obra, pois a ajuda vinda dos pais dos quatro filhos nunca chegavam para aguentar as despesas. “Se não faltasse comida, faltava roupa”, desabafa.
Quando tomou a decisão de voltar a estudar, em 2003, depois de ter ficado 13 anos sem frequentar a escola, a mãe de Leonilde foi uma das grandes incentivadoras. “Mesmo antes de me formar, a mamã já me chamava doutora e os meus filhos não acreditavam que eu fosse conseguir”.
Nessa altura, depois da retomada dos estudos, o rendimento do filho de nove anos começaram a baixar e ele dizia que era por causa da decisão da mãe de voltar à escola. “Hoje, olho para eles e digo que valeu a pena  o esforço”.
Mas, antes disso, teve de emigrar para a África do Sul já com os quatros filhos, em busca de melhores condições de vida. Por sorte, conseguiu trabalho no consulado da Embaixada de Angola. Com o passar do tempo, passou a comercializar roupas e a fazer arranjos de flores.
 Ao defender que os pais devem ser muito amigos dos filhos, a  psicóloga clínica do Clube 1.º de Agosto condena a forma como os pais permitem certas acções e comportamentos dos filhos.

Momentos marcantes
Um dos momentos mais marcantes da trajectória de vida de Leonilde de Sousa foi quando, num dia de muita chuva, ela tinha uma prova de recurso por fazer. Com apenas o dinheiro para pagar o exame, ela decidiu partir para a Universidade a pé.
No meio do trajecto, começou a cair chuva de forma e intensa e ficou toda molhada. Na presença do professor, que a questionou sobre o porquê do sacrifício, ela respondeu que aquela prova era a única oportunidade que tinha. “E dei-me bem. Eliminei a cadeira.” 
Com base na experiência que vive há mais de uma dé-cada e meia, Leonilde aconselha as mães solteiras de hoje a terem muita atenção à educação dos filhos e  saibam  a dividir bem o tempo com eles, principalmente na infância e na adolescência.
"É difícil ser mãe solteira, uma vez que a mulher precisa de trabalhar, pagar contas, cuidar das tarefas domésticas, dormir e acordar com as mesmas preocupações e tarefas que parecem que nunca acabam", disse Leonilde , para aconselhar que, apesar disso, ninguém pode baixar a guarda.

“O maior suporte é a família"

Outra mulher que vive experiências difíceis, por ser mãe solteira, é Juelma da Silva, de 32 anos. Com uma filha de seis anos, ela viu-se separada do pai da menina quan-do esta tinha metade da idade actual. “A vida de mãe solteira não é fácil. Não é uma experiência para qualquer uma”, conta.
Moradora no Sequele,  parte de segunda a sábado, por volta das 7h30, para chegar ao centro de Luanda, onde trabalha.  Embora estudante no período da manhã, ela prefere atrasar-se nas aulas do segundo ano de Direito, na Universidade Lusíada de Angola, para priorizar os afazeres com a filha, uma vez que ela só regressa à casa por volta das 19h00.
“Não consigo parar por um minuto, nem abrir mãos quando o assunto é a minha filha", disse Juelma da Silva. À noite, quando chega a casa, os trabalhos domésticos não param. Tem de  ver  a matéria da filha, preparar a pasta e dar-lhe banho.
Nesta batalha, Juelma conta com apoio da mãe, que só cuida da neta aos finais de semana, uma vez que a menina passa os dias úteis no ATL, pertencente ao colégio onde frequenta a primeira classe.
Uma das maiores dificuldades que enfrenta como mãe solteira tem a ver com o pouco tempo que dedica à filha. “Graças a Deus, ela tem um pai presente, porque eu exijo isso dele. O bem-estar da nossa filha depende de nós e ele sabe que as nossas diferenças pessoais não devem atrapalhar o crescimento da miúda.”
Mas, antes disso, Juelma conta que teve várias dificuldades com o ex-marido que faltava sempre com as suas obrigações. Uma reunião familiar pôs fim a este cenário menos bom para a filha e, hoje, o pai da criança dá a ajuda que pode, de forma regular.
"A menina tem o sábado e domingo para ir à igreja, mas ocupo-a com passeios, também, principalmente a casa de uma irmã, para que possa divertir-se com as primas", diz Juelma para acrescentar: "O difícil é mesmo educar. Não é fácil, principalmente por se tratar de uma criança hiperactiva, que torna o trabalho é maior. É preciso muita conversa, pequenos castigos e limites nalgumas coisas.”
 
