Reportagem

Menores arriscam até a vida no percurso que leva à escola

“A nossa família já não é a mes-ma, desde que a Jéssica 'foi'. Não há nada pior do que saber que a sua filha nunca mais vai regressar a casa”. Estas são palavras de desabafo de um inconsolável pai, que perdeu a filha mais nova, em consequência de um atropelamento, na Centralidade do Kilamba, quando a menina saía da escola para casa, na tarde do dia 16 de Abril deste ano.

Fotografia: Edições Novembro

Jéssica Leite é descrita como tendo sido uma menina de trato fácil, calma, meiga e nunca se envolvia em confusão com os colegas. Com apenas 11 anos, percorria diariamente mais de 15 quilómetros, para poder estudar. Saía às 10h00, do bairro da Mutamba (imediações da via expresso), para poder chegar antes das 12h30, à escola Lueji Ankonde, localizada no "Quarteirão D" da Centralidade do Kilamba.
Recentemente criado, o bairro onde habitava a menina apresenta difíceis condições de acesso, face aos inúmeros buracos e águas estagnadas nas vias. Quando se ultrapassam os obstáculos comuns a todas as acessibilidades, há ainda que lidar com a complicada circulação no interior da localidade, só possível por via de moto-táxis e alguns turismos com motoristas mais atrevidos para ousar transpor terreno íngreme.
Da via-expresso à residência da família Leite, o percurso dura pelo menos quinze minutos. Quando chove, as dificuldades são redobradas, porque o piso fica intransitável para as motorizadas e a única solução é chegar a pé, percorrendo um caminho difícil e perigoso. O pai da Jéssica, Dinis Leite, conta que fora forçado a tirar a filha do colégio existente no bairro, por ter perdido o emprego, dois anos antes. Sem escolas do Estado no bairro da Mutamba, ficou impossibilitado de manter os filhos a estudar próximo de casa. Entre as instituições de ensino sondadas, na altura, só as escolas do Kilamba tinham vagas. Aí conseguiu matricular também os dois irmãos mais velhos da menina, um de 14 e outro de 17 anos. Normalmente, iam os três, juntos, à escola. Porém, no dia da tragédia, Jéssica Leite estava sozinha.
Segundo informações do Piquete de Acidentes do Co-mando da Polícia da Centralidade do Kilamba, o atrope-
lamento ocorreu por excesso de velocidade, culminando na morte da menor, uma hora depois, no banco de Urgência do Hospital Geral de Luanda. A tragédia ocorreu na Avenida Comandante Pedalé, no perímetro adjacente ao prédio "D-9", próximo à escola onde Jéssica estudava. Eram, precisamente, 17h30 minutos.
A reportagem do Jornal de Angola apurou que a condutora da viatura seguia no sentido Nascente/Poente, ao volante do ligeiro de passageiro de marca Hyundai, modelo i10. Segundo relatos no local, no momento do acidente, Jéssica fazia a travessia de forma negligente. Após o embate, ela caiu, desamparada, sobre o asfalto, sem apresentar sinais vitais, consumando-se a morte, mo-mentos depois. Socorrida na altura do acidente, por pessoas que passavam no local, Jéssica não resistiu à gravidade dos ferimentos e acabou por falecer no banco de urgência do Hospital Geral de Luanda. Se-gundo o pai, a motorista do acidente ficou detida durante poucos dias, mas agora está em liberdade. “Fiquei a saber que ela ajudou na compra do caixão e deu alguns valores para suprir as despesas do óbito”, explicou.
Dinis Leite sente-se triste, porque nada vai trazer a filha de volta. Jéssica era uma das esperanças da família para ter um futuro brilhante, face aos sinais positivos que dava no seu percurso curricular.
“Ela gostava de estudar; sempre foi muito carinhosa com todos, principalmente, comigo. A minha menina foi-se. Dói e não me conformo com isso”, desabafou o pai. Desempregado há dois anos, Dinis Leite trabalhou no projecto da barragem de Laúca e a esposa é vendedora ambulante. Revelou que tem sido difícil sustentar a família nestas condições e clama por socorro para sair desta aflição.
Durante os dias subsequentes à morte da menor, a direcção da escola afixou uma nota na qual dava conta do infortúnio. Com lágrimas nos olhos, a professora disse que continua a não acreditar no sucedido.
“Lembro-me da última vez que choveu. Ela disse-me que não tinha como ir para casa naquelas condições. Dei-lhe dinheiro para ir de táxi até à porta de casa”, la-menta. Contou que sempre lhe agradou o comportamento da Jú, como era chamada na escola. “A ausência dela entristece-nos todos, na turma", desabafou. Du-rante o óbito, a direcção da escola realizou uma campanha de solidariedade, que foi abraçada pelos encarregados de educação e professores, que contribuíram para ajudar nas despesas.

