Reportagem

“Medo: Donald Trump na Casa Branca”

Osvaldo Gonçalves

Bob Woodward, jornalista de investigação norte-americano, que, juntamente com Carl Bernstein, revelou o caso Watergate, que provocou a renúncia de Richard Nixon, em 1974, está agora de volta com um livro sobre Donald Trump, o actual “inquilino” da Casa Branca.

Fotografia: DR

O livro, a ser lançado a 11 de Se-tembro, traça o retrato de um Presidente inculto, colérico e paranoico, cujos secretários e conselheiros esforçam-se permanentemente por controlar a situação, para evitar males piores. De acordo com o jornal “Washington Post”, “Fear: Trump in The White House” (Medo: Trump na Casa Branca)”, descreve os estratagemas de uma equipa desesperada para “controlar os impulsos e evitar desastres” do chefe “tresloucado”.
A imprensa em todo o mundo frisa que Woodward “tem pergaminhos suficientes para ser levado muito a sério em Washington” e, por isso, acrescenta, “quando escreve sobre o Presidente dos Estados Unidos, o mundo pára para ouvir”. Essa é a principal razão por que o livro está a ser muito aguardado. O “Washington Post” publicou há dias vários excertos pouco abonatórios para o 45º Presidente dos Estados Unidos.
A comunicação social avança que o livro inclui episódios incríveis dos primeiros 18 meses de Trump no cargo, entre os quais um em que o seu chefe de gabinete, John Kelly, lhe terá chamado “idiota” em privado e que elementos da sua equipa lhe retiraram documentos sensíveis da secretária, para impedir que ele os assinasse. Outra situação relata tentativas do Presidente para retirar os Estados Unidos do Tratado de Comércio Livre da América do Norte (NAFTA). Assessores, segundo o livro, pensam que o Presidente muitas vezes não sabe o básico sobre política externa.

“Cidade dos Loucos”

De acordo com o livro de Bob Woodward, John Kelly, tradicionalmente o homem mais próximo do Presidente dentro da “West Wing” (ala presidencial) da Casa Branca, vive em clima de frustração permanente. Numa reunião à porta fechada, Kelly teria afirmado, sobre Donald Trump: “É um idiota. É inútil tentar convencê-lo do que quer que seja. Nem sei mesmo o que estamos aqui a fazer. É o pior trabalho que alguma vez tive”. E rematou: “Estamos em Crazytown (Cidade dos Loucos)”.
Em “Fear: Trump in The White House”, Woodward revela ainda que o ex-advogado de Trump na investigação sobre a eventual ingerência russa nas eleições presidenciais de 2016, John Dowd, duvidou da capacidade de Trump para não cometer perjúrio, caso fosse entrevistado pelo procurador especial Robert Mueller e aconselhou-o: “Não testemunhe. É isso ou um fato-macaco cor de laranja” (uniforme da cadeia).
Bob Woodward refere ainda no livro, que, numa dessas reuniões com a equipa de Segurança Nacional sobre a presença militar na Península Coreana, o secretário da Defesa, Jim Mattis, tenha tentado explicar a Trump por que é que os Estados Unidos mantêm tropas na Coreia do Sul para monitorizar as actividades norte-coreanas de lançamento de mísseis balísticos. “Fazemos isso para impedir a Terceira Guerra Mundial”, terá então dito Mattis. No final da reunião, comentou com pessoas do seu círculo restrito que o Presidente comportava-se como quem tem a idade mental de “um miúdo do quinto ou do sexto ano (10 ou 11 anos)”.
Woodward escreve ainda que, após o ataque químico de Abril de 2017, atribuído ao governo do Presidente sírio, Bashar al-Assad, Trump telefonou ao general Mattis e disse-lhe que queria assassinar Assad. “Vamos matá-los a todos! Vamos a isso! Entramos lá e acabamos com eles”, terá afirmado o presidente.

