Reportagem

Malanje já produz algodão

André dos Anjos |

Após avultados investimentos na reabilitação e modernização da indústria têxtil, Angola voltou ao cultivo de algodão em grande escala e espera colher nas próximas semanas cerca de 242 toneladas.

Projecto de plantação de algodão em Malanje e Cuanza Sul para dar suporte à indústria téxtil
Fotografia: Clemente Santos | Edições Novembro

As quantidades estão longe de suprir as necessidades das três unidades fabris existentes no país, mas marcam a ruptura com um longo ciclo de produção sem fins lucrativos em que as safras, de tão ínfimas, escapavam frequentemente às estatísticas oficiais.
As primeiras frentes de relançamento da produção de algodão no país, já no quadro de um programa estruturado pelo Ministério da Agricultura, foram abertas nas províncias do Cuanza Sul e de Malanje, numa área global de 242 hectares. A campanha arrancou em Fevereiro com dez toneladas de sementes. Para os entendidos na matéria, os números revelam que se está em presença de uma experiência piloto. Pois, em bom rigor, de um hectare, podem ser colhidas mais de duas toneladas de algodão e com 10 toneladas de sementes se podem produzir mais 500 de algodão caroço.
Em Malanje, a campanha é conduzida por uma cooperativa de camponeses, no município do Kunda-dia-Base, a 175 quilómetros da capital da província. No Cuanza Sul, uma associação de pequenos agricultores e uma empresa do ramo, a África Sementes, dão corpo ao projecto, que, para a próxima época agrícola, conta já com a adesão de um maior número de camponeses e empresários agrícolas.
O coordenador do programa de produção de algodão do Ministério da Agricultura, Carlos Canza, citado pela agência Angop, adianta que a próxima campanha, que, à semelhança deste ano, se circunscreve às províncias de Malanje e do Cuanza Sul,  arranca com um orçamento de 530 milhões de kwanzas, com previsões de colheitas a apontarem para 1.500 toneladas.
No quadro dos preparativos da próxima campanha, dados em posse da agência angolana de notícias indicam que o Ministério da Agricultura adquiriu o triplo da quantidade de sementes adquiridas para a presente época.
Ao programa de produção de algodão do Ministério da Agricultura, além do empresariado nacional, juntam-se investidores estrangeiros, como é o caso de uma empresa japonesa que quer cultivar algodão em Angola com recurso a tecnologias ultramodernas.
A empresa nipónica, de acordo com Carlos Canza, pretende implantar um sistema de rega gota-a-gota, numa área de dez mil hectares, no pólo agro-industrial de Capanda, na província de Malanje, com perspectivas de retirar cinco toneladas de algodão por cada hectare.
No global, a empresa japonesa espera colher anualmente cinquenta mil toneladas de algodão caroço, quantidade suficiente para transformar o país de importador para exportador de matéria-prima para a indústria têxtil.
Mas as ambições do país vão para lá da passagem da mudança de condição de importador para exportador. O Ministério da Agricultura, sempre que aborda o assunto, emite sinais de que Angola quer reposicionar-se entre os grandes produtores mundiais de algodão.
A criação do perímetro irrigado da Quipela (Gandula) , no Cuanza Sul, com uma área de 2.824 hectares reservados à produção de algodão é disso um exemplo. Os primeiros ensaios de produção de algodão em grande escala na província estão ser feitos aqui, de onde, a médio prazo, se espera colheitas anuais na ordem de cinco mil e 648 toneladas.  
Na Quipeua, a perspectiva é arrancar de cada hectare duas ou mais toneladas de algodão caroço anualmente. Orçado em 67 milhões de dólares, o projecto, em curso desde 2007, resulta de uma parceira entre os governos angolano e sul-coreano.
A despeito de toda a sua grandeza, o perímetro irrigado da Quipeaua é apenas um dentre vários projectos com que o país se prepara para resgatar o prestígio internacional granjeado no tempo colonial no mercado algodoeiro mundial.
A cultura do algodão foi introduzida em Angola em meados do século XVI e teve como ano de referência 1872, quando foram exportadas mil toneladas. Mas, até 196, as colheitas não passavam das 10 mil toneladas anuais. A primeira ruptura com o ciclo de plantações assistemáticas, o primeiro “boom” de que se tem memória na produção de algodão em Angola ocorreu em 1968, ano a partir do qual as safras evoluem para o dobro, passando de 15.243 toneladas para 31.817 em 1971.
A época de glória, no entanto, vem anos depois, em 1973, quando o país produziu, pela primeira vez, 86 mil toneladas de algodão e colocava-se então, por mérito próprio, nos lugares cimeiros dentre os grandes produtores mundiais.
Mas os conflitos de toda a ordem que se seguiram à Independência Nacional e que desmoronaram todas as estruturas primárias, secundárias e terciárias da economia angolana, cedo colocaram em desolação um substrato da economia que se afirmava progressivamente como uma potencial fonte de captação de divisas para o país.

Necessidades internas


A indústria têxtil do país necessita de aproximadamente 24 mil toneladas anuais de algodão. Um olhar retrospectivo nesse texto reconduz à garantia de um investimento japonês que, a médio prazo, vai resultar numa produção de 50 mil toneladas de algodão caroço por ano, quantidade suficiente para transformar o país, outra vez, de importador para exportador de matéria-prima para a indústria têxtil.
Por razões estratégicas, o Estado angolano começou pelo mais difícil. Entre atacar, primeiro, a reactivação dos campos de algodão, deu prioridade à reabilitação das fábricas têxteis, cuja intervenção requeriam maior investimento, comparado com o cultivo de algodão. Com isso ganhou tempo, pois, enquanto as potenciais zonas de cultivo eram desminadas, as unidades fabris instaladas nas grandes cidades estavam a ser reabilitadas.
Como Carlos Canza faz questão de sublinhar, “a cadeia de valor do algodão começou distante das áreas de cultivo, com a reabilitação e modernização das três fábricas têxteis, nomeadamente, Textang II, em Luanda, Satec, no Cuanza Norte, e África Têxtil, em Benguela.
Sabe-se que, no global, as três fábricas precisam anualmente de cerca de 24 mil toneladas de algodão fibra, quantidade que o país não produz ainda, o que faz com que o funcionamento das indústrias dependa, em grande medida, da importação de matérias-primas.
O programa de produção de algodão do Ministério da Agricultura tem como meta a produção de 100 mil toneladas anuais, num esforço repartido em 60 por cento para o sector empresarial e 40 para camponeses e pequenos agricultores.
A primazia pelas províncias de Malanje e do Cuanza Sul resultam do histórico das duas regiões.  Antes de 1975, a província do Cuanza Sul contava com uma área de cultivo estimada em 41 mil hectares, nos municípios do Sumbe, Seles, Libolo, Porto Amboim, Kilenda, Kibala, Amboim, Mussende e Conda, tendo atingido uma produção de quase 22 mil toneladas em 1973.
A província de Malanje foi, no tempo colonial, a maior produtora de algodão no país. A Baixa de Cassanje, região que abarca os municípios de Caombo, Marimba, Cunda-dya-Base, Quela e Massango, notabilizou-se pela quantidade e qualidade de algodão que colocava no mercado internacional. No âmbito do programa de produção de algodão do Ministério da Agricultura, estão reservados naquela área 250 mil hectares para cultivo de algodão.
Até 1961, a região era habitada por 150 mil habitantes e os campos de algodão tinham quase 85 mil agricultores e respectivas famílias, alguns deles provenientes de outras áreas, coagidos a cultivar e vender o algodão a comerciantes portugueses.

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