Reportagem

Medicina tradicional é a opção

José Bule | Uíge

O átrio do hospital está sem pacientes. As portas estão abertas mas as salas de tratamento e corredores vazios. Não há sinais da presença de doentes na maior unidade sanitária do município do Songo. Não se ouvem gritos de dor. Ninguém chora. Silêncio total.

Director do hospital Municipal do Songo João Cassanda Lalá
Fotografia: Mavitidi Mulaza | Edições Novembro

Médicos e enfermeiros estão de braços cruzados. Conversam sobre os últimos desenvolvimentos sócio-económicos do país. Enquanto aguardam pelos pacientes,“navegam”na Internet através de dispositivos móveis.
Lêem notícias ou investigam matérias relacionadas com as ciências médicas, e não só. Não há movimentação de pessoas a entrar ou sair do hospital. As ambulâncias estão estacionadas. Mas os motoristas estão prontos para socorrer quem quer que seja. Apenas quatro pacientes estão internados no referido hospital com capacidade para 121 camas.
“Há dias assim. Aqui no Songo, por questões culturais, os doentes preferem tratar-se nas casas de cura do que virem ao hospital receber a devida assistência médica. A maioria prefere o tratamento tradicional”, disse o director João Lalá.
O hospital oferece serviços de cirurgia, medicina interna, pediatria, maternidade, banco de urgência, laboratório, hemoterapia, entre outros, assegurados por três médicos e 88 enfermeiros.
Uma das pacientes internadas, Luísa Adolfo, de 52 anos de idade, contou que saiu da localidade de Quiteca, na comuna do Quinvuenga, para remover um quisto no útero. Depois da operação, o médico decidiu mantê-la internada. “Fui muito bem atendida. Sinto que estou a recuperar bem”, disse. Depois de ter sido picada por uma cobra, Adelina Pedro, 43 anos, recebe tratamento no hospital. Ela agradece aos enfermeiros e médicos pela forma como a receberam. “Eu vinha do óbito do meu tio. Pelo caminho pisei uma cobra que depois me picou. Pedi ajuda às pessoas que passavam e me trouxeram imediatamente para aqui. Estou a ser bem atendida. Mas fiquei assustada quando dei conta que não havia outros pacientes no hospital”, referiu.
Outra paciente, Maria Inês, de 41 anos, padecia de paludismo intenso. Preocupada com o seu estado de saúde, entrou num táxi para percorrer os cerca de 77 quilómetros que separam a comuna do Lucunga, município do Bembe, sede municipal do Songo, em busca de tratamento médico. “Achei melhor vir aqui. Como não há enchentes, o atendimento é rápido e eficaz”, referiu.
Apesar da fraca presença de internados, o director da instituição avançou que mais de mil pacientes com malária, dermatoses, gripe, problemas respiratórios, diarreia e doenças de transmissão sexual foram atendidos no primeiro trimestre deste ano, nas áreas de pediatria, medicina interna, cirurgia e maternidade.
João Lalá acrescentou que no período em análise nasceram 174 crianças na maternidade do hospital e que nos últimos dias o índice de mortalidade materno-infantil reduziu significativamente, fruto das campanhas de sensibilização sobre os cuidados maternos e devido à melhoria dos serviços locais de saúde. O hospital administra vacinas do tipo BCG, hepatite B, poliomielite, pentavalentes, pneumonia, rotavirais, sarampo, febre-amarela e tétano, que servem de prevenção de várias doenças.
Na era colonial, o Songo tinha apenas dois postos médicos. Actualmente o município conta com 31 unidades sanitárias. Além do hospital, existem vários centros e postos de saúde em várias localidades do município, que perfazem uma capacidade de 259 camas. Nos últimos 15 anos, o número de enfermeiros cresceu de 30 para 183.
“Estamos a distribuir, gratuitamente, medicamentos em todos os postos e centros de saúde, no âmbito dos programas de municipalização dos serviços de saúde e do programa de combate à fome e à pobreza”, precisou a administradora municipal cessante.
Adelina Pinto lembrou que, no passado, o atendimento aos doentes era feito em condições muito difíceis. Por falta de ambulâncias, por exemplo, os doentes caminhavam ou eram transportados em tipóias até às unidades de saúde mais próximas, onde recebiam tratamento médico.
“Com a construção de centros e postos de saúde em 27 das 81 aldeias que compõe o município do Songo, hoje, tudo isso já faz parte do passado”, sublinhou. Adelina Pinto garantiu que, apesar da conjuntura económica que o país vive, no próximo ano vão ser criadas unidades de saúde em muitas das localidades em falta.
“O objectivo é aproximar os serviços de saúde às populações locais, melhorando o funcionamento do sector nas comunidades”, referiu.
Para evitar enchentes nas unidades sanitárias, a Direcção Municipal da Saúde do Songo criou uma equipa integrada por enfermeiros, médicos e agentes comunitários, que de tempos em tempos vão ao encontro da população com o objectivo de oferecer ajuda médica e medicamentosa.
Na última campanha que decorreu de Março a Abril deste ano, em várias localidades do município, a equipa de médicos e enfermeiros prestou assistência a mais de 200 pessoas. A maioria dos assistidos padeciam de doenças como paludismo, pressão arterial, tosse, diarreia, doenças respiratórias e infecções da pele.

                                                                     Produção de banana
A maioria
da população do Songo dedica-se à agricultura. Produz essencialmente mandioca, amendoim, feijão, batata rena, milho e batata-doce. Mas a banana merece destaque pelas centenas de
toneladas que são transportadas diariamente para outros pontos do país.
Os mercados municipais do Quimalalo, da Baia e outros do tipo rural, constituem os principais pontos de referência para os vendedores e compradores da banana na província do Uíge.
Adelina Pinto acredita que o comércio da banana pode contribuir para a arrecadação de receitas para o desenvolvimento do município.
No domínio da agricultura, a administração adquiriu um tractor que ajuda os pequenos agricultores na lavoura. Nas aldeias do município estão a ser criadas lavras comunitárias. O objectivo é aumentar os níveis de produção de alimentos em benefício das famílias mais carenciadas.
“Estamos a fazer lavras comunitárias nas aldeias para ajudar as famílias carenciadas, sobretudo os deficientes. Os resultados já são visíveis. No ano passado colhemos 37 sacos de ginguba que na próxima época agrícola vão servir de sementes”, disse.
Depois da criação de um campo agrícola onde aprendem as novas técnicas de plantação em várias aldeias e regedorias do município, os agricultores foram aconselhados a organizarem-se em associações ou cooperativas agrícolas.
Até agora foram constituídas 54 associações e algumas cooperativas agrícolas integradas por 5.475 agricultores.

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