Reportagem

Mordedura de cães no Zaire atinge níveis preocupantes

João Mavinga e Fernando Neto | Mbanza Kongo

O vírus da raiva na província do Zaire está a ganhar contornos preocupantes, devido à onda de mordeduras de cães. As estatísticas da Direcção Provincial da Saúde indicam para 117 de pessoas com raiva, registadas de Janeiro até presente  à altura. Deste número, 17 morreram, sendo 16 em Mbanza Kongo e uma outra no município do Nóqui.

 

O programa de recolha de animais vadios na cidade de Mbanza Kongo e em outros municípios da província carece de material como açaimos e pistolas munidas com argolas como tranquilizantes e redes
Fotografia: DR

Nos últimos dias, vários citadinos, de Mbanza Kongo, ganharam sisma, devido à ocorrência de mordeduras e circulam com receio de também serem mordidas por um cão raivoso. Há falta de vacinas e soros anti-rábicos humanos nos hospitais da região. Tornou-se hábito as pessoas saírem de casa munidas de objectos contundentes como paus, pedras, catanas, machados e martelos, para se defenderem, caso sejam surpreendidas por um cão raivoso.
Ao Jornal de Angola, o director clínico do Hospital Provincial do Zaire em Mbanza Kongo, Carlos Germano Paulo, apelou aos cidadãos para lavarem com água e sabão a zona afectada em caso de mordedura, já que a primeira dosagem dos cuidados médicos estipula o prazo de 72 horas no sentido de prevenir a progressão do vírus da raiva no organismo, até ao tronco encefálico, onde o vírus se aloja.
“A partir do cérebro, o vírus começa a desenvolver a sua acção no organismo humano onde desencadeia o período de encubação, que dá os primeiros sintomas da raiva, fase impossível de tratar”, explicou o médico clínico do Hospital Provincial do Zaire.
Numa primeira fase, o paciente mordido por um cão é tratado com vacina anti-rábica e também com hemonoglobolina (outra medida preventiva) e quando se manifestam os sinais da doença, continuou, é aplicado o soro anti-rábico para combater a progressão do vírus.
Por falta de vacinas anti-rábicas humanas, o hospital do Zaire evacua para Luanda os pacientes afectados, tal como aconteceu com o cidadão Nsalambi Diantala de 55 anos, mordido na perna esquerda, por um cão vadio, quando saía de casa de motorizada no bairro Madungo.O problema tem arrastado vários casos para a capital do país, Luanda, onde o único recurso tem sido a Delegação Provincial da Saúde. Quando se regista ruptura de stock  nos hospitais públicos, a alternativa têm sido as clínicas privadas, onde o preço da vacina anti-rábica humana oscila entre 40 e 50 mil kwanzas e os soros anti-rábicos humanos têm os preços mais elevados.      
O director clínico da principal unidade hospitalar do Zaire considerou a propagação do vírus da raiva de “extrema preocupação.” Sublinhou que as autoridades estão informadas e a fazer demarches para a tomada das medidas que se impõe, posição também partilhada pelo vice-governador provincial para o sector Político e Social, Rogério Eduardo.
Diante da subida do número de casos de mordeduras, em Novembro do ano passado, a Direcção Provincial da Saúde tomou medidas em colaboração com a da Agricultura, sensibilizando a população, no sentido de vacinar os seus animais e outros cuidados a observar em caso de mordedura, incluindo o reforço da recolha compulsiva de cães vadios.
Rogério Eduardo mostrou-se consternado com as sucessivas mortes de pessoas pela doença de raiva. “Acabamos de reunir com membros da administração municipal para partilhar informações de como está ser tratada a situação que ultimamente vivemos”, disse Rogério Eduardo, que garantiu pleno acompanhamento na execução do trabalho de recolha de animais vadios e da campanha de vacinação de animais no posto fixo situado na Direcção Provincial da Agricultura, onde já foram vacinados cerca de dois mil animais.
“Infelizmente, carecemos de vacinas anti-rábicas humanas para permitir o combate acérrimo da doença localmente, para se evitar a evacuação de pacientes mordidos para Luanda”, disse.
Para o vice-governador, o trabalho de sensibilização, a realizar na cidade de Mbanza Kongo, deve contar com a colaboração e o apoio da sociedade civil e de igrejas, para assegurar que a mensagem possa circular com fluidez.
“O programa de recolha de animais vadios carece de materiais como tapa-boca, pistolas munidas com argolas, tranquilizantes e redes. Estes meios vão estar disponíveis tão logo haja disponibilidade financeira”, disse.

