Reportagem

Memórias expostas em museu trazem à luz barbaridades do genocídio do Rwanda

João Dias | Kigali

Na cidade das mil colinas não existem marcas visíveis sobre o que aconteceu, faz 25 anos, quando os hutus, incitados pelo ódio, “inventaram” o genocídio tutsi. Estava-se em 1990. Em cem dias, um milhão de pessoas morreram.

Memorial em homenagem ao genocício no Rwanda tem sido um ponto de atracção de turistas que visitam a capital deste país africano
Fotografia: kinLala Manuel | Edições Novembro | Kigali

Os instrumentos estão expostos sob a penumbra de uma luz que escancara o drama, no Memorial do Genocídio, um dos que reconta a história com frieza glaciar e objectividade seca. 

A cidade de Kigali, capital do Rwanda, ergue-se sustentável sobre a trágica memória. Não exige esquecimento, mas pede reconciliação e avanço em direcção a um futuro de respeito e inclusão. Não há lixo no chão nem contentores. Mulheres de coletes amarelos, sempre com vassouras de capim nas mãos, limpam a cidade a todo o instante.
Considerada asseada e segura, e que mais parece ter sido colocada no interior de um jardim, Kigali é educada, calma e aponta para um crescimento que se nota sem consultar estatísticas ou relatórios. Ocupa o 44º lugar no raking do “doing busness” e tem as mais baixas taxas de mortalidade materno-infantil e de sinistralidade rodoviária, não fosse o limite de 60 quilómetros hora nas estradas nacionais.
O turismo cresce exponencialmente ao mesmo tempo que, cada vez mais, vão lá instalar-se hotéis de renome internacional, geralmente de cinco estrelas. Crescem os serviços alternativos de transportes com bicicletas e motorizadas a disputarem clientes com o tradicional táxi automóvel. Crescem, também, os cafés que, não raras vezes, homenageiam os turistas com o emblemático “local tea” ou os chás produzidos na imensidão dos campos situados no sopé das colinas.
Visitar e ver “colónias” de gorilas é uma atracção quase inevitável para quem visita Kigali. Aliás, é uma das atracções que mais contribui para a elevação do turismo selvagem. Há, em Kigali, uma actividade agrícola que não escapa da observação de ninguém. Mas, há um detalhe: andam com enxadas nos ombros, machados, facões e foices na cintura. Os mesmos instrumentos usados hoje na agricultura, são os mesmos que hutus utilizaram para matar tutsis. Houve casos em que comunidades inteiras foram assassinadas. Em muitos casos, famílias inteiras desapareceram.
Ao longo de suas avenidas todas extraordinariamente verdes, ao longo de seus extensos campos de chá, soja ou mandioca, muitas serras, colinas e montanhas, há lá pessoas com memória. Há memória sobre o que aconteceu por todo o país. Em Kigali, as memórias não estão no rosto das pessoas, instituições ou ruas. A memória das atrocidades está no Memorial do Genocídio que não poupou nos detalhes. E a razão é apenas uma: lembrar, unir e renovar.
Mas, mais do que isso, é conhecer e não esquecer para que não seja repetido nunca mais um acto igual ao que ceifou um milhão de pessoas em cem dias, num país de 12 milhões de habitantes. Se não existisse o Memorial do Genocídio, nunca seria possível saber que, há 25 anos, um acto tão bruto, reles e desumano, privou filhas e filhos do amor de seus pais, num país que cultiva o respeito na diferença.

Memorial conta drama do genocídio

A entrada no memorial do genocídio é grátis, numa clara alusão que a história não se vende, apenas se recorda. Há no memorial cerca de 50 mil tutsis enterrados sem identificação. O detalhe com que é recontada a história do genocídio “agride” a quem tiver o mínimo de sensibilidade. É difícil percorrer os compartimentos do museu sem entrar em choque, sem se arrepiar.
É o drama humano de uma etnia recontado num espaço onde 250 mil pessoas vítimas do genocídio estão enterradas. O local conserva crânios, ossadas, fotografias, roupas e mú-mias de centenas de crianças. Até os instrumentos da morte estão lá meticulosamente bem conservados.
O memorial não deixa escapar nada. Logo à entrada está uma sala de exibição de um vídeo no qual as vítimas contam sobre as atrocidades que sofreram e como sobreviveram. O memorial conta o nascimento do conflito entre extremistas hutus e a minoria tutsi, numa história composta de fotografias exaustivamente legendadas, vídeos e documentários historicamente fundamentados, objectos, roupas e fotografias das vítimas e dos algozes.
Estava-se em 1932. Neste ano, os belgas, na altura colonizadores, começaram a classificar a população por etnia nos cartões de identidade. Com isso, os tutsis viriam a gozar de privilégio e prestígio, em detrimento dos hutus, o que não foi bem visto. Nascia assim o ódio.
Os tutsis no Rwanda começaram a sofrer ondas de perseguição cada vez mais intensas a partir de 1990, quan-do foram presos e torturados. Ondas de massacre surgiram a anunciar o genocídio. A perseguição aos tutsis foi tão extrema que alguns hutus moderados começaram a deixar as suas casas e tornaram-se refugiados. A perseguição, embora pouco reconhecida pelo mundo, naquela altura, foi um sinal do que estava por vir. Em Março, 300 pessoas, todas de origem tutsi, foram mortas, em Bugesera, região sul do Rwanda. A partir daquela data, o número de incidentes, sempre fatais e mortíferos, cresceu, levando o Governo a impor cessar-fogo para um período indeterminado.
Mesmo diante da matança de tutsis, camponeses rwandeses foram acusados de apoiar uma força de invasão rebelde que massacrou membros da tribo hutu. Mas, tudo isso era contado enquanto hutus atacavam mulheres e crianças com facões e machados em nove assentamentos habitados principalmente pela minoria tutsi, no nordeste do Rwanda.
À pergunta se tudo o que estava ali tinha acontecido e que nada era manipulado, o nosso guia, um jovem alto e esguio, respondeu: “não há necessidade de manipular nada, quando o objectivo é apenas dar a conhecer a quem duvida sobre o que foi o genocídio, elementos que o levam a saber do evento mais triste que o Rwanda viveu. O objectivo, quando o museu mostra tudo isso, é apenas para que (a matança) não se repita nunca mais”.
A França, lê-se numas das secções do museu, ajudou secretamente a armar e treinar forças do Governo do Rwanda, o que aumentaria as chances de uma “catástrofe” de guerra civil. Acredita-se que o Crédit Lyonnais, um banco nacionalizado, tenha assinado um acordo para a aquisição de armas num valor de quatro milhões de libras entre o Egipto e o Governo do Rwanda.

