Moderna academia das Ciências do Mar

Edivaldo Cristóvão |
7 de Abril, 2017

Fotografia: José Cola | Edições Novembro

Com a entrada em funcionamento da Academia de Pescas e Ciências do Mar, em Maio, o país reafirma a aposta na chamada “economia azul”, um modelo de desenvolvimento assente no aproveitamento sustentável dos ecossistemas marinhos. Trata-se de uma instituição de ensino superior  que, seguramente, vai revitalizar o sector pesqueiro em Angola.

 

Localizada na província do Namibe, a Academia de Pescas e Ciências do Mar é um investimento de cerca de 70 milhões de dólares, inserido no acordo de cooperação entre Angola e a Polónia.
A instituição de ensino comporta seis edifícios destinados aos cursos de Engenharia de Electricidade e Electrónica, Electro-automação Marinha, Gestão Costeira, Engenharia de Navegação, Exploração de Portos e Frotas, Engenharia Mecatrónica de Refrigeração, Computação, Desenho Técnico e Electrónica de Equipamentos de Comunicação, Processamento de Pescado, Aquicultura e Oceanografia.
A escola é inaugurada em Maio, mas as inscrições para o ingresso, com término previsto para o próximo dia 12, decorrem desde 30 de Março. As inscrições são feitas presencialmente, mas para quem está impossibilitado de o fazer por esta via, está aberta uma “janela”, através do correio electrónico academia.namibe@pescas.gov.ao.so
Para as matrículas, aos candidatos é pedido o certificado de habilitações literárias do ensino médio devidamente autenticado, fotocópia do Bilhete de Identidade, atestado médico e cartão de vacinas.
Referindo-se à Academia de Pescas e Ciências do Mar, a ministra das Pescas, Victória de Barros Neto, afirma que o Executivo pretende fazer da instituição num grande centro de investigação científica e de formação, não só para quadros nacionais, mas também para estrangeiros, com particular realce para os residentes na região da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).
Espera-se que a oferta formativa seja suficientemente atractiva para despertar interesse dos países da região da SADC. A academia vai integrar as disciplinas de inglês, matemática, física, artes, ciências desportivas, pescas, processamento de pescado, biologia aquática e aquicultura, que estarão englobadas num universo de 35 laboratórios já equipados com tecnologia de ponta.
Os laboratórios da academia foram equipados por técnicos da Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto, através de um convénio com a Universidade Marítima de Gdynia da Polónia.
Em termos de infra-estruturas, a maior parte dos compartimentos já estão construídos, nomeadamente a área desportiva, centro de saúde e uma fábrica para compensação em termos de pescas de crustáceos (caranguejo desfiado). A construção e o desenvolvimento tecnológico da academia, comparável a de outros países da África Austral, são considerados dos melhores, porque dispõem de tecnologia de ponta.
 As obras já em fase de conclusão estão a ser realizadas pela empresa polaca Navimor Internacional após a assinatura de um contrato com o Ministério das Pescas. Com o seu potencial rico em recursos pesqueiros e com uma fauna marítima favorável, Angola  tem tudo para desenvolver a “economia azul”.
A academia inclui uma Faculdade de Ciências Básicas, que vai ministrar cursos de Língua Inglesa, Informática, Química, Física, Educação Física, Direito, Contabilidade e Gestão. O programa de formação na Academia de Pescas vai contribuir para a formação de quadros nacionais capazes de desenvolverem o sector pesqueiro do país.
Numa primeira fase, 34 docentes angolanos, uns com doutoramento e outros com o mestrado feito em Portugal, Reino Unido, Itália, França, Rússia, Espanha, Polónia e Brasil, vão assegurar o funcionamento da academia, que arranca com 540 estudantes.
Com capacidade para mais de 1.500 alunos, a instituição espera congregar nos próximos anos 131 docentes. Construída numa área de 30 hectares a academia é um verdadeiro complexo académico, com residências para professores, piscina, salas de oficina, de máquinas e motores, espaço para aulas de preparação para extinção de incêndios e lar de estudantes.

