Reportagem

Malanje clama por soluções urgentes para os problemas

Garrido Fragoso|Malanje

O Presidente da República, João Lourenço, trabalha hoje e amanhã em Malanje. O Chefe de Estado vai encon-trar uma cidade de Malanje envelhecida.

Fotografia: Santos Pedro |Edição Novembro

Prova disso são as numerosas obras por concluir, casas com pinturas desbotadas, ruas esburacadas e apinhadas de lixo e um saneamento básico débil. Em vésperas da visita, algumas acções de cosmética foram feitas em alguns pontos da cidade, com realce para pinturas do pavimento no Largo Rainha Ginga Mbandi, serviços de tapa-buraco com terra vermelha defronte ao Banco BIC, junto ao parque de estacionamento dos Lumbos, pintura de edifícios inacabados, como o caso do prédio da Velha Guarda. En-quanto no centro da cidade acontecem estes arranjos de última hora, na periferia, a realidade continua a mesma. É o caso da via de acesso ao mercado Xawande, o maior da província.
A viagem da equipa de reportagem do Jornal de Angola, ontem, por algumas artérias da cidade e da periferia comprovaram a operação de cosmética "in-extremis", o que acabou, também, confirmado em conversa com os cidadãos que prontamente fizeram uma antevisão da visita do Chefe de Estado e falaram dos problemas do dia-a-dia.
“O Presidente da República vai encontrar duas províncias: a apresentada pelo senhor governador (onde tudo funciona) e outra, onde o cidadão vive, cuja realidade será ocultada”, realçou um jovem, estudante de Pedagogia do Instituto Superior Politécnico da Catepa.
Para ele, Malanje é uma província com muitas necessidades, onde falta quase tudo. Hospitais carentes de médicos e medicamentos, vias de acesso às comunas, centros materno-infantis, escolas, infra-estruturas desportivas (as que existem encontram-se degradadas, sobretudo de futebol), entre outros serviços.
Nas suas declarações, o jovem falou da necessidade das autoridades locais prestarem maior atenção ao saneamento básico, atendendo que o lixo aumenta nas várias artérias da cidade e periferia. Conta que há muito não se vê a recolha de resíduos sólidos, quer na cidade, quer nos arredores, o que, como disse, tem concorrido para o aumento de doenças como paludismo e diarreicas agudas.
“A cidade encontra-se completamente suja. Mas acredito que alguns governantes vão defender a ferro e fogo Malanje como sendo um paraíso”, afirmou o rapaz de apenas 19 anos.
Ao nível do centro da ci-dade, as vias secundárias e terciárias, como as de acesso aos bairros da Canâmbua, Maxinde, Cangambo e outros encontram-se em péssimas condições de circulação. Da sede provincial para os municípios de Marimba, Caombo e Quela também encontram-se totalmente degradadas. As comunas de Milando, Moma, Bângalas, Kinguengue, Bembo, Caribo, Sautar e Quihuho estão intransitáveis, o que dificulta a execu-ção de projectos de impacto social e o escoamento da produção agrícola.
Sobre o que mudou ao longo desses anos em Ma-lanje, em termos económicos e sociais, uma jovem fun-
cionária pública, que solicitou o anonimato, disse: “Foram apenas nomeações de directores e administradores de uma área para outra. Dança de cadeiras. Não tenho ideia da realização, nos últimos anos, de obras de grande vulto na província”.
Israel Silva, advogado, manifestou-se preocupado com o elevado número de estudantes fora do sistema de ensino e com o débil funcionamento do hospital regional e dos centros de saúde instalados nos diferentes bairros da cidade.
“Na governação do malogrado Flávio Fernandes, os cidadãos iam desesperados aos hospitais e regressavam muitas vezes com alguma esperança. Hoje, deslocam-se aos centros hospitalares com pouca esperança e regressam muitas vezes em choros”, afirmou o advogado, que atribui parte da culpa à actual crise.
“É verdade que há crise no país, mas também reconheço que não há entrega das autoridades locais em realizar um trabalho efectivo, aproveitando os parcos re-cursos”, disse.
Para o jurista, a prioridade na província deve passar pela funcionalidade dos serviços de saúde a todos os níveis, conclusão das obras de reabilitação das escolas na sede provincial e demais localidades, para incluir as crianças no sistema de ensino. Sugere ainda o investimento em empresários patrióticos na região para evitar o descaminho dos fundos concedidos para a execução de projectos sociais.

