Reportagem

Manbelé, figura anónima na construção da Angola livre

Matadi Makola

Está a cumprir rigorosamente o tratamento para que a outra perna não “ganhe” o mesmo destino. Para evitar esta ameaça real, não mede esforços em pedir apoios ao nível das Forças Armadas Angolanas e, em última istância, do Governo, apesar da crise, que define ser “um cancro mundial nos dias de hoje”, que se movimenta a seu desfavor. Por isso, entende que, diante do seu quadro, determinadas instituições declinem os seus pedidos.

Não leva a mal. Entende só e vive sem reservas, longe de tratá-las por “insensíveis”. O que o acalenta mesmo é o apoio moral dos seus filhos e os mimos que recebe dos netos e amigos. “É tudo o que tenho”, avalia, com algum brilho no olhar e uma nítida satisfação de dever cumprido, que deixa escapar na candura da voz firme.  Manuel Bernardo Júnior “Manbelé” nasceu a 5 Maio de 1942, na Ilha do Cabo. São poucas as pessoas que não o conhecem. Basta perguntar pelo Manbelé, que logo indicam o atalho que leva até à sua casa. Do seu vasto quintal, dispunha de uma vista privilegiada, flagrando escancaradamente a marginal a flutuar no mar da Kianda. Esse gozo natural de ilhéu foi-lhe interrompido pelos prédios paridos à força de uma evolução avessa a romantismos. Sem como impedir, contenta-se apenas com o seu quintal, que tem árvores, cães a brincar, uma cozinha que nos disse ser histórica por já ter servido figuras singulares da nossa sociedade, entre jornalistas, políticos, homens de cultura e amigos, quando organizava na sua casa o “ngundu”, uma tradição secular dos ilhéus.      
A alcunha Manbelé surge num acto de ressentimento, em consequência do “desprezo” a que ficou votado pelos amigos da sua idade, quando o seu nome “caiu” na rede da PIDE. Era membro da astuta CRL – Comité Regional de Luanda, organização clandestina dirigida por Juca Valentim. “Era um moço mestiço que trabalhava na aviação e tinha frequência universitária”, caracteriza-o. Segundo afirma, Juca foi um dos homens que a traumática tribulação pós-independência não poupou, sendo conceptualmente vítima da trágica condição do homem ser, literalmente, um animal político. “Ele era o cabeça”, lembra Manbelé.
O heroísmo de Juca Valentim tem como tónica a participação, a partir da torre de controlo, no desvio do avião português. Por estar ligado à aviação, facilitava informações que ajudassem a movimentação dos membros da CRL. Esta façanha ocorreu na metade da década de 1960 e ficou registada nos anais dos acontecimentos daquela época como “Operação Vitória ou Morte”.
 A rede da CRL era vasta, dispersa em diversas zonas de Luanda. Entretanto, entre os mentores do desvio do avião, tinha um primo que se chamava Diogo de Jesus, então funcionário do Laboratório de Engenharia, que fez parte do grupo que desviou para Ponta-Negra o avião português com destino ao Soyo, numa audaciosa investida de Nelito Soares e Loló Neto “Kiambata”, nomes que a posterioridade chamará de imediato quando quiser debruçar-se sobre este célebre acontecimento.
 Manbelé acresce que a reunião preliminar desta façanha de inestimável heroísmo, bem antes da partida, aconteceu por detrás do Marítimo da Ilha, na casa deste seu primo Diogo de Jesus, que viria valentemente a tombar em combate. Manbelé estava por dentro desta rede de nacionalistas, cujas honrarias merecidas  acredita terem sido preteridas em consequência dos “louvores” serem sempre endereçados quase que exclusivamente aos protagonistas do "Processo 50".
“Hoje não somos nem tidos nem achados. Falam apenas dos do "Processo 50". Mas nós, do CRL, não somos falados”, desabafa.
Manbelé pertencia à Ilha do Cabo e era coordenador do comité de acção. “Kiezo” (vassoura, em Kimbundu) era o seu nome de guerra e, igualmente, da célula que coordenava. Não tinha uma razão objectiva, apenas uma escolha aleatória. Kiezo veio-lhe à cabeça e não titubeou. “Gostava do nome. Percebi que me ficaria bem”, justifica. 
Tinha como grande propósito recrutar a juventude para a Luta de Libertação e espalhar a mensagem de que a independência era possível e que só nasceria pelas mãos dos próprios angolanos. Mobilizavam a população a entregar algumas roupas e bens que conseguiam furtar nos estabelecimentos onde trabalhavam, para posteriormente seguir para onde os revolucionários estavam.
“Os estafetas faziam, via Catete, o material chegar aos outros que estavam na Primeira Região Militar, exactamente no Úcua e Piri”. Manbelé não conhecia pessoalmente os guerrilheiros a quem destinava os medicamentos e munições. Era Juca Valentim, “homem de grande poder de contacto com as frentes de libertação do MPLA”, o ponto de ligação e fonte de discursos motivadores.
À época, muitos dos amigos da sua idade acharam prudente romper a amizade com alguém dado como “rebelde”, tanto que evitavam até membros da sua família. Naturalmente, isso o magoou. Desde então que decidiu ser amigo apenas dos mais novos com os quais comungava a “sagrada esperança” de uma terra livre. Estes, manifestando respeito, batizaram-no carinhosamente por Manbelé, corruptela de mano Manuel Bernardo, o nome que sobreviveu por décadas.