Namibe grande centro piscatório

Na escolha do Namibe para albergar a academia pesou o facto de a província ser o maior centro piscatório de Angola. A actividade de pesca nesta faixa litoral do território nacional caracteriza-se em três períodos principais: colonial (1973-1974), pós-independência (1975-1991) e época do redimensionamento empresarial (1992-2012).
 No período 1973-1974, o sector pesqueiro do Namibe controlava uma força de trabalho de 1.843 funcionários, de um total de 16.587 pessoas que dependiam exclusivamente da pesca. De acordo com dados estatísticos da época, a produção industrial média (1970 a 1972) rondava as 84.015 toneladas, para uma força de trabalho de cerca de 1.890 homens, o mesmo número de famílias e 17.010 pessoas que viviam desta actividade, totalizando 33.597 cidadãos.
Hoje, a actividade pesqueira no  Namibe é apoiada por 64 empresas, sendo 41 de captura e transformação e 23 de congelação, conservação e comercialização de peixe. Estão igualmente controladas no território da província seis unidades salineiras, dois estaleiros navais, duas fábricas de farinha e óleo de peixe, centros de apoio à pesca artesanal, de salga e seca, de apoio à mulher processadora do pescado e uma unidade de produção de sal.

Sonho de muitos angolanos

Pereira Bernardo, jovem de 34 anos a residir em Luanda, contou à reportagem do Jornal de Angola, que um dos seus sonhos vai ser realizado, pois, a construção da Academia de Pescas vai satisfazer a sua paixão pela actividade pesqueira, que ganhou por influência do pai que era antigo funcionário do Ministério das Pescas, no Tômbwa.
O jovem, sem perder tempo, inscreveu-se na academia para fazer o curso de Contabilidade e Gestão, sector onde pretende investir futuramente. “Acredito que depois do petróleo, diamante e outros recursos naturais, Angola também pode viver dos derivados que o nosso mar oferece, porque ainda tem muito para ser explorado.”
Alcides Baptista, jovem de 33 anos, tem um barco de pesca que faz negócio na praia da Mabunda. À reportagem do Jornal de Angola,  referiu que a academia é um impulso importante para o desenvolvimento da pesca no país porque vai trazer mais profissionais para este sector, dando maior possibilidade de ampliar o negócio de produtos do mar no mercado nacional.

“Tesouro escondido”


A academia é uma espécie de “tesouro escondido” e mesmo sem estar em actividade já é, pela dimensão do projecto, uma referência em África, constituindo um impulso importante para a diversificação da economia. Os técnicos formados na Academia de Pescas e Ciências do Mar do Namibe vão ter títulos internacionais, não classificados por Angola, por não estar inscrita ainda no Convénio Internacional sobre os Navegantes, mas serão reconhecidos pela Academia Marítima de Gdynia, da Polónia.
Em Angola, existem muitas áreas da pesca que não são exploradas devido à falta de quadros suficientes no sector. Dentro e fora do mar, há muitas espécies para serem exploradas, tanto na aquicultura, lagos e lagoas. Já foram identificadas áreas para a exploração como a caqueia do Moxico, o bagre do Nzeto e do rio Curoca (Tômbwa), mas muitos não sabem como os explorar, porque sem quadros humanos não é possível.

 Polónia

As relações entre Angola e a Polónia existem desde a luta de libertação nacional. A Polónia foi uma das primeiras nações a reconhecer a Independência de Angola, a 21 de Novembro de 1975.
Desde 2004, Angola consta da lista dos parceiros prioritários deste país do leste da Europa, no âmbito da cooperação com o continente africano. A cooperação polaca no país tem como principais vértices os domínios da agricultura, geologia e minas, saúde, desminagem e construção naval.
No domínio do ensino superior, a Polónia co-financiou e lidera a construção da Academia de Pescas e Ciências do Mar, no Namibe, considerada a maior de África.