Sob fogo cruzado
Donald Trump não falou com Bob Woodward até ao manuscrito do livro estar concluído, mas o jornal divulgou uma gravação áudio do Presidente a expressar surpresa em relação ao livro, numa conversa tida em Agosto com Woodward, em que o autor lhe diz ter contactado diversos responsáveis para tentar entrevistá-lo e lhe disseram sempre que não.
O Livro de Bob Woodward segue-se à publicação, em Janeiro, de “Fire and Fury (Fogo e Fúria)”, de Michael Wolff, que desencadeou um conflito entre Trump e Steve Bannon, o seu ex-estratega principal, que falou com Wolff sobre Trump e a família em termos considerados pela imprensa como “altamente críticos”. Os jornalistas acrescentam, entretanto, que, embora tenha chamado as atenções, com os seus episódios desconcertantes, a obra padecia de muitas imprecisões factuais.
O momento continua muito conturbado para Donald Trump. O livro surge algumas semanas depois de Omarosa Manigault Newman, antiga assessora da Casa Branca e concorrente do programa de televisão “O Aprendiz”, protagonizado por Trump, ter editado um livro sobre o tempo que passou na West Wing. A obra inclui gravações áudio dela a ser despedida por John Kelly e de uma conversa posterior com o Presidente em que este afirma que não estava a par da decisão de Kelly de despedi-la.
Em defesa própria, Trump tem-se mostrado cada vez mais crítico em relação a fontes anónimas utilizadas por jornalistas que escrevem sobre a sua Administração. No final de Agosto, o Presidente atacou com violência, na rede social Twitter, Carl Bernstein, que, como Bob Woodward, tornou-se uma figura destacada do jornalismo de investigação por causa do caso Watergate.
“Estamos a rir-nos, em todo o país, do desprezível Carl Bernstein, um homem que vive no passado e pensa como um velho degenerado, inventando história atrás de história! Fake News! (Notícias Falsas!)”, escreveu. Há quem afirme que o relato de Bob Woodward assenta em chamadas "conversas de fundo” com fontes, nas quais as suas identidades não são reveladas.
No novo livro, com 448 páginas, o jornalista, agora com 75 anos de idade e que continua a integrar a redacção do jornal “Washington Post”, descreve detalhes alucinantes de um Governo à beira de um “colapso nervoso”.

“Sou parte da resistência ...”

Donald Trump queixou-se sempre da existência de um “deep state” (estado profundo, tradução à letra), que actua ao mais alto nível para deslegitimar a sua presidência e travar as suas políticas. Isto depois de ter chegado à Casa Branca com a promessa de "drenar o pântano" que é Washington. O que parecia uma teoria da conspiração, tornou-se num facto, graças a um artigo de opinião que está a abalar a política norte-americana e que é apenas o mais recente golpe contra o Presidente dos EUA.
"Eu sou parte da resistência dentro da Administração Trump." Este é o título do artigo de opinião, anónimo, publicado na quarta-feira à noite pelo “The New York Times”. O autor ou autora diz trabalhar para o Presidente e revela que muitos dentro do Governo “estão a trabalhar diligentemente desde dentro para frustrar partes da sua agenda e as suas piores inclinações”.
O autor ou autora acusa o Presidente de “amoralidade”,  “pouca afinidade com os ideais republicanos”, “comportamento errático” e “uma impulsividade” que resulta em “decisões mal informadas e ocasionalmente imprudentes das quais é preciso recuar”. Fala de um Presidente “que mostra preferência por autocratas e ditadores” a nível de política internacional, mostrando “pouca apreciação para os laços que nos unem aos aliados”, enquanto este grupo da “resistência” tenta fazer o contrário.
“Pode servir de fraco consolo nestes tempos caóticos, mas os americanos devem saber que há adultos na sala. Nós reconhecemos totalmente o que está a acontecer. E estamos a tentar fazer o que é correcto, mesmo se Donald Trump não o fizer”, lê-se no artigo. “Este não é o trabalho do chamado deep state. É o trabalho do estado estável”, diz o texto, indicando que chegou a ser falado dentro da Administração de invocar a 25ª Emenda da Constituição. Esta daria início ao processo para destituir o Presidente, mas ninguém queria “precipitar uma crise constitucional”, pelo que prometem continuar a levar a Administração no bom caminho “até - de uma forma ou de outra - acabar”.

