Reportagem

Mangal da foz do Chiloango em risco de desaparecer

Bernardo Capita | Cabinda

O ambientalista e agrónomo Tati Luemba, da Secretaria Provincial de Urbanismo e Ambiente de Cabinda, salientou a importância de preservar o mangal da foz do rio Chiloango sob o risco de serem extintas a fauna e a flora do local.

O mangal da foz do rio Chiloango tem de ser protegido para evitar a extinção da fauna e da flora que contribuem para o equilíbrio ecológico da região e a preservação do meio ambiente
Fotografia: Bernardo Capita | Cabinda

O local, habitado por inúmeras espécies de mamíferos, aves, peixes, moluscos e crustáceos, além de ser fonte de alimentos e rendimentos da população, contribui para o equilíbrio ecológico da região.
Tati Luemba referiu que o mangal “é uma comunidade dominada por várias espécies de árvores e arbustos” que se adaptam a viver em água salgada ou salobra.
O ecologista recordou que “os mangais desempenham um importante papel ecológico, mas são muito influenciados pelas marés” e que se formam “em zonas baixas dos rios, como estuários, baías e orlas costeiras tropicais e subtropicais”.
“O mangal é um ecossistema costeiro de transição entre os ambientes terrestre e marinho, em zonas húmidas”, referiu.
O especialista lamentou o nível de destruição do mangal devido à estagnação das águas provocada pela falta de circulação entre o rio e o mar e pelos derrames de petróleo que se verificam com alguma frequência em Cabinda e Cacongo.
“A Chevron fez estudos sobre o fenómeno da estiagem que se regista no mangal da foz do rio Chiloango, mas, como era de esperar, não se condena a si própria e limita-se a dizer que a seca resulta de derrames”, sublinhou Tati Luemba, que questiona os resultados apurados.

Importância do mangal

Devido à sua complexidade, a floresta do mangal é uma zona com muita matéria orgânica em decomposição. Serve de local de reprodução de muitas espécies de peixes, incluindo tubarões, que a utilizam para desovar, e é habitat de crustáceos e moluscos.
“É um ecossistema muito rico”, disse Tati Luemba, que sublinhou que “quando se destrói o mangal, atingem-se todas as espécies que lá se reproduzem”. O prejuízo maior, advertiu, vai para a economia das comunidades costeiras, que perdem uma importante fonte de rendimentos.
A destruição dos mangais, acentuou, tem reflexos a nível global devido à grande capacidade de purificação do ar e produção de oxigénio pelas plantas daqueles ecossistemas.
Tati Luemba lembrou a importância da preservação das florestas para o ambiente no planeta, pois “as plantas têm a capacidade de absorver o dióxido de carbono, que provoca o aquecimento global, pelo que quanto maior for a floresta mais são as quantidades de dióxido de carbono absorvidos”.
Para premiar os países que desenvolvem políticas sustentáveis de exploração de recursos florestais, disse, as Nações Unidas criaram o Fundo do Carbono, cujo valor atribuído aos países é em função da quantidade do dióxido de carbono absorvida. Tati Luemba referiu que o mangal do Chiloango e a floresta do Maiombe são áreas ecológicas importantes.

Projecto parado

O agrónomo recordou que em 2006 foi realizado um estudo para determinar as causas da seca do mangal na foz do rio Chiloango, no qual participaram especialistas da companhia petrolífera Chevron.
Após alguns meses de pesquisas chegou-se à conclusão que a deterioração do mangal se deve à acção do homem que provoca derrames de petróleo, abate indiscriminadamente árvores para produzir carvão e contribuiu para a falta de fluidez na circulação da água para o mar devido à retirada das manilhas que permitiam a sua movimentação de um lado para o outro da estrada Cacongo/Dinge durante a reabilitação desta via. A realização do estudo foi uma decisão do Executivo tomada no âmbito do projecto dos mangais da foz do rio Chiloango, inserido no protocolo ambiental estabelecido com a Chevron e dividido em duas fases.
A primeira, que consistiu na realização do estudo para determinar as causas da degradação do mangal, foi feito em parceria com a Universidade de Atlanta, Estados Unidos. “Depois de um trabalho aturado, os técnicos apresentaram publicamente os resultados que provaram que a danificação do mangal se deve à interrupção da água causada pela não inclusão das manilhas na reabilitação da estrada, já que o local era um pântano ligado”, salientou.
O estudo, referiu, deixou bem claro que os derrames contribuem para a destruição do mangal.
“Todos esses factores juntos fizeram com que as águas ficassem praticamente mortas, sem o oxigénio necessário à sobrevivência das plantas”, esclareceu.
A segunda fase previa a recuperação do mangal, que nunca se concretizou por falta de recursos financeiros e devido à extinção do Ministério de Urbanismo e Ambiente, que na altura coordenava o projecto dos mangais da foz do rio Chiloango.
“O projecto era de âmbito nacional. O Ministério de Urbanismo e Ambiente passou a ser somente do Ambiente. A nova ministra esteve cá muito recentemente, visitou o mangal e defendeu que os trabalhos devem começar, mas apenas com dinheiro da província”, declarou.

Pescadores apreensivos

O presidente da Associação dos Pescadores de Cacongo disse estar preocupado com a diminuição gradual de níveis de captura naquela região, que associa “à progressiva degradação do mangal e aos constantes derrames de petróleo”.
Por três vezes, lamentou, vimos volumes consideráveis de resíduos oleosos a flutuarem no rio.
José dos Santos salientou que “o futuro do mangal da foz do rio Chiloango pode ser desastroso”, pois “o processo de limpeza dos derrames é extremamente difícil devido à complexidade de acesso à floresta aquática”.
“A verdade é que o óleo que se acumula nos mangais nunca foi retirado e acaba por se dispersar com a movimentação das águas do rio, fixando-se nas raízes das árvores”, referiu. “A seca que ocorre no mangal é causada pelos derrames”, afiançou. Com a diminuição das capturas, concluiu, actividade piscatória pode entrar em falência e com ela o desemprego de milhares de pescadores.

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