Reportagem

Matala diversifica receitas

João Luhaco | Lubango

Com a escassez de cambiais no mercado financeiro, parte considerável das empresas que dependiam de matérias-primas importadas para as suas actividades e que se viram em dificuldades de manter os níveis de produção, enveredaram por soluções internas, estendendo o seu âmbito de actuação à extracção ou cultivo das matérias-primas de que necessitam.

As máquinas utilizadas na fábrica estão equipadas com sistemas automatizados e modernos
Fotografia: Arimateia Baptista|Edições Novembro

A sucursal da Barco Trading Limited (BTA) em Angola é um exemplo de adaptação a cenários adversos. Instalada no país desde 2002, esta empresa de tabacos, produtora das marcas “Yes”, “Supermatch” (Jogador e Classic) e “Forum” (Sky Blue e Mentolado) sustentou a sua produção, durante anos a fio, com matéria-prima importada.
Agora, com a escassez de cambiais de Angola que usava para importar a matéria-prima, a BTA junta agora o cultivo de tabaco ao seu “core” de negócios. António Leão, o administrador da firma em Angola, conta que a empresa adquiriu um terreno de 5.000 hectares no município da Matala para fins agrícolas.
Entre as culturas projectadas para o local está o tabaco. As previsões apontam para colheitas suficientes para as necessidades da fábrica e excedentárias para exportação. É de agro-negócio que se fala, e para realçar a dimensão do projecto António Leão diz que na plantação vão “conviver” culturas de milho, tomate, batata rena e criação de aves e gado leiteiro.
O objectivo é, como faz questão de sublinhar, criar uma indústria de segunda geração para transformar os produtos do sector primário.

Bom clima

A Barco Trading Limited parte para o megaprojecto da Matala com a lição estudada. Em 2008, a empresa ensaiou os primeiros passos no cultivo do tabaco na província do Bié, com uma plantação de onde colhe, em média, 10 toneladas anuais, quantidade ainda exígua para cobrir as necessidades da fábrica.
Com o plantio de tabaco na Matala, a empresa espera livrar-se, em definitivo, das importações desta importante matéria-prima para a indústria tabaqueira. Os resultados da experiência piloto no Bié, assegura António Leão, mostram que Angola tem solos e condições climáticas adequados para produzir tabaco de qualidade.
Localizada na nova Zona Industrial do Lubango, a sucursal da Barco Trading Limited em Angola produz mensalmente perto de 20.000 caixas de cigarros, com 5.000 unidades cada uma. A par da componente industrial, a firma faz a distribuição dos seus produtos em Angola e no estrangeiro. Além-fronteiras, os principais destinos são a República Democrática do Congo e São Tomé e Príncipe. 
Com duas linhas de produção, a fábrica empacota cigarros em maços “soft” e “ryk tock”.  O processo do fabrico de cigarro na BTA consiste na selecção do tabaco, passa pela escolha do “talo”, caule da planta, que se junta  a uma folha  chamada “lamina”, e culmina com a lavagem em água e vapor.
Numa segunda fase, que acontece 30 minutos depois da primeira, os cigarros passam por uma máquina de corte, antes de serem acondicionados em embalagem para arrefecimento.
Cada marca obedece a critérios específicos, mas em todos os casos o controlo de qualidade do producto é feito minuciosamente para garantir que os teores de açúcar, carvão e nicotina cumprem os padrões. Somadas as fases de confecção do cigarro, desde a saída do tabaco do acondicionamento à embalagem, o processo leva aproximadamente uma  hora e 30 minutos.

Modernizar e exportar


As máquinas utilizadas pela BTA estão equipadas com sistemas automatizados que levam o tabaco a uma barra onde é enrolado e acoplado ao filtro, completando assim o ciclo de fabrico do cigarro, que depois é empacotado. Todo o processo é feito por equipamentos mecânicos monitorizados por operadores angolanos.
Considerado um dos maiores grupos da indústria de tabaco em África, com oito fábricas espalhadas pelo continente, a Barco Trading Limited já investiu mais de trinta milhões de dólares em maquinaria e construção civil.
No Lubango, a unidade fabril ocupa uma área de 15.000 metros quadrados. Tendo em conta a dinâmica do mercado de tabaco, que obriga a uma constante actualização de equipamentos, a empresa, adianta o director-geral da Barco Trading Limited em Angola, tem em perspectiva a modernização da maquinaria para alcançar níveis de produção que lhe permitam reforçar as suas exportações para a República Democrática do Congo e São Tomé e Príncipe e alargá-las a outros mercados.
“Queremos contribuir, à medida das nossas capacidades, para a captação de divisas para o país, para a redução das importações e a criação de novos postos de trabalho”, assegura António Leão, que a aponta o agro-negócio, numa clara referência ao cultivo e transformação de tabaco, como um ramo de actividade com forte capacidade de gerar emprego.