Mais de 500 crianças longe de casa

Na Lueji Ankonde, onde andava Jéssica Leite, estudam mais de 500 crianças que vivem distante da Centralidade do Kilamba, onde frequentam do I ao III Ciclo. A maioria vai à escola sem a companhia de pais, tios, irmãos ou um adulto. Segundo a direcção, os alunos vivem maioritariamente nos bairros do Benfica, Camama, Golfe II, Mutamba, Vila Flor, Viana, Zango, imediações do estádio 11 de Novembro e arredores.
A reportagem do Jornal de Angola percorreu várias paragens da Centralidade do Ki-lamba, registando a presença de muitas crianças e adolescentes, à espera do autocarro ou do táxi para re-gressar a casa. Muitas vezes, a espera por um meio de transporte prolonga-se até horas da noite.
Eurico José, 14 anos, é um exemplo. Disse que vive no Camama e já faz este trajecto há quatro anos. Quando não há autocarro, a solução que encontra é ir a pé ou pedir bo-
leia, por não ter dinheiro suficiente para apanhar o táxi. “O pior acontece quando chove. Somos obrigados a ficar à espera que a chuva pare e só voltamos para casa de noite”, contou.
Esperança Alice, de 15 anos, disse, por seu lado, que já passou por muitas situações de perigo, mas, felizmente, nunca sofreu qualquer tipo de violência. Confessou que já apanhou boleia de pessoas estranhas, mas sempre com o grupo de colegas, em obediência à recomendação dos pais.

“À mercê” de violadores e pedófilos

A situação vivida por estas crianças torna-as muito expostas à via pública, po-dendo colocar a vida em risco, tendo em conta que muitas vezes têm de pedir favores a pessoas desconhecidas, para poderem chegar à casa". A avaliação é do sociólogo Agostinho Catemba. Ele alerta para o facto desta condição po-der terminar em desgraça, por potenciar o rapto, violação ou mesmo morte das crianças.
"Nos dias de hoje, Luan-da vive uma onda de insegurança. A sociedade não confia no controlo, na protecção e na segurança da própria Polícia Nacional", referiu.
O sociólogo realçou que o Governo da Província de Luanda deve pensar na criação de medidas de contingência, como a implemen-
tação de mais transportes públicos a cobrirem a distância entre os bairros e as centralidades, de modo a dar resposta às necessidades dos alunos que permanecem muito tempo nas paragens de táxi. Agostinho Catemba avalia que, sem as referidas medidas, o tráfico de crianças, os raptos e casos de violação serão sempre frequentes.
"Pode-se concluir que a província ainda carece de muitas instituições de ensi-no em alguns pontos. Basta ver o fluxo migratório de adolescentes que estudam distante de casa. Por não existir um instituto médio ou de base no bairro, são obri-
gados a deslocar-se todos os dias a outros pontos, para dar seguimento aos estudos. Isso não faz muito sentido”, lamentou.
Na visão do especialista, a fragilidade dos adolescentes, associada à situação de exposição nas paragens de táxis, deixa-os “à mercê” de violadores e pedófilos. Defende que o Governo de-ve aumentar o número de transportes públicos nestas áreas e torná-los funcionais, de modo a dar uma certa cobertura à necessidade dos estudantes.
Para isso, defende, os menores de 18 anos devem estar isentos de pagamento das tarifas dos transportes públicos, "uma vez que já não têm direito à merenda, que é uma forma de ajudar no rendimento escolar".
Catemba reafirma que, se o actual estado das coisas se mantiver, "estaremos a formar um estudante medíocre, que não estará à altura de um desenvolvimento intelectual aceitável, tendo em conta que estamos a quebrar as etapas evolutivas do processo de aprendizagem.

 

 

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