Micro indústria impulsiona hortofruticultura

Arão Martins | Chibia
9 de Maio, 2017

Fotografia: Adolfo Dumbo |Edições NovembrO

O fomento da produção de alimentos, uma vertente inequívoca de combater a fome e a pobreza e diversificação da economia, tem um contributo do projecto agro-industrial “Jardins da Yoba”, implementado nos municípios da Chibia e da Humpata, província da Huíla.

Implementado em 2014, o projecto com 600 hectares, divididos em 400 no município da Chibia e 200 na Humpata, permitiu integrar mais de 400 pessoas, no processo produtivo de cereais, hortícolas e tubérculos.
O projecto surgiu no quadro das acções do Executivo de incentivar a produção nacional em grande escala. O director de produção  do “Jardins da Yoba”, João Saraiva, garantiu que a produção de alimentos no projecto decorre sem sobressaltos.
“Estamos bem em termos de produção. Temos fazendas com plantações de milho, batata e já estamos a preparar os terrenos para a época da produção da cebola”, frisou.
A finalizar a primeira temporada de produção em tempo de chuva, disse João Saraiva, está-se a dar início da produção em tempo seco, com expectativas de produção de batata rena.
“Estamos a atingir recordes de produção acima já de 25 a 30 toneladas por hectares, nas três variedades que estão a ser desenvolvidas na fazenda da Chibia”, garantiu.
A nível de produção de milho, referiu, existe dois programas distintos. “Vai haver  um programa muito agradável de desenvolvimento de sementes de milho ao abrigo do Programa Nacional de Sementes.”
Por outro lado, está-se a desenvolver duas variedades de milho, uma de branco e outra de amarelo, onde, com o desenvolvimento desse programa, se vai permitir que seja comercializada essa semente.
No milho híbrido para grão, referiu João Saraiva, está-se a produzir cerca de 10 toneladas por hectare. Já no programa de desenvolvimento de sementes, que, segundo João Saraiva, é um programa específico em que o objectivo não é de tanta quantidade, mas de qualidade, está-se com uma média que varia entre cinco a seis toneladas por hectare.
“Temos três fazendas, todas elas com áreas superiores a 200 hectares. Estamos nesse momento com cerca de 600 hectares em produção”, garantiu o responsável do projecto.
O projecto integra três fazendas em contextos diferentes. Uma na Humpata, que aproveita as condições climáticas muito específicas da altitude. Está ainda disponível a fazenda da Mukuma, na Chibia, numa zona de transição, que permite fazer uma agricultura produtiva em tempo de chuva e existe outra nos barros pretos e pesados nas zonas térmicas do rio Caculuvar.

 Quantidade de colheitas


O processo de produção e colheita é permanente ao longo do ano, devido à alta tecnologia instalada.
João Saraiva disse, ainda, que no projecto das três fazendas a plantação e a colheita são permanentes. “Temos as culturas escolhidas para que, em determinadas épocas do ano, possamos produzir, colher milho e a semear cebola e, quando estivermos a colher cebola, estamos a semear novamente o milho e a batata produzida ao longo de todo ano. Estamos sempre em ciclo de produção permanente”, frisou.
O responsável de produção diz que a batata que foi semeada em Dezembro foi colhida entre Março e Abril. Foram produzidos 50 hectares dedicados à produção de batata de semente e tirou-se cerca de 400 a 600 toneladas de batata.

Experiência na soja

A produção de soja foi solicitada pelo Governo Provincial da Huíla, disse João Saraiva, que acrescentou: “não há grandes experiências de soja no sul de Angola, por ser uma cultura mais característica do centro do país. Pediram-nos para fazer essa experiência e estamos a fazer.”
A experiência, salienta, está a correr bem, porque estão a ser aproveitados três hectares para a produção de soja experimental, feita em condições diferentes. A soja foi semeada há um mês e meio e espera-se atingir bons resultados. O ensaio ainda decorre e os primeiros resultados começam a ser colhidos no próximo mês de Junho.
“A soja no sul de Angola, assim entendemos, tem que acompanhar o ciclo de produção do milho. Pode ser semeada normalmente com as primeiras chuvas. Nesta região, o que termina com a sementeira do milho e da soja é o início da chuva. Este ano, a chuva começou um pouco mais tarde, isto é em Novembro, e tivemos chuva muito irregular até Janeiro”, lamentou.
A praga que assolou as culturas foi agressiva na região, esclarece João Saraiva, para quem, em função da “agressividade”, houve necessidade de efectuar-se a desinfestação completa dos campos, para depois se fazer as sementeiras.
A soja e o milho podem ser postos nesta região, a partir de Outubro ou Novembro, dependendo da primeira chuva. A época de colheita do milho começa em finais de Fevereiro até Maio e a soja acompanha, mais ou menos o mesmo ciclo, como afirmou João Saraiva.
 