Prisão

Na sequência de várias prisões de nacionalistas, levadas a cabo pela PIDE, Manbelé vai preso no dia 27 de Outubro de 1969, longe de saber que a “desumana” São Nicolau lhe esperava. Contava 26 anos. É a partir da Base da Marinha Naval, onde trabalhava e ocupava a função de ajudante  fiel de armazém, onde acontece a captura. Do que lhe pesava em deixar para trás, doía-lhe profundamente abandonar a sua esposa, que tinha apenas 23 anos, e os quatro filhos. Vivia defronte ao actual Tamariz. A casa ainda lá está.
Sem muitos descaminhos, conservava o hábito de almoçar em casa e, naquela segunda-feira, não fugiu à regra. Quando o relógio marcava 13H00 já voltava ao serviço. Não gostava de dar nas vistas. Não lhe passava pela cabeça que a PIDE já estava penetrada no seu local de serviço e que era um dos principais vigiados. Eram cerca das 15 horas quando o chefe da secretaria, um senhor de origem são-tomense, manda-o chamar. Num passo calmo e de ar despreocupado, Bernardo avançava seguro para o gabinete, sem levantar suspeitas.
“Ó Bernardo, dizem que quando entras na base não facilitas o teu processo de identificação”, acusava o chefe.
Um tanto estupefacto, respondeu imediatamente: “Eu?! Porquê?”. Ciente da sua vulnerabilidade, tinha pensado com os seus botões: “Eu, civil, negro e não me identifico?!”. Sabia que não era possível, porque à porta ficavam sempre homens armados. Era impossível entrar naquela base naval sem estar devidamente identificado. Todos os trabalhadores carregavam os seus passes. Rapidamente, percebeu logo que alguma coisa estranha se estava a passar, mas muito longe de associar a uma possível prisão.
Voltou a retorquir o chefe: “Mas, já agora, vais dirigir-te ao gabinete do chefe tenente Dinis”. Andaria cerca de 500 metros dentro da base, para chegar ao gabinete do chefe Dinis, um branco português, onde agentes da PIDE o esperavam. Ao passar numa área civil da oficina, um miúdo negro ali da Ilha (ajudante, visto que era hábito recrutarem meninos para pequenos serviços), que estava ali de guarda, já tinha ouvido a conversa entre os dois brancos, um marinheiro e um outro civil (o cancela) e logo sussurrou ao Bernardo, na intenção de alertá-lo: “você será preso”.
Era costume haver sempre um menino negro aprendiz junto do cancela, que, ao final do expediente, ajudava na revista aos trabalhadores civis, impedindo que não levassem nada. Bernardo não deu importância ao que o miúdo lhe tivera sussurrado. Continuou o seu percurso imperturbável. Não lhe ocorreu fugir ou armar uma cena. Confirmou as suas suspeitas quando fez olhares de relance no decorrer do caminho e apercebe-se, pelo ambiente, que a base já estava toda cercada. Sem dar por isso, é logo surpreendido por um marinheiro branco, que se coloca atrás de si, mas que depois apressa-se, quando já chegavam ao gabinete do tenente Dinis, a ultrapassá-lo compulsivamente para subir as escadas que vão dar ao cubículo. Era um primeiro andar com escadas de madeira. O marinheiro branco entra e Bernardo fica em pé, à espera, no corredor. Ninguém na base se apercebe que naqueles instantes Bernardo está a ser preso pela PIDE. Todo o mundo entregue à lida habitual. Era só mais um dia.  