Trabalho e orgulho


A empresa emprega 145 trabalhadores, entre os quais 12 expatriados que apoiam a formação e especialização de técnicos angolanos em distintas especialidades. As  acções de formação têm por finalidade a substituição gradual e progressiva de colaboradores estrangeiros por nacionais. “Uma das principais preocupações do grupo é de gerar emprego para os nacionais e oferecer uma melhor condição de vida aos trabalhadores”, assegura António Leão.
 Marcos Fátima é um dos operadores angolanos formados na empresa. Há 11 anos na fabrica, conta que com o que ganha garante o sustento digno da família. Teresa da Purificação, também angolana, trabalha há 12 anos na empresa, onde entrou como administrativa. Depois de passar por uma formação, mudou de área e é hoje uma das técnicas de laboratório a exercer um papel importante nos  testes da qualidade dos produto da Barco Trading Limited.
Há sete anos na empresa, Vitorino Jay exerce a função de supervisor. À semelhança dos colegas, também conta que os rendimentos que aufere permitem-lhe fazer face ao custo de vida. Fruto dessa estabilidade, voltou a estudar, encontrando-se agora a frequentar a licenciatura em Direito.
Jay confessa que, antes de ser admitido no quadro de pessoal da Barco Trading Limited, não tinha noção do que se fazia na BTA, pois julgava que o cigarro comercializado pela firma era importado. “Afinal, tudo é feito aqui, da preparação do tabaco à confecção do cigarro”, diz, com algum orgulho.

Indústria com história


Dados disponíveis indicam que a indústria tabaqueira foi a primeira de todas as indústrias regulares em Angola. Chegou ao país pelas mãos do português Jacinto Ferreira da Cruz, industrial do ramo que, tendo feito fortuna no Brasil, investiu na criação da primeira fábrica de tabacos em Angola, importando máquinas da Inglaterra, picado de Havana e instalando-se numa casa alugada perto da Igreja dos Remédios, em Luanda.
Os primeiros registos de plantação de tabaco em Angola que chegaram ao conhecimento do mundo reportam-se às plantações do Golungo Alto (Cuanza Norte) e são anteriores à criação da primeira casa de produção de cigarros instalada em Angola, conhecida até hoje por FTU (Fábrica de Tabacos Ultramarina), na capital do país.
No século dezanove, informado que no Golungo Alto havia uma excelente qualidade de nicociana, planta do tabaco que se dá bem em toda Angola, Jacinto Cruz resolveu fazer aí uma plantação. Ainda sobre a qualidade do tabaco do Golungo Alto, há uma antiga referência a uma “fábrica” em 1833, propriedade do soba local, Bango Aquitamba, anterior à chegada do industrial português.
Mas a indústria tabaqueira em Angola arranca, de facto, em 1884, quando José Jacinto Cruz adquire um prédio virado para a Baía de Luanda, actualmente em degradação acentuada, onde se instala uma fábrica digna desse nome, que emprega trinta pessoas que, com máquinas inovadoras de pique do tabaco, embaladoras, prensas, estufas e até uma tipografia para confeccionar as suas próprias embalagens, dão início à nova actividade.
As primeiras marcas lançadas no mercado pela FTU são a “Flor do Dande”, Picado “Holandez”, “Meio Forte”, “Repicado”, os charutos “Jacinto” e uns cigarros sem nome vendidos em maços de 600 gramas. Mais tarde, apareceram o “Francês nº 1”, o “Estrella”, o “São Rafael”, os “Hermínios” e o Swing.
Com a indústria tabaqueira em Luanda, multiplicavam-se pelo país as plantações de tabaco. No território que hoje compreende a província da Huíla, o município de Quilengues chegou a ocupar um lugar de destaque. É talvez por isso, admite António Leão, que em apoio às intenções manifestadas pela Barco Trading Limited para cultivo de tabaco na província da Huíla, o governo provincial tenha indicado aquela circunscrição. 
António Leão conta que em 2007, por indicação do vice governador da Huíla para o sector Económico, Cunha Velho, a firma desencadeou os primeiros contactos em  Quilengues com as autoridades locais. No terreno, encontraram infra-estruturas do tempo colonial de fazendas de tabaco, com as respectivas estufas, “algumas ainda em condições e outras necessitando de reparo”.
 Mas foi no município de Chongoroi, província de Benguela, onde por intermédio de um fazendeiro, lançaram as primeiras sementes nas margens  do rio Capororo. Foi daí, conta, de onde comprovaram que o país tem solos e clima para a cultura do tabaco. “Bem produzido e tratado atinge uma qualidade tão boa como a dos países como o Brasil e Estados Unidos, referências mundiais no mercado de tabaco.
 “No Chongoroi, fizemos as primeiras experiência em 20 hectares, mas por falta de pesticidas, tivemos que usar técnicas tradicionais como o uso de calor  para esterilizar os canteiros”, conta António Leão. “Quando as plantas começaram a crescer, lembrámo-nos da exuberância do tabaco do Brasil, da Argentina e do Zimbabwe, pois era muito lindo”, salienta.
Na opinião de António Leão, Angola tem tudo para produzir tabaco de qualidade, mas o facto de o país ter abandonado a cultura de plantio dessa espécie fez com que o país acusasse algum retrocesso nessa matéria. Por isso, prossegue, a Barco Trading Limited  trouxe especialistas do Zimbabwe e da África do Sul, com experiência acumulada em plantação de tabaco.

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