Reportagem

Menongue com graves restrições de electricidade

Carlos Paulino | Menongue

A cidade do Cuando Cubango, Menongue, sofre graves restrições no fornecimento de electricidade. A central  térmica de 10 megawatts, inaugurada a 7 de Janeiro de 2013 pelo ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges, é insuficiente para as actuais exigências.

O fornecimento de electricidade à cidade capital do Cuando Cubango é feito por fases nas diferentes zonas onde recebem luz dia sim e dia não
Fotografia: Nicolau Vasco|Edições Novembro-C.Cubango

Os moradores estão preocupados porque, além da perda de bens perecíveis, com as ruas às escuras por falta de iluminação pública, a criminalidade aumenta na capital do Cuando Cubango.O fornecimento de electricidade é feito por fases. As diferentes zonas da cidade recebem luz dia sim, dia não. Dois dos sete geradores de 1.7 megawatts cada precisam de peças de reposição. Em determinadas ocasiões, o sistema desliga-se devido às sobrecargas.
As zonas mais afectadas são os bairros Social da Juventude, construído no quadro do programa Angola Jovem, Tucuve, Cuenha, Macueva, Paz, Novo, Cazenga, Missão Católica, Boa Vida, Boa Esperança e São José. Os moradores pedem a intervenção urgente do governo local.
A falta de iluminação pública em muitos bairros periféricos da cidade concorre para o aumento da criminalidade. Furtos, roubos, violações e até homicídios são frequentes.Luteca Caladissa, moradora do bairro Social da Juventude desde 2012, disse que a falta de electricidade cria embaraços aos habitantes da zona. Gastam mais de 30 mil kwanzas por mês em combustível para os geradores.Por causa das ruas às escuras, muitos refugiam-se em casa às 19h00 com medo dos criminosos. Não existe esquadra da Polícia por perto e, ao mínimo descuido, as casas podem ser assaltadas.Luteca teve a casa assaltada por duas vezes em 2015. Muitos moradores foram obrigados a deixar o bairro Social da Juventude por causa da situação.
“O que nos deixa mais arreliados é pelo facto da Central Térmica estar a 500 metros das nossas casas. Todas as noites, suportamos o barulho dos geradores, mas vivemos às escuras.” Ela espera que uma petição dos moradores enviada ao governador provincial seja atendida em breve.
Maria Yuca, do bairro Boa Esperança,  diz-se obrigada a fazer compras todos os dias por falta de meios para conservar os alimentos. A aquisição a retalho representa uma redução significativa do poder de compra, pois a grosso podia racionalizar melhor. Pede aos governos central e da província que resolvam a situação com urgência.

Fornecimento reduzido


O director provincial da Empresa Nacional de Distribuição de Electricidade (ENDE), Rui Paixão e Silva, reconheceu que o fornecimento de energia eléctrica na província do Cuando Cubango e, em particular, no município do Menongue deixa muito a desejar. É preciso aumentar a capacidade para atender às necessidades.
“Temos 7.838 clientes no Menongue, número muito pequeno para o grande crescimento demográfico. A central térmica deixou de corresponder ao número de habitações”, diz.Salientou que, por este facto, se tem verificado muitas ligações anárquicas. A população faz de tudo para ter energia eléctrica. “Precisamos de fazer um investimento urgente para aumentar a capacidade de fornecimento no município do Menongue que, por sua vez, vai elevar o número de clientes.”
A rede de distribuição de média tensão da cidade de Menongue tem uma capacidade para suportar a electrificação de 52 megawatts. O investimento vai facilitar a execução de projectos que futuros.

Aumento da distribuição

O sector prevê electrificar algumas zonas, como o bairro Social da Juventude, 23 de Março, Boa Vida, Boa Esperança e Tucuve, caso haja disponibilidade financeira. A ENDE electrificou mais de 60 por cento da cidade do Menongue e pretende alargar a acção.“Com a fraca produção de energia, fomos obrigados a fazer um programa de restrições”,  num período inferior a oito horas.
O Ministério da Energia e Águas, em coordenação com o governo da província, procura melhorar a situação o mais breve possível”, referiu.A empresa enfrenta grandes dificuldades para a cobrança da electricidade. Apenas 60 por cento dos 7.836 clientes controlados na cidade de Menongue pagam o que consomem com regularidade.

Falta de pagamento


A ENDE promete levar a cabo em breve uma “acção um pouco agressiva para acabar com os clientes devedores”, tendo em conta o “valor considerável da dívida” que detêm.Além do Menongue, a ENDE tem 2434 clientes no Cuito Cuanavale, 244 no Calai, 226 no Cuangar e 98 no Dirico. Em 2016, a empresa arrecadou 265 milhões de kwanzas, valor que podia ser maior se todos os clientes fossem leais.
O responsável elogia aqueles que têm a cultura de pagar a energia com regularidade, número que aumenta na cidade do Menongue.  Só com o pagamento das contas de luz, a ENDE consegue arrecadar receitas para melhorar os serviços prestados à população, refere.

Contadores pré-pagos


A ENDE prevê, ainda este ano, instalar contadores pré-pagos em todas as residências e empresas que consomem energia na capital do Cuando Cubango.
Os municípios do Cuito Cuanavale, Calai, Cuangar e Dirico já têm contadores pré-pagos.
Os clientes adquirem cartões de recarga, cujo preço mais baixo é de mil kwanzas.
O projecto traz grandes benefícios para os clientes e para a empresa, pois o consumidor paga apenas a energia gasta e os funcionários da ENDE deixam de ir fazer a leitura dos contadores, proceder ao corte do fornecimento aos devedores ou preocupar-se com as dívidas.
O vice-governador da província para os Serviços Técnicos e Infra-estruturas, Gabriel Gastão, recorda estar previsto o reforço da actual central térmica do Menongue  em 20 megawatts e a construção de outra de igual capacidade no bairro Samuel.Ambos projectos aguardam que seja ultrapassada a actual crise financeira. Ainda este ano, a central térmica de Menongue é reforçada em 20 megawatts, garante.

Projectos em carteira

Mesmo com estes dois projectos, o fornecimento de electricidade ao Menongue mantém-se insuficiente. Com o actual crescimento demográfico, a cidade precisa de, pelo menos, 150 megawatts.
“A cada dia que passa, assistimos à construção de residências e abertura de estabelecimentos comerciais. Vamos precisar de cerca de 150 megawatts para deixarmos de ter problemas”, afirma.
O governo provincial pretende instalar painéis solares nas sedes municipais de Mavinga, Nancova e Rivungo, onde é difícil fazer chegar combustível para os geradores, devido à degradação das estradas.
Os sistemas de painéis solares seriam o passo mais acertado.
O aluguer de um camião para o transporte de combustível para o município de Rivungo custa 500 mil kwanzas, pelo menos.

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