Passado pouco mais de um minuto, sai pela porta um outro homem branco, de calça azul escura, camisa branca e dava a entender um ar ameaçador. Pergunta-lhe: “Ouve lá, tu conheces quem é o Tetembwá?”. Esse era um dos nomes clandestinos lá da rede. Esforça-se em manter um ar sereno, enquanto pensa com os seus botões: “Prontos, estou perdido”. Seguro de si e contra o silêncio de Manbelé, o branco continuou: “Tu conheces quem é o Kiezo?”. O disfarce estava descoberto. Era certo que eles tinham o domínio do seu dossier. As provas estavam lançadas. Sem muito a dizer, levantou o rosto de forma altiva, puxou o fôlego e respondeu: “Sou eu”, assumiu, corajoso, Manbelé. Pela mesma porta surge outro branco que se lhe dirige: “Isto vai dar uma bomba dos diabos”. Os agentes da PIDE despediram-se do tenente Dinis e desceram. Em baixo, esperava-os um Land Rover, caixa curta.
Antes de subirem para o carro, já com as portas abertas, um dos brancos disse logo: “Mãos ao ar”. Bernardo apenas cede. De seguida, revista-o. Não encontrando nada, questiona, com ar de gozo: “A tua pistola, pá?”. Indefeso, Bernardo não responde. O ambiente obrigara-o a reconhecer que já pouco tinha a dizer. Entretanto, tudo de metal que Bernardo tinha eram apenas as inofensivas moedas que tilintavam no bolso direito, uma quantia modesta que servia apenas para beber a sua cerveja quando largasse do serviço, aí pelas 17 horas.
 Porque ainda tinham detenções por fazer, os agentes da PIDE decidiram deixá-lo na prisão da Base Naval. Ficou por lá cerca de três horas. Foram as três horas em que mais suou na sua vida. O terror do que sabia sobre métodos carniceiros que a PIDE procedia quando se tratasse de nacionalistas, desde queimar com cigarro, morte a tiro, arrancar os dentes, tirar as unhas com alicate, vinha-lhe imediatamente à cabeça que o dia da sua morte chegara. “Vão me matar”, monologava, aterrorizado, num espaço muito escuro.
Exactamente no momento do término do expediente, aí por volta das 17 horas, abrem a porta da prisão e Kiezo repara que eles vinham com mais dois presos angolanos. Reconhece num primeiro olhar que os mesmos eram da Ilha. Um era um rapaz de 19 anos (que morava junto à igreja) e outro (que morava junto ao Marítimo da Ilha) rondava os 23 anos. Sobem no carro e seguem para a casa de cada. Quando chegam à casa de Bernardo, aí junto ao Tamariz, o jeep pára à porta. Bernardo permanecia quietinho dentro do carro. Mas, para o caso de não conseguir conter-se e tentar uma fuga, um dos PIDE adiantara-se, ao ameaçá-lo nas seguintes palavras: “Serás um homem morto, se deres um passo em falso”. Os vizinhos logo viram que Bernardo estava a ser preso. A agitação não demorou. Alguns vizinhos, que estavam no lado errado da história e do tempo, diziam: “bem feito, querem receber a terra dos brancos. Terroristas”. Outros apenas olhavam em silêncio, resignados. O carro arranca, começando a distância de uma separação que duraria 5 anos. Bernardo seguia com a consciência pesada de que a sua família pouco tinha a fazer, senão suportar as consequências de ter um membro “terrorista”.
 Bernardo é, primeiramente, posto na prisão de São Paulo, onde fica cerca de sete meses. Passa depois 21 dias na polícia, junto aos correios, à espera do desterro, a pender entre São Nicolau e Tarrafal. Tinha direito a duas visitas por semana. Porém, as conversas só podiam ser mantidas na presença dos guardas, normalmente separados por um arame farpado.

