Reportagem

Mercado da RDC interdita cimento

João Mavinga | Luvo

As autoridades congolesas pretendem interditar a entrada de cimento e de bebidas angolanos naquele país, soube o Jornal de Angola de fontes não oficiais na fronteira do Luvo, província do Zaire.

A exportação para a RDC e outros países de produtos de origem angolana como as bebidas alcoólicas é uma fonte de rendimentos para o Estado e para os comerciantes
Fotografia: João Mavinga

Aos poucos, a economia congolesa recompõe-se e as autoridades daquele país tencionam interditar a entrada de cimento e de bebidas de Angola, que afirmam ter um forte impacto nos cofres daquele país.
As fontes disseram ao Jornal de Angola  que as autoridades do Congo Democrático investiram forte na recuperação da indústria cimenteira de Kimpesse, na província do Congo Central. O objectivo é cortar o défice de cimento daquela região, assim como melhorar a qualidade do produto.
O cimento de Angola invadiu o mercado congolês. As vendas do produto naquele país trazem rendimentos altos para os vendedores angolanos e taxas para os cofres do Estado.
A principal razão para a preferência está no preço. Enquanto um saco de cimento angolano custa o equivalente a cinco dólares, o congolês é vendido por 15. A população congolesa, como frisou António Pedro, é contra a proibição da entrada de cimento angolano. “Se fizerem isso, eles que baixem os preços e melhorem a qualidade do cimento que lançam ao mercado”, desafiou António Pedro, um comerciante angolano.
Outras informações recolhidas pelo Jornal de Angola no Luvo dão conta que a RD Congo pretende decretar também a proibição de entrada de material de construção e de bebidas. Sabe-se que as cervejas Cuca e a Nocal são ali muito consumidas.
A cerveja angolana é vendida na RDC a preços baixos, no entender das autoridades locais. “A entrada no Congo das cervejas Cuca e Nocal provocou uma baixa na produção da fábrica de Bralima, que produz as marcas Primus, Skol, Turbo King e Dopel”.

Origem das mercadorias  

A maioria das mercadorias vendidas no mercado fronteiriço do Luvo, província do Zaire, é adquirida em Luanda. As praças do Quicolo e dos Correios são as principais fontes. Comercializa-se desde cerveja a peças de mobiliário. Donos de armazéns e de casas de reparação de electrodométicos e aparelhos electrónicos também enviam para ali bens abandonados por tempo excessivo nos seus estabelecimentos.
Quando o Executivo angolano decidiu encerrar o velho mercado Roque Santeiro, em Luanda, e transferir os vendedores para o Panguila, muitos fundaram o mercado Panga-Panga, em Cacuaco, que se tornou na principal fonte de concentração do “lixo electrónico” que, hoje, está a ser exportado para a República Democrática do Congo. As autoridades aduaneiras cobram ­entre 500 e mil kwanzas por artigo exportado para a RDC, sem se importarem com o tipo de produto. Pretende-se que a taxa seja de um por cento do valor comercial.
O fluxo de usados e avariados, peças soltas de material electrónico, telemóveis, ferros de engomar, fogões, geradores e acessórios diversos justifica-se pelos valores módicos cobrados pelos vendedores.
“Pago 70 dólares (cerca de 20 mil kwanzas) por um televisor”, disse, sorridente, António Pedro. Refere-se ao chamado “televisor de caixa”, considerado fora da moda, devido à actual hegemonia dos TV “plasma”. Uma vez reparados, alguns artigos rendem uma margem de lucro confortável para os congoleses. “As máquinas de lavar são caras na RDC”, confessou o nosso interlocutor.
    
Novo mercado

Obras de vulto decorrem do lado angolano no Luvo. Um novo mercado está a ser construído, com cinco alas, para albergar 1.400 bancadas e 300 lojas, numa área de 50 mil metros quadrados. O projecto inclui uma área para a instalação de nove câmaras frigoríficas e uma zona específica para restauração e hospedarias, muito reclamada pelos frequentadores. O novo mercado vai contar também com uma creche e uma vasta zona para armazenamento de mercadorias.
O Governo aguarda os rendimentos desta acção enquadrada nas acções para a diversificação da economia. Entre outros compartimentos, o projecto inclui um parque de estacionamento de 20 mil metros quadrados, num perímetro para acolher 100 camiões com atrelados e 102 veículos ligeiros.
Está também projectada uma central electrónica de controlo, tanto para o lado de Angola como da parte congolesa, que vai acolher o serviço de bombeiros, área administrativa e uma unidade sanitária para os cuidados primários de saúde. Outro serviço aplaudido é a construção, junto à fronteira, de uma estrutura para fiscalizar viaturas ligeiras e pesadas com balanças digitalizadas, e de uma nova ponte com zonas de circulação para pedestres. 
Em conjunto, Angola e a RDC representam um mercado de cerca de 100 milhões de consumidores. Torna-se imperioso delinear estratégias para melhorar a organização do mercado fronteiriço dentro de um quadro legal que permita aos dois Estados retirarem benefícios fiscais, disse António Pedro.
Aos poucos, a moeda angolana ganha protagonismo no mercado do Luvo. Por 500 kwanzas, chega-se a receber 2.500 francos congoleses. A troca chegou a ser feita pelo mesmo valor, quando o dinheiro de cá chegou a ser apelidado de “ebola” pelos vizinhos.

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