Produção de massango

O massango é uma cultura muito importante que se tem de trabalhar com os membros das comunidades rurais. O massango é fundamental no combate à fome e à pobreza e é importante também como cultura de substituição do milho. “Aquilo que temos estado a constatar é que as chuvas são cada vez mais irregulares e concentradas. A produção do mesmo é uma alternativa positiva para se criar uma segurança alimentar das famílias”, disse.
Para a cultura do massango, o projecto agro-industrial “Jardins da Yoba”, em todas as áreas, está a produzir 100 hectares. “É uma cultura que temos feito com a colaboração dos agricultores. Temos estado a trabalhar com o camponês local e temos feito sementeiras em conjunto com os membros das comunidades. A direcção do projecto tem aconselhado os agricultores devido a dificuldades de água, assim aconselhamos a substituição de milho para massango”, disse.
No cultivo do massango, adiantou, o rendimento é de uma a 1,5 toneladas por hectare. Mais de 80 a 100 toneladas de massango é a perspectiva de colheita da direcção do projecto, nas áreas produzidas com essa cultura. É de referir que o massango pode secar na espiga, tem um processo muito complicado e fica pronto entre Junho e Julho.
 
Programa de sementes

O projecto agro-industrial “Jardins da Yoba” está inserido no Programa Nacional de Sementes. João Saraiva afirmou que existem cerca de 100 toneladas consignadas ao Ministério da Agricultura.
Inserido igualmente num programa que vai ser desenvolvido nos próximos 10 anos, que vai abranger culturas estratégicas para a independência da produção nacional, ao abrigo deste programa, a direcção do “Jardins da Yoba” estima produzir cerca de 1.000 toneladas por ano de sementes de batata e cerca de 2.000 a 3.000 de milho de sementes. Em 2018, o projecto propõe-se aumentar as áreas de produção de batata e de milho. João Saraiva esclareceu que, por causa da insuficiência local, o projecto está dependente de outros países, para obter sementes básicas, porque “não há no país.”
Para o caso, garantiu, vai-se recorrer ao Zimbabwe para a importação de linhas parentais no caso do milho. A direcção do projecto está também a recorrer à Holanda, para obter sementes de batata, porque a da área é progressiva.
“Quando desenvolvemos os nossos campos, temos batata de vários tipos. Os destinados a sementes são separados nesta unidade industrial”, disse, acrescentando que a batata é tratada com substâncias químicas de conservação, que depois protegem a germinação da semente no terreno e são aproveitadas para o mercado de consumo.
 
Milhões de dólares
 
Mais de 12 milhões de dólares norte-americanos é o montante já investido pela direcção do “Jardins da Yoba”, anunciou o presidente do Conselho de Administração do grupo, em entrevista ao Jornal de Angola, Paulo Amaral.
“Estamos a fazer aquilo que se chama “capitalização das terras. Estamos a tratar do capital fundiário da empresa”, disse.
Paulo Amaral assegurou que, para a sustentabilidade e concretização do projecto, já se investiu nas três fazendas 12 milhões de dólares norte-americanos.
A produção de alimentos em grande escala, reconheceu, é um desiderato do Executivo, que continua a proporcionar incentivos aos empresários.
O projecto está a dinamizar o empreendedorismo na Chibia. Lamentou apenas que a falta de energia eléctrica da rede pública seja o maior problema.  “A falta de energia eléctrica da rede é o principal handicap que temos, porque  produzimos milho e batata para sementes. Instalamos uma câmara de conservação com capacidade para 1.200 toneladas e trabalhamos 24/24 com gerador e não é fácil”, disse.
Para os próximos tempos, asseverou, está em projecto acrescentar valores aos produtos que se produzem. Referiu que já foi instalada uma moagem na fazenda Capiquena, onde a população se abastece. A perspectiva é instalar também uma outra moagem para produzir farinha, farelo e outros derivados de milho para a fábrica de cerveja.
“Vamos também acrescentar valores na batata, com a instalação de uma fábrica de batatas fritas, congelados de batata, mas, sem energia, fica difícil desenvolver. Acreditamos em dias melhores”, augurou.
 