Publicar ou não publicar? O artigo que divide a América e o jornalismo

O lado mais negro dos bastidores da Administração Trump foi revelado sob anonimato nas páginas de um jornal. O que tem o jornalismo a dizer sobre isto? E o que diz isto sobre o jornalismo?
Quando o The New York Times decidiu desafiar os cânones do jornalismo e publicar um artigo de opinião sem identificar o autor do mesmo - referindo apenas que se trata de um alto funcionário da administração Trump - não foi só a América que entrou em alvoroço.
O texto que denuncia a existência de um grupo de oficiais dentro da Casa Branca que "tenta frustrar partes da agenda" e os “piores impulsos” do presidente dos Estados Unidos levantou questões jornalísticas e deontológicas que agitaram as redacções e a opinião pública.
Deve um jornal publicar uma opinião sem identificar o autor? Está o interesse público acima da transparência? Depois da polémica instalada, deve o “The New York Times” (NYT) revelar a fonte?
A presidente do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas de Portugal é perentória: “Não há opinião anónima”.
Em entrevista à TSF, São José Almeida defende que a decisão de publicar um texto opinativo sem assinatura é injustificável e abre precedentes para que se confunda o trabalho jornalístico com o tipo de acusações, muitas vezes anónimas, veiculadas no mundo digital. "Há um mundo de diferenças entre o jornalismo e as redes sociais. Um artigo de opinião anónimo é uma coisa que não existe nos jornais."
Ainda que não concorde com a posição do NYT, por considerá-la "jornalisticamente e deontologicamente errada", a jornalista considera que o jornal não deve revelar a fonte por ter assumido um compromisso de anonimato com o autor.
"A denúncia da fonte só é justificável e aconselhável se a fonte tiver enganado deliberadamente o jornalista e isso se vier a comprovar. A partir do momento em que o “The New York Times” decide publicar um texto de opinião sob anonimato não deve, sob pressão nenhuma, vir denunciar quem é o autor do artigo, nem mesmo em tribunal."
A mesma opinião é partilhada pelo director do jornal Público, que acredita que nenhuma pressão vai levar o “The New York Times” a revelar o autor do artigo:
“Parece-me que os checks and balances (sistemas de equilíbrio) que existem na democracia norte-americana ainda são suficientemente fortes para proteger o segredo das fontes”, adianta Manuel Carvalho.
Já no que diz respeito à publicação do artigo de opinião anónimo, Manuel Carvalho não é tão radical. Apesar de sublinhar que não o faria no jornal que dirige, por não gostar de ver confundidos os termos "opinião" e "informação", o director deste diário sublinha que o interesse público pode justificar a decisão do Times.
“Não me escandaliza que a direcção do “The New York Times” tenha optado por esta solução, porque aquilo que está acima de todas as discussões; é a avaliação que eles fizeram sobre a importância para o interesse público e para a opinião pública de se saber que há uma corrente de resistência dentro da administração Trump.”
Ainda assim, Manuel Carvalho defende que, se estivesse na posição dos directores do Times, optaria por mudar "a forma" e não "o conteúdo".
"Aquilo que se podia ter feito era haver uma notícia assumida por um jornalista ou pelo próprio jornal em que ouvia todas as informações que esse alto funcionário tinha para dizer e escrevia uma notícia com o mesmo título, com o mesmo tipo de teor e com o mesmo tipo de informação."

Caça ao homem
Ainda que o The New York Times se recuse a revelar o autor do artigo, não faltam palpites sobre quem poderá ter escrito o polémico texto. Trump já avisou que vai "drenar o pântano" para descobrir a fonte do jornal e a imprensa já avançou com vários possíveis autores.
Um dos primeiros nomes apontados foi o de Mike Pence e tudo por causa de uma simples palavra: "lodestar" (em português, estrela polar). O termo pouco usual aparece no texto do “The New York Times” e é utilizado com frequência pelo vice-presidente dos EUA, o que alimentou a suspeita. O político já veio, no entanto, desmentir a acusação.
Entretanto, a CNN publicou uma análise com uma lista de 13 possíveis autores do artigo, entre os quais vários protagonistas políticos, mas também nomes mais inusitados, como a mulher, a filha e o genro de Donald Trump.

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