Um professor no campo de concentração

Sabe a data com precisão, como se de um dia de aniversário fosse. No dia 23 de Maio de 1970, vai num grupo de 60 indivíduos. Foram levados para o Porto de Luanda, no intuito de embarcarem num navio que vinha de Lisboa e que trazia passageiros. Tratava-se de um barco que cumpria rigorosamente as rotas Lisboa, Luanda, Lobito e Moçâmedes. Não arriscava ir a Lourenço Marques (Maputo), por não ter capacidade de navegação no Índico, isto devido às turbulências provocadas pela força daquele mar.
Foram escoltados pelos autocarros da Polícia Araraquara. Os passageiros que vinham pela primeira vez, parados no convés, indagavam-se admirados, visto que lhes era passada a ideia de que os “terroristas” eram “monstros que comiam pessoas e tinham cabeças enormes”. Entretanto, a realidade mostrava-lhes gente falante da mesma língua e com “boa presença”. O barco partiu quase à meia-noite. Controlados por um número aproximado de 30 polícias armados, ficaram num porão onde só havia colchões de espuma. À primeira, julgaram que iam ser jogados ao mar. Mas a viagem prolongava-se. Comeram a farinha de musseque e a kitaba que tinham guardado das visitas que chegaram a receber durante os últimos dias.
  Quando chegam a Moçâmedes, misturados presos políticos com delinquentes acusados de variados crimes desonrosos, são novamente levados para outro lugar incerto. Mas, a dado momento do percurso, começam a ver o mar e a sua intuição de ilhéu devolveu-lhe alguma esperança. Era um sábado e o relógio marcava 16 horas. Vislumbra um quintalão com muita gente, que albergava até crianças e mulheres, e pouco lhe dava a entender que aquelas pessoas estavam presas. Parecia apenas estarem agrupadas. “Que lugar é esse?”, interrogava-se. Continuam e são levados a outro espaço do tamanho de mais ou menos um campo e meio de futebol, todo ele cercado de arame farpado, com duas casernas de capim no centro. Os camiões onde eram transportados pararam e, ao descerem, começaram logo a ser chicoteados pelos guardas brancos, da OPVDCA (Organização Provincial de Voluntários para a Defesa Civil de Angola).
“Eram assassinos. Analfabetos. Brancos maus”, classifica-os Manbelé, num tom que denuncia a sua repugnância. Estes guardas estavam sempre armados com baionetas e espingardas, ao contrário dos guardas pretos, chamados de auxiliares, que apenas tinham chicotes de pau com borracha ou cabedal. Eram sobretudo os auxiliares que apregoavam que todos os pretos que usassem óculos enquadravam-se no perfil do negro terrorista que queria receber a terra do branco, tudo para gerar mais ódio.
  Os presos na cidade de Moçâmedes, os chamados “semi-livres”, tinham acesso aos jornais e podiam ouvir rádio. Os do campo estavam impedidos do acesso à informação: o mundo deles começava e acabava ali. Eram pouco mais dez mil pessoas, tendo algumas com penas indeterminadas, condenados a passarem o resto das suas vidas naquela prisão a céu aberto.
Mal chegou ao campo, ficou num quintalão por seis meses, a prestar apenas trabalhos forçados, que consistia abusivamente em cavar buracos e usar a areia para encher as gamelas, pequenos recipientes feitos de madeira, só para deitar fora e depois voltar, vezes e vezes sem conta. O absurdo desta tortura levou Manbelé a cair na desmoralização: “Fiquei maluco”, recorda.
Durante esses seis meses, os processos dos presos eram reavaliados, no sentido de serem enquadrados em actividades similares a que praticavam antes de irem ao campo. Devido ao seu grau de instrução, foi colocado como um dos professores de uma educação confusa, que tinha o paradoxal nome de “Jardim Infantil”, e consistia em cuidar dos filhos dos presos de pena indeterminada, maioria oriunda do Norte de Angola.
“Havia muitas crianças no campo”, relembra. As crianças eram colhidas e levadas à berma do mar, junto a uns arbustos, onde só se deveria ensinar o hino de Portugal e canções populares da pátria lusa.