Desemprego

Outro problema que a população quer presente ao Chefe de Estado está relacionado com o desemprego na província de Malanje, como defenderam dois munícipes do Bairro Azul, no centro da cidade.
Preocupados com a situação, os jovens contam que, em Malanje, não há empresas geradoras de emprego, sobretudo, para os jovens, com excepção da Companhia de Bioenergias de Angola (BIOCOM), localizada no município de Cacuso, produtora de Etanol, açúcar, incluindo energia eléctrica.
A BIOCON contrata jovens, mas concede-lhes empregos precários, referiram os jovens, acrescentando que esta companhia oferece contratos que a qualquer momento podem ser rescindidos.
“Por qualquer motivo, os trabalhadores muitas vezes são despedidos”, denunciaram.

Delinquência

A letargia do sector económico, que tem a responsabilidade de alavancar o emprego, tem favorecido a elevação dos índices de criminalidade na região. Em certas zonas de Malanje, torna-se um risco circular no período nocturno. No bairro Vila Matilde, há relatos de casos de furtos, violações e prostituição.
Na Canâmbua, Carreira de Tiro, Campo de Aviação, Camgambo, Cahála ou Maxinde o cenário é o mesmo. “Neles, não é aconselhável circular para além das vinte horas”, conta uma anciã, que há menos de duas semanas foi vítima de assalto na sua residência, na Carreira de Tiro.
“Na Carreira de Tiro, é difícil não acontecer um homicídio num mês. E os corpos das vítimas são atirados normalmente no Rio Malanje”, conta, com muita tristeza, a anciã, acrescentando que, quando clamam pelo socorro da Polícia, alega falta de meios rolantes e efectivos.

 

O velho problema da energia eléctrica

Malanje alberga as Barragens de Laúca e Kapanda, mas, dos 14 municípios que constituem a província, ape-
nas as sedes municipais de Cacuso e Malanje beneficiam de energia eléctrica a partir das referidas centrais hídricas.
Como é possível que Uige, Cuanza-Sul e Cuanza-Norte recebam regularmente energia eléctrica dos dois empreendimentos hídricos, quando Malanje, que alberga as infra-estruturas, não beneficie sequer 40 por cento deste bem?”, queixa-se a maioria dos cidadãos abordados pela nossa reportagem .
Alguns referiram-se ao facto de o município de Cangandala, o mais próximo da sede provincial (dista 28 quilómetros), até ao presente momento não beneficiar de energia eléctrica de Kapanda e Laúca. A mes-
ma situação, acrescentam, observa-se em Calandula, que não fica há muitos quilómetros de Kapanda.
Para as autoridades lo-cais, na base do défice de energia estão os poucos Megawatts dados pela EN-DE à província. Os habitantes sentem que a província “está sempre na cauda do desenvolvimento”. A nível da cidade de Malanje, nem todos os bairros beneficiam de energia eléctrica. O bairro Vila Matilde, por exemplo, regista muitos cortes, tal como Cahála, Camatondo e Cangambo. A nível da sede de Malanje, a iluminação pública é mais notável na estrada principal que corta a cidade, em direcção às províncias do Leste e do Bié.
“Nesta via é onde circulam, com maior frequência, os visitantes. O Chefe de Estado deve ficar atento, para observar os buracos que lá estavam e foram tapados há dias com terra vermelha, sobretudo, junto à “Shoprit”, contou um cidadão que transitava junto ao supermercado.
A reportagem do Jornal de Angola tentou contacto com a ENDE, sem sucesso. Mas soube, de fonte que não se quis identificar, que uma parte da cidade é atendida pela barragem de Kapanda e outra pela central térmica, montada no bairro do Cafucofuco.

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