Reportagem

Marraquexe tradicional resiste à modernidade

Augusto Cuteta |Marraquexe

O sol de 25 de Março nasce cedo em Marraquexe, cidade que, aos 26 graus Célsius, recebe nesse dia ilustres convidados. São ministros dos Negócios Estrangeiros e representantes diplomáticos de 40 países africanos, que chegam a Marrocos, para discutirem o diferendo entre esse reino da África do Norte e a Frente Polisário, um movimento político que luta pela autonomia do território do Saara Ocidental e pela autodeterminação do povo saaraui, mediante a proclamação da República Árabe Saaraui Democrática.

Fotografia: DR

Com 1.671 quilómetros quadrados de extensão, a Prefeitura de Marraquexe é a escolhida para acolher tão importante reunião, numa altura em que, poucos dias depois, na mesma semana, na África do Sul, Chefes de Estado e de Governo da SADC condenam a atitude dos participantes ao encontro daquela cidade de Marrocos.
Fora isso, Marraquexe é linda, além de histórica. Tem “ginga” que exibe aos seus visitantes. Com vários hotéis, aliás, grandes palácios e jardins, na sua maioria de cinco estrelas, com preços a começar pelos três mil dirhans marroquinos, ou seja, mais de 98 mil kwanzas, por uma diária, as cores da cidade chamam a atenção a qualquer pessoa que a visite, pela primeira vez. Os edifícios e muralhas são todos pintados a vermelho de terra, a tal “cor de tijolo”, como é habitualmente designada por muitos angolanos.
O impacto da decoração da cidade despertou a curiosidade do repórter deste diário. A partir daí, o jornalista, numa incessante busca pelo significado da cor dos imóveis de Marraquexe, encontra uma série de explicações. Mas, a mais próxima da lógica revela que os primeiros habitantes, dada a proximidade com o deserto do Saara, passaram a pintar as residências nesse tom para diminuir o impacto da luz solar.
É que a moda pegou até aos dias que correm. Fruto disso, Marraquexe, criada no longínquo século XI, pelos almorávidas, durante o sultanato de Yusuf ibn Tashfin, numa altura em que essa tem já alguns habitantes berberes, ganha a alcunha de “Cidade Vermelha”. No fundo, o nome caiu tão bem, que, actualmente, parece virar charme para os locais.
Se na parte externa dos edifícios, o povo de Marraquexe luta contra a força do Sol, no interior, a situação é diferente. Há luz, muita luz. As cores, de vários tons, ajudam a dar maior vida à beleza arquitectónica, que, tem modernidade, mas preserva sempre o tradicional. Ao branco, é misturada uma série de imagens e de mosaicos de outras épocas.
Nos pisos, os edifícios são ornamentados com belos tapetes, que duplicam o colorido dos hotéis e grandes vivendas de Marraquexe, que é uma cidade em terreno plano e sem edifícios muito altos. Os que divisámos não passam dos cinco andares.
Bem perto de Lisboa, capital de Portugal, percurso que é feito em cerca de hora e meia de voo, Marraquexe costuma ser uma das entradas de turistas a Marrocos, com a Praça Jemaa el-Fnaa, localizada na zona da Medina, a ser um dos principais atractivos para visitantes de diversas partes do globo.
Mas, há outros aspectos em Marraquexe para encantar os seus visitantes. No hotel em que estou, com mais de 300 quartos, uma das situações que desperta a atenção tem a ver com os “hospedeiros”. São bastante cultos, pois falam árabe ou berbere, francês, inglês, espanhol. São esses que ajudam o repórter a conseguir uma série de dados sobre a cidade, que tem mais de um 1.800.000 de habitantes.
Quarta maior cidade do Reino de Marrocos, atrás de Casablanca, Fez e Tânger, Marraquexe situa-se a 327 quilómetros de Rabat, a capital do país. Embora já habitada por berberes que se dedicam, nessa altura, ao campo, a cidade é fundada apenas em 1062, por Abu Becre ibne Omar, um caudilho berbere primo do emir almorávida Lúçufe Ibne Taxufine.
Almorávida. Quem é? É uma espécie de eremita (indivíduo que vive isolado, no deserto) muçulmano. Inicialmente, fala-se em monges-soldados ou grupos nómadas provenientes do Saara. Essa dinastia almorávida abraça o Islão e estende a cultura muçulmana, que origina um império, entre os séculos XI e XII. Esse reinado atinge o actual Saara Ocidental (a sua origem), Marrocos, Mauritânia e parte sul da Península Ibérica.
De volta à Marraquexe, actualmente, a cidade é dos principais pontos da cultura, da religião e do comércio para a região do Magrebe, com a Praça Jemaa el-Fna, inscrita, há 18 anos, na lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade, a dar cartas.
A cidade, antiga capital de Marrocos, em anos iniciais do século XVI, alberga os túmulos dos conhecidos “Sete Santos de Marraquexe”, que é a designação dada a sete sabedores e santos sufis muçulmanos ligados à região e que ali têm os seus mausoléus. Reza a história que as catacumbas dos santos são transladadas para Marraquexe, com vista a atrair peregrinos.