25 de Abril

Manbelé é depois transferido como operador de caixa de uma loja, com expressa recomendação de que jamais poderia sequer faltar um tostão. É desta loja onde recebe a boa nova da liberdade, embora alguns presos do campo já estivessem a par do que se passava, porque ouviam clandestinamente os noticiários através da rádio dos carros que iam parar nas oficinas. Muitos sabiam que a independência era uma questão de dias ou meses, que rebentaria a qualquer altura. Por outro lado, os presos da cidade, principalmente quem era empregado doméstico, faziam todo um esforço para actualizar os do campo sobre os últimos acontecimentos da colónia.
   Manbelé está na loja, num canto, quando chega a esposa do senhor administrador do campo, uma senhora natural da Bela Vista (Huambo), de nome Ângela, aí pelo final da tarde, para dar a boa nova aos empregados brancos. “Era uma mulher assassina. Gostava de ver os pretos serem chicoteados pelo marido”, descreve-a.
Só depois é que ela se aproxima de Manbelé. Mas este receava que fosse mais uma daquelas vezes em que Ângela o maltrataria. “Os presos já se vão embora”, atirara, para depois dizer directamente para Manbelé: “Ó Bernardo, vocês vão-se embora. Houve problema em Portugal”.
Não era novidade para Manbelé, que já sabia devido a informações clandestinas que os negros presos faziam circular. A informação foi passada dias antes por um contacto seu em Moçâmedes, a sua prima Maria José da Gama, irmã de Mário Gama, já falecida. Porém, Manbelé ouve tranquilo a mulher, que informa ter havido um golpe em Portugal. Não deixou transparecer a bomba de alegria que acabara de rebentar dentro de si. Mais tarde, por volta das 18 horas, o administrador informa, por via de microfone, que todos deveriam manter a calma e que os que soubessem escrever à máquina passassem para a administração, para fazerem guias porque “todos irão embora”.
Naquela noite, já tinha sido liberado o acesso à informação por rádio. O anúncio exalava esperança. O alvoroço era inevitável. Mambelé corre à secretaria e redige primeiramente a sua guia, outra para a esposa que chegou a arranjar lá e para os quatro filhos, rebentos desta relação construída na prisão. Passaram toda a noite a redigir guias. Muitos aviões (vulgo barriga de ginguba), num vai e vem, a levarem gente de Cabinda, Benguela e outros pontos. Foi avassaladoramente assaltado pela ânsia de poder voltar a ver a família que estava em Luanda e que não sabia se estava viva ou morta.
 Ainda ficou no campo cerca de um mês. Chegada a sua vez, Manbelé teve a cordialidade de pedir a autorização do administrador, de nome João José de Oliveira, para poder regressar à sua cidade e voltar a provar a saborosa liberdade. “Já podes ir, Bernardo”, foi o suficiente que ouviu do administrador, já sem legitimidade para retê-lo. Estava à disposição um autocarro, que partiria por volta das 15 horas do dia 17 de Maio de 1974. Pela atmosfera, era fácil calcular que o grito de independência abafado na garganta eclodiria brevemente.
   Manbelé, a companheira e os quatro filhos seguem neste autocarro e passam alegres por Bibala, Serra da Chela e só cumprem a primeira paragem perto de Kaluquembe, onde os passageiros compraram rações em algumas lojas de conveniência. Continuaram o percurso, atingindo a cidade do Huambo à noite, no maxibombo da “Eva”, como era chamado. Passaram a noite no Huambo e voltaram a partir mal a manhã nasceu.

Mãe, a minha mulher?