No museu está o retrato da Igreja de Ntarama, a 30 quilómetros de Kigali. No seu interior, foram assassinados cinco mil tutsis. Até hoje, os bancos da Igreja estão ocupados com as roupas das vítimas e os bilhetes de identidade, considerados a origem do mal. A fotografia de escola adaptada mostra uma nódoa preta na parede com a inscrição: “aqui batiam a cabeça das crianças para as matar”. O retrato dramático de outra Igreja, a de Nyamata, a escassos dez quilómetros do Memorial do Genocídio, está ali bem expresso. Na Igreja, dez mil tutsis morreram ante a violência do machado, da catana ou facões. As igrejas sempre foram o refúgio predilecto dos tutsis. Muitos sobreviveram, quando os hutus tentaram massacrá-los. Porém, dois anos depois, isto é, em 94, todos foram mortos. Ninguém sobrou para contar estória. Em Nyarubuye, Kibungo, numa igreja, num convento e numa escola transformadas em centro de extermínio, cerca de 20.000 pessoas foram assassinadas, tal como aconteceu em Nyange, onde duas mil pessoas morreram, quando o pastor Seromba ordenou a demolição da Igreja com um bulldozer, matando seus próprios fiéis, que apenas queriam abrigar-se da fúria do machado hutu.

Nem as crianças foram poupadas

No museu, há uma sala que retrata como centenas de crianças tutsis foram mortas. Francine Murengezi, 12 anos, tinha como desporto favorito natação e gostava de batatas fritas. Como bebida não abdicava de um refrigerante Fanta e de leite. Sua melhor amiga era Claudette, sua irmã. Francine, tal como milhares de outras crianças, foi morta com um golpe de machado na cabeça.
Bernardine Kambanda, 17 anos, gostava de futebol e não se aborrecia em comer arroz e tomar um bom chá pela manhã. Era dedicado à escola. O menino Kambanda também foi morto à machadada, no interior da igreja.
David Musikaneza tinha um humor assinalável e sonhava ser doutor. Antes de ser assassinado, aos 10 anos, a sua última palavra foi: “A UNAMIR (Missão das Nações Unidas para o Rwanda), virá nos salvar”! David foi torturado até à morte. Ariene Umotoni com apenas 4 anos, gostava de bolo, leite e gostava de dançar no meio das pessoas. Umotoni foi morta com objecto contundente nos olhos e cabeça. Tal como estas, a sala dedicada à crianças vítimas do genocídio, expõe o modo violento como crianças de menos de um ano foram mortas, muitas das quais, arremessadas e prensadas à parede.

Fim do genocídio

O genocídio continuou a ganhar corpo e a imprensa não se coibiu em denunciar. O Conselho de Segurança da ONU teve de reagir com o envio de um contingente de 5.500 homens. O objectivo foi responder ao plano francês que pretendia ocupar algumas regiões do Rwanda com a então denomina “Operation Turquoise”, que contaria com tropas francesas.
Mas, a oposição de Roméo Allain Dallaire, na altura comandante das Forças de Paz das Nações Unidas para o Rwanda (MIN- UAR), não se fez esperar face ao histórico de apoio aos hutus pela forças francesas. Em Julho, as tropas da Frente Patriótica Rwandesa (FPR) entraram em Kigali. Ainda assim, actos genocidas não paravam. Em Agosto, os franceses entregaram sua parte do país para a FPR, o que permitiu que Paul Kagame (actual Presidente) viesse a controlar todo o território.
O genocídio durou 100 dias e matou mais de um milhão de tutsis e hutus moderados. Mais de dois milhões de pessoas foram desalojadas. O genocídio só conheceu o seu termo com a FPR a tomar os destinos do Rwanda. Estava-se em 1994.

Tribunal Gacaca

Depois do genocídio, a RPF formou um novo Governo de Unidade Nacional. O novo governo providenciou segurança e criou condições para que a população, não importava a etnia, reconstruísse a vida em conjunto sem vingança nem ódio. Mas, depois do genocídio, o desafio foi trazer justiça e punição aos perpetradores dos actos.
Em 2002, foi criado o Tribunal Gacaca (The Gacaca Court), cuja função era de trazer um sistema de Justiça restaurativa, num cruzamento entre direito costumeiro e positivo. Perto de 120 agressores foram presos, numa promoção da confiança, segurança, paz, justiça, perdão e reconciliação.

 

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