Produção mundial

Segundo a FAO em 2014, a produção mundial do pescado chegou a 170,3 milhões de toneladas, movimentando 600 mil milhões de dólares. Só em exportações, chegaram aos 140 mil milhões. Deste número, o Brasil contribui com apenas 246,1 milhões.
A FAO refere que o aumento do comércio global de pescado está a gerar mais riqueza do que nunca, mas os países devem ajudar os pescadores e aquicultores de pequena escala, para que eles também possam colher benefícios.
Os números recorde do comércio reflectem o forte crescimento da produção aquícola e os preços elevados de uma série de espécies, como o salmão e o camarão.
Os países em desenvolvimento continuam a desempenhar um papel importante no abastecimento dos mercados globais, representando 61 por cento do total das exportações de peixe e 54 do valor nos últimos anos. As suas receitas de exportação líquidas (exportações menos importações) atingiram os 35.3 mil milhões de dólares, acima do valor das exportações de um conjunto de outros produtos agrícolas, incluindo o arroz, a carne, o leite, o açúcar e a banana.
Mas os benefícios do comércio internacional nem sempre chegam às comunidades de pescadores de pequena escala, embora os pescadores e aquicultores artesanais constituam cerca de 90 por cento da força de trabalho no sector.
A Organização das Nações Unidas apela aos países que ajudem os pescadores de pequena escala e os trabalhadores do sector das Pescas, cerca de metade dos quais são mulheres, a superar uma série de constrangimentos, incluindo a falta de poder de negociação e de acesso ao crédito, as dificuldades em cumprir as normas de acesso ao mercado e as infra-estruturas de comercialização inadequadas, de modo que eles possam ter acesso aos mercados locais, globais e, especialmente, regionais.
De acordo com a FAO, os países têm de disponibilizar aos pequenos aquicultores o acesso ao financiamento, a seguros e a informações sobre mercados, investir em infra-estruturas, fortalecer as organizações de produtores e de comerciantes de pequena escala e garantir que as políticas nacionais não negligenciem ou enfraqueçam este sector.

Uso de subprodutos

À medida que se processa uma maior quantidade de pescado para exportação, existem também mais subprodutos, como cabeças, vísceras e espinhas, que são potencialmente valiosos caso sejam transformados em produtos para o consumo humano. É preciso garantir que esses produtos não sejam desperdiçados, do ponto de vista económico, mas também nutricional.
Os subprodutos do pescado têm muitas vezes um valor nutricional mais elevado do que o próprio peixe, especialmente em termos de ácidos gordos essenciais, vitaminas e minerais e podem ser uma excelente maneira de combater as deficiências em micro nutrientes nos países em desenvolvimento.
Nos últimos anos, têm surgido novos mercados para os subprodutos, indicando a crescente procura por cabeças de peixe em alguns mercados da Ásia e da África, ao mesmo tempo que é possível utilizar as cabeças e as espinhas para responder à crescente procura global por óleo de peixe e por suplementos minerais.
Há também um grande potencial na transformação dos subprodutos em farinha e óleo de peixe para a alimentação na aquacultura e pecuária, contribuindo indirectamente para a segurança alimentar. Isso permitiria que algum do pescado inteiro utilizado neste momento na produção de farinha e de óleo de peixe seja utilizado para o consumo humano directo.
Na província do Namibe, está instalada uma fábrica de processamento de farinha de peixe e óleo, a “Oceana Boa Pesca”. Localizada no município do Tômbwa, a unidade fabril, orçada em dez milhões de dólares, tem capacidade para 60 toneladas por dia de cada um dos produtos (farinha de peixe e óleo) e conta com 120 trabalhadores, quatro dos quais estrangeiros.
Além da imensidão dos recursos que tanto podem servir para ajudar a aliviar as importações de bens da cesta básica, como para trazer divisas para o país através da exportação, o sector das Pescas tem um papel ainda mais decisivo no emprego e no rendimento de milhões de famílias.
Ao pensar nos mais de 1.600 quilómetros de costa que Angola possui, rapidamente visualizamos a imensidão de recursos que aí se encontram. Desde o petróleo e gás, o marisco e o peixe. Os primeiros já têm lugar cativo no PIB, os demais, com o investimento que está a ser feito no âmbito dos programas dirigidos, perfilam-se para entrar nas contas e diversificar a economia nacional.
Mas o país quer notabilizar-se, também, no domínio científico. Daí a aposta na formação ao mais alto nível.  Angola pretende ter quadros altamente qualificados, com perfeito domínio da ciência do mar e dos seus múltiplos recursos. A ideia é gerar capacidade interna para explorar mais e melhor a sua costa e pô-la ao serviço do desenvolvimento. Por isso, o Executivo apostou na chamada “economia azul” e, fruto de um acordo com a Polónia, decidiu avançar com o projecto da Academia de Pescas e Ciências do Mar.

capa do dia

Get Adobe Flash player



ARTIGOS

MULTIMÉDIA