Em Luanda, o autocarro deixou os passageiros no Bungo. Manbelé e a sua nova família tomaram um outro que os levou à sua tão amada Ilha. Eram 23 horas de um domingo, 19 de Maio. O autocarro deixou-os defronte ao Tamariz. Encontrou a porta da casa fechada. Bateu com força e impaciência. Apercebe-se que alguém, do lado de dentro, tentava abri-la. Era a mãe, a quem se junta o pai, instantes depois.
Manbelé repara que a casa tinha um ambiente desolador. Os pais estavam arrasados com a sua ausência. As lágrimas vencem-no. Apercebendo-se da ausência de sua esposa, de nome Ana Bela “Melin”, as primeiras palavras que lhe saíram da boca foram as seguintes: “Mamã, onde é que está a minha mulher?”, ao que a mãe, também banhada em lágrimas, respondeu que se tinha ido embora. Muitos a tinham persuadido a não esperar por alguém que não sabia se estava vivo ou morto, motivo que levou a mulher a tomar a decisão de regressar à sua família.
Pouco convencido, traçou que iria procurá-la ás primeiras horas do dia seguinte, para um tête-à-tête. Manhã de segunda-feira, 20, Manbelé prepara-se confiante e vai ao encontro da mulher, embora estivesse informado que teria de lutar contra o mito que reinava, de que os que vinham das cadeias tinham adquirido natureza animalesca, acusando-os de serem “pessoas que matavam”. Para seu azar, uma das vítimas desse mito foi a sua mulher, ao dar conta de que tinha medo de o receber, desconfiada de que voltou transtornado devido a tanto sofrimento e maldades por que passou no campo.
Porém, não era o seu caso. Dissuadia argumentando que o campo fez dele outro homem. Foi lá onde estudou e desenvolveu mais a sua disciplina. Muitos nacionalistas aí presos, como Bornito de Sousa e seu irmão, de nome Baltazar, davam aulas a outros presos e Manbelé beneficiou desta formação. Bateu à porta do quintal da tia da esposa, de nome Ximinha, e pergunta pelo paradeiro da sua mulher. Respondem-lhe que ela se encontrava dentro de casa. Mesmo sabendo que era a voz do seu marido que ecoava lá fora, a mulher não veio a correr para os seus braços. Pelo contrário, aproximava-se calmamente, num silêncio apreensivo, de quem procurava acreditar no que via.
Já Manbelé, ansioso em voltar a abraçá-la, aborda-a nestes termos: “Dona Ana, já cheguei. Vamos colocar uma pedra em tudo o que se passou. Não vamos falar das coisas menos boas que te aconteceram na minha ausência. Mas eu quero declarar que eu trouxe uma mulher e filhos. Já não vais voltar em casa da mamã. Eu vou trabalhar e o que ganhar vai ser para reconstruirmos a nossa vida”. A sinceridade das palavras de Manbelé demoveu qualquer dúvida emperrada no coração da jovem mulher, com quem vive até hoje, “suportando”, mais tarde, as intermitentes distâncias consequentes da vida burocrática da carreira militar e política do marido. Por diversas vezes, era-lhe incumbida a missão de comissário político em diferentes províncias.
Hoje na reforma, pesam-lhe sobre os ombros as três estrelas da patente de coronel na reserva e recebe uma modesta quantia pela valorosa distinção de antigo combatente.        

11 de Novembro: o parto
da Nação

O parto da nação, a grande epopeia angolana assinalada a 11 de Novembro de 1975, ocorre-lhe defronte à Igreja da Ilha do Cabo, a inaugurarem o Comité de Acção da Ilha do MPLA, na presença dos camaradas Valódia, comandante Ngambá e Mbinda, que acabara de chegar da Zâmbia, enquanto no Largo 1º de Maio era erguida derradeiramente a bandeira da liberdade e com ela todo um país se firmava.
Nos dias que se seguem à independência, Manbelé trata logo de conseguir um espaço, a partir  da Junta da Habitação, este mesmo onde agora nos recebe. Todavia, a antiga casa já não existe, ficando apenas o quintal onde ergueu “com muito suor” a vivenda de sonhos para a sua família já numerosa. É neste pedaço de terra, ancorado na sua inseparável Ilha do Cabo, onde viu os filhos crescerem e agora recebe o calor dos netos. Estes, na mais imaculada das inocências, ao chegarem alegremente da escola, interrompem a fala do nosso interlocutor com a seguinte pergunta: “Avô, viste o teu jornal?”. Antes de qualquer palavra, Manbelé responde-os com um sorriso manso, desenhado no rosto já fustigado pelo tempo. Os meninos aproximam-se mais do avô e desfrutam da sua docilidade, diariamente recarregada com a brisa do mar que lhe lava a alma e devolve as tonalidades do natural coração humano.

A perna direita não resistiu

Na semana de fecho desta edição, fomos informados que o nosso interlocutor, Manbelé, sofreu outra cirurgia, cujo desfecho implicou a amputação da sua perna direita, depois de já ter perdido a esquerda. Num gesto misto entre o zelo pelo labor e a  solidariedade para com o nacionalista, a nossa equipa de reportagem voltou a pisar o famoso quintal de Manbelé, tendo testemunhado no local o seu progressivo estado de recuperação, rodeado de familiares e amigos. Recebeu-nos com a mesma alegria da vez passada, como se nada tivesse acontecido capaz de lhe afectar a força anímica ou a contagiante alegria juvenil.

Tempo

Multimédia