Reportagem

Mediterrâneo é o mar mais poluído

Osvaldo Gonçalves

O Fundo das Nações Unidas para a Natureza (World Wide Fund for Nature - WWF) refere que, todos os anos, 0,57 milhões de toneladas de plástico entram nas águas do Mediterrâneo.

Fotografia: Eduardo Pedro | Edições Novembro

É o equivalente a 33.800 garrafas de plástico despejadas no mar a cada minuto. Os cientistas prevêem que a poluição por plástico vai continuar a crescer e que a produção na região quadruplique até 2050.

Fundo do mar
O Mar Mediterrâneo é uma espécie de Everest da poluição por plásticos nos oceanos, contaminados, a cada ano, por 13 milhões de toneladas do produto, o que mata 100 mil espécies marinhas.
A 1 de Maio último, o explorador aquático norte-americanoVictor Vescovo efectuou o mergulho mais profundo de sempre no Fosso das Marianas e encontrou, a 10,927 metros de profundidade, um saco de plástico e papéis de rebuçados.
A bordo do submersível “The Limiting Factor”, Vescovo e sua equipa desceram ao fundo da Depressão Challenger, o mais profundo fosso do mundo. Realizaram cinco mergulhos em 12 horas.
“Vi coisas muito interessantes no fundo”, disse o norte-americano,de 53 anos.
O recorde anterior fora fixado pelo realizador James Camoron, também no Fosso das Marianas, em 2012. Na altura, ele desceu a uma profundidade de quase 11 quilómetros.
“É impossível descrever o quão entusiasmados estamos, por termos alcançado este recorde”, disse à CNN o explorador após o feito.
A equipa de Vescovo acredita ter descoberto quatro novas espécies de crustáceos, semelhantes a camarões, no fundo da depressão. Foram ainda vistos pepinos-do-mar e formações rochosas “de cores vibrantes”, que podem ser depósitos químicos. Mas o sucesso da expedição ficou manchado pela descoberta de lixo humano, deixando claro que a poluição chegou ao local mais profundo dos oceanos. No ano passado, a organização Ocean Conservancy afirmou que, em menos de 10 anos, deverão existir 250 milhões de toneladas de plástico nos oceanos, e em 2050 poderá haver mais plásticos que peixes, caso nada seja feito.

“Mar de plástico”
Num relatório divulgado por ocasião do Dia Mundial dos Oceanos, 8 de Julho, numa altura em que há um intenso debate sobre o impacto do homem na qualidade da vida nos oceanos, sobretudo por causa de décadas de uso de plásticos, o WWF afirma que, no caso do Mediterrâneo, o maior problema são os microplásticos.
Cerca de 95 por cento dos resíduos que flutuam no Mediterrâneo são compostos por plásticos, o que faz temer que este se tranforme num “mar de plástico”. Entre 21 e 45 por cento de todos os microplásticos, pedaços muito pequenos, difíceis de detectar, resultantes da fragmentação de porções muito maiores, em contacto com a força das ondas, estão no Mediterrâneo, segundo a organização ambientalista Greenpeace.
De acordo com os estudos, mais de 134 espécies estão contaminadas pela ingestão de plástico no Mediterrâneo, o mar mais contaminado do Mundo. Apesar da situação, nem tudo está perdido. “Ainda vamos a tempo de salvá-lo”, diz a ONU.
Manu San Félix, biólogo marinho e explorador da National Geographic, afirmou que “é possível devolver-se o Mediterrâneo ao estado em que estava há 80 anos, como uma espécie de máquina do tempo para devolver-lhe a vitalidade”.
Citado pelo jornal “La Vanguardia”, o biólogo diz que “estamos a tempo de salvar o Mediterrâneo”, mas alerta: “é agora ou nunca”. Vários programas e campanhas para tentar travar o problema estão em curso, desenvolvidos pela ONU, outras organizações internacionais e instituições governamentais.

Destinos turísticos contaminados

O WWF afirma que o problema não é novo e resulta do fracasso dos países mediterrânicos na questão dos resíduos plásticos. A organização atesta que a poluição daquele mar está a aumentar e o problema pode ganhar dimensões ainda maiores. A “poluição por plástico continuará a crescer” e pode quadruplicar nos próximos 30 anos.
Entre os litorais mais contaminados na costa mediterrânica estão vários destinos turísticos: Barcelona e Valência, em Espanha; Telavive, em Israel; Marselha, em França; ou Veneza, em Itália.
A bacia hidrográfica do Mediterrâneo inclui Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Egipto, Israel, Líbano, Turquia, Grécia, Albânia, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Eslovénia, Itália, França, Espanha, Chipre, Malta, Síria, Montenegro, Gibraltar, Acrotíri e Deceleia, e República Turca de Chipre do Norte.
Apesar das grandes quantidades de lixo, muitos países já com problemas com a gestão de resíduos importam grandes quantidades desses desperdícios. Teme-se, por isso, que acabem em aterros, incineradoras ou em lixeiras a céu aberto.
Contas feitas, o lixo marinho custa aos sectores do Turismo, Pesca e Transportes Marítimos cerca de 641 milhões de euros por ano.

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