Responsabilidade social

A inserção de 400 pessoas que vivem nas áreas adjacentes onde foram instaladas as fazendas do projecto “Jardins da Yoba”, nos municípios da Humpata e Chibia, foi indicada como uma responsabilidade social positiva, pelo administrador municipal da Chibia, João Tchitokota.
O administrador municipal da Chibia disse que o município é um dos catorze que conformam a província da Huíla, está localizado a 42 quilómetros a sul da cidade do Lubango, capital da província, e é limitado a norte pelo município do Lubango, a sul pelo município dos Gambos, a este pelo Quipungo e a oeste pelos municípios da Humpata e Virei (província do Namibe).
Com uma superfície de 5.281,26 quilómetros quadrados, compreende administrativamente quatro comunas, nomeadamente a sede, Capunda-Cavilongo, Quihita e Jau. A instalação de projectos agrícolas faz do município uma região em crescimento. Reconheceu que o “Jardins da Yoba” é um exemplo positivo no programa de empreendedorismo.
Muitas pessoas, principalmente jovens, foram incorporadas em projectos de produção de alimentos, um desiderato que está a ser incentivado pelo Executivo, no quadro do programa de combate à fome e à pobreza e de diversificação da economia.
João Tchitokota reconhece que uma das principais preocupações dos projectos implementados no município tem a ver com a ausência de energia da rede pública. Garantiu que existem projectos em curso para que a situação se inverta.

Milhares de hectares

O vice-governador provincial da Huíla, Sérgio da Cunha Velho, garantiu que a província da Huíla continua aberta ao investimento privado.
“Foram identificados milhares de hectares aráveis, que aguardam por investidores nos municípios de Caluquembe, Caconda, Chipindo, Chicomba, Cuvango, Matala, Gambos, Chibia, Cacula, Quilengues e Humpata, entre outros”, precisou.
O Governo Provincial da Huíla está a promover a transformação sustentável da agricultura de subsistência para a comercial orientada para o mercado, que visa o alcance da segurança alimentar e a dinamização da agro-indústria nacional para combater a fome e a pobreza e incentivar a produção. 
 A província da Huíla apresenta nos dias actuais uma imagem de progresso, com um processo de franco desenvolvimento económico e social, demonstrado pelos vários programas e projectos executados nos últimos anos e outros ainda em curso com o objectivo de reduzir as assimetrias entre os vários municípios e melhorar o acesso aos serviços sociais básicos da população.
Os ganhos são visíveis e consubstanciam-se na execução de projectos agrícolas, de novos sistemas de captação, tratamento e distribuição de água, energia, construção de habitações e melhoria do estado das estradas secundárias e terciárias que estão a permitir a ligação das comunas às sedes municipais.
“Tendo em conta as expectativas de progresso que se abrem para o futuro, a Huíla tem políticas orientadoras no quadro das estratégias de desenvolvimento de médio e longo prazo no horizonte 2025 e naquilo que são os objectivos do Plano Nacional de Desenvolvimento 2013/2017, sendo fundamental para que esta se firme no contexto dos principais eixos do desenvolvimento de Angola”, disse.
 O vice-governador provincial da Huíla para o sector Económico esclareceu que as grandes linhas de orientação estratégica, que traduzem a visão da província da Huíla, são a promoção e a qualificação territorial, apostando no equilíbrio e na sustentabilidade ambiental, na melhoria das condições de vida das comunidades e na dotação equilibrada de equipamentos e serviços de suporte.
Sérgio da Cunha Velho esclareceu que a aposta na qualificação no capital humano e a mobilização dos actores de desenvolvimento constituem também uma das grandes linhas de orientação estratégica da província, pois afiguram-se como condição essencial para responder aos desafios de desenvolvimento, com base no fortalecimento do sistema de educação, saúde e formação profissional.
A província da Huíla tem um grande potencial, logo tem a responsabilidade de contribuir para alavancar a diversificação da economia do país, pois “tem um posicionamento geográfico estratégico no cenário nacional, que lhe permite ser um ponto logístico de referência na região sul de Angola, disse Sérgio da Cunha Velho.
O projecto “Jardins da Yoba”, referiu, desperta a atenção das autoridades, que continuam a incentivar a produção nacional.

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