Do artesanato a meios modernos

Marraquexe segue os caminhos do desenvolvimento, como Rabat e Casablanca. Apesar disso, a região preserva sempre as edificações milenares, algumas das quais estão localizadas em áreas estratégicas, por isso os espaços adjacentes são aproveitados por comerciantes.
É igualmente nessas ruas que se vê os vendedores de rua, muitos dos quais oriundos dos bairros mais novos.
Apesar de preservar a produção de bens tradicionais da região, com destaque para as fábricas de tapetes dos antigos berberes, Marraquexe tem apostado, nos últimos tempos, em equipamentos mais modernos. A electrónica de consumo actual é uma dessas apostas.
Como em algumas regiões de Angola, o artesanato é das maiores actividades dos habitantes da cidade, que tem 79 por cento da sua população na zona urbana e só 21 nos bairros rurais. É, nessa última, onde o trânsito é feito com alguma dificuldade, dada a presença de cavalos à carroça, bicicletas e motos (muitas montadas por mulheres).

Gastronomia de dar inveja

Nos hotéis e restaurantes, a gastronomia é rica. A comida é caprichada, com pequenos detalhes que dão sabores inquestionáveis à iguaria. De tão boa que fica, há consumidores que nem querem saber de que prato se trata. O jornalista deste diário que o diga!
Entre os pratos que mais atraem os visitantes de Marraquexe, palavra de onde terá surgido a actual designação de Marrocos, constam delícias como cuscuz (que é cozido com leite batido), a sopa de harira (caldo à base de farinha e legumes, lentilhas, grão, cebola, tomate, ovos e arroz), cordeiros e tangia (carne de vaca ou peixe com legumes), kebab (carne espetada), tanjine e a berinjela frita.
Há uma série de variedades de carnes ou frangos, às vezes, de peixe, estufados, com destaque para touajen e djaja mahamara. Por norma, a cozinha marroquina faz recurso a especiarias e a doces.
Os sumos naturais e os chás marroquinos são dos que mais atraem os visitantes e os locais. Os famosos “chás marroquinos” arrastam centenas de pessoas para os restaurantes. As maiores solicitações são os feitos com gengibre ou canela. Esses chás ajudam na digestão, uma vez que a mesa marroquina é de fartura.

Locais de atracção turística


Além da Praça Djemma el-Fna, Marraquexe tem outros atractivos turísticos. A Mesquita Koutobia, embora seja um lugar que não recebe visitas, por ser um lugar sagrado, tem ali o ponto mais alto da região de Marraquexe, com uns 70 metros. Mas, na sua parte externa, há espaço de diversão e restaurante a céu aberto.
A Souk Smarine, onde se pode adquirir tecidos, especiarias, antiguidades e tapetes de qualidade, além de outros produtos, e a Medersa Bem Youssef, lugar de estudos religiosos e que alberga uma universidade, onde se ensina o Alcorão, são outros lugares que atraem visitantes. Há ainda o Portão Bab Agnaou, que é considerado a entrada para a cidade imperial.
Marraquexe tem, além do Palácio el-Badi e do Palais el-Bahia (um grande palácio real, erguido pelo vizir (título) Bou Ahmed, que vivia ali com quatro esposas e 24 concubinas) e os jardins Menara (este tem um pavilhão que é o cartão postal da cidade) e Majorelle (ganhou o nome por ter sido pintado pelo francês Jacques Majorelle).

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