Ausência do pai 
Alcides Chivango, psicólogo educacional, esclareceu que o ser humano deve viver em grupo e, neste, cada elemento tem a sua responsabilidade, principalmente na família.
O psicólogo disse que a mãe, por carregar a criança por nove meses, tem um amor e protecção natural, mas avança que o pai tem a missão de proteger e fazer as correcções.
O especialista em Psicologia Educacional salientou que “a ausência paterna pode criar alguns traumas no desenvolvimento da criança” como a hiperactividade.
O psicólogo educacional salientou que a criança  de-senvolve este trauma  porque não encontrou um equilíbrio. “Se a criança só sentir o calor materno, em que a mãe dá carinho e amor, por extremo o pai tem um papel de impor limite.”
Alcides Chivango afirmou que, em Angola, são mais as mulheres a cuidarem dos filhos, ou da família. Por isso, Alcides Chivango alertou que a maioria das crianças nestas condições apresenta comportamentos desviantes, arrogantes, medrosos e outras encontram refúgio no álcool.
 
Olhar  o passado
Alcides Chivango disse que é importante olhar para o passado e observar que tipo de modelo de família existia em África. Referiu que “os pais não responsáveis de hoje ou que fogem à paternidade são fruto da integração de ontem”.
O especialista disse ser necessário que a criança, desde tenra idade, aprenda que a “educação é uma arte de viver”. Daí acrescentar que se a mesma crescer com este princípio, no futuro vai ser um pai ou mãe modelo.
Alcides Chivango explicou que a fuga à paternidade não é só uma questão da fuga de responsabilidade do pai que foge, mas é uma questão de alguém a quem não foi transmitido o amor paternal. Por isso, é fundamental que se busque o seu passado, para entender que a ausência da figura paterna na sua vida terá influenciado a sua atitude hoje.
O psicólogo esclareceu que existe diferença entre os que crescem com pai e mãe e os que vivem só com a mãe. Exemplifica que os filhos de pais separados têm, na sua maior parte, dificuldades de terem grandes sucessos, fruto da ausência paterna.
Mesmo assim, aconselha a mãe solteira a definir re-gras em casa, criando programas ocupacionais . “Sendo a mãe uma pessoa especial ela também quer filhos especiais”, aponta.
Para isso, o psicólogo pediu às mães solteiras, devido à ausência paterna, para terem cuidado com os excessos de mimos, frisando que é fundamental o equilíbrio para a educação da criança.
 
O positivo do moderno
Quanto à ida frequente de crianças às actividades extra-escolares, ATL, o especialista esclareceu que, em África, a família é alargada, mas com o desenvolvimento da sociedade globalizada, Angola está a adoptar o conceito da família europeia.
O psicólogo disse que o ATL veio substituir actualmente o papel da avó, tia ou vizinha. “Podemos ir à busca do moderno, mas olhar somente para os aspectos  positivos deste sistema, ajustando-os à nossa realidade”.
Alcides Chivango lembrou que, no passado, havia socialização entre os vizinhos, o que fazia com que “cada adulto era uma espécie de polícia do filho do outro, tomando medidas e decisões na ausência dos progenitores”.
O especialista disse que essa solidariedade  está a de-saparecer principalmente nas pessoas que residem nas grandes cidades.

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