 Recolha de cães vadios

O processo da recolha de cães vadios nas ruas da cidade e arredores impõe a realização no próximo mês de uma campanha massiva, que vai envolver efectivos da Polícia Nacional e das Forças Armadas Angolanas. A acção exige um montante de 800 mil kwanzas para custear os encargos do material de protecção individual, assim como a logística necessária, como água, alimentação e transporte.
O administrador municipal adjunto da área Técnica de Mbanza Kongo, Cláudio Francisco Fortunato, referiu que de 25 de Março a 9 de Maio foram recolhidos 82 cães vadios.
“Como não temos condições plenas para albergar, alimentar e prestar assistência ao elevado número de animais recolhidos, os mesmos foram sacrificados através de medicamentos injectados na corrente sanguínea”, disse o responsável.
Os animais são mantidos em quarentena por 48 horas, onde aguardam pela reivindicação dos proprietários para serem devolvidos com a apresentação do certificado de vacina. Cláudio Fortunato fez questão de dizer que o animal pode não apresentar sinais de doença, mas existe o risco de entrar em contacto com outro cão infectado. Normalmente, faz-se um rácio de que um animal pode morder três pessoas por dia o que representa um perigo maior para a saúde humana.
Após a realização da campanha de recolha de animais, seguir-se-á uma outra denominada “Registe o seu animal querido”, que visa cadastrar os animais na administração municipal, como forma de criar o vínculo oficial entre o animal e o proprietário e estabelecer melhor controlo.
“Cada animal vai ser afixado uma placa com número de identidade, o que vai facilitar o processo de recolha dos animais e consequentemente a devolução ao dono”, disse Cláudio Fortunato, acrescentando que a medida vai contribuir para estancar a proliferação da raiva na região.
Quer o vice-governador provincial, quer o administrador adjunto e o médico clínico, convergem nas ideias de aconselhamento. Por isso, dizem que “as pessoas vítimas de mordeduras devem recorrer a um centro médico para os primeiros socorros, ao contrário de recorrerem ao tratamento tradicional e pensarem no hospital depois de estarem graves.”  “Acredita-se muito nas forças místicas e muitas pessoas apegam-se ao tratamento caseiro, como solução para o tratamento. Os cidadãos devem facilitar o trabalho das autoridades sanitárias, levando os animais domésticos à vacinação”, pontualizou Cláudio Fortunato.
 
Vacinação de cães

Se a nível das vacinas anti-rábicas humanas a província do Zaire vive ruptura de stock, tal não acontece nas vacinas anti-rábicas para animais.
O responsável do Departamento do Instituto dos Serviços de Veterinária (ISV) no Zaire, Ângelo João Zua, disse que a sua direcção tem actualmente um stock calculado em cerca de quatro mil doses de vacinas contra a raiva para animais, nomeadamente cães, gatos e macacos.A última campanha de vacinação feita em Mbanza Kongo, explicou, aconteceu entre os dias 25 e 31 de Março do corrente ano, período em que foram vacinados 1.482 caninos (cães), 207 felinos (gatos) e sete símios (macacos).
Para ele, as pessoas que têm animais como cães e gatos podem levá-los aos postos de vacinação fixos na Direcção da Agricultura e nas sedes das administrações municipais do Kuimba e do Soyo.
“Falta-nos condições financeiras para podermos realizar uma campanha massiva de vacinação anti-rábica animal porta-a-porta nos seis municípios da região, algo que não fazemos há mais de seis anos pelos motivos acima evocados”, reconheceu.
Os técnicos de veterinária insistem no isolamento do cão por sete dias, depois de morder alguém, para aferir o seu real estado de saúde. “Ao fim deste período, o cão pode apresentar sinais de doença como baba ou salivação excessiva, assim como fobia à luz e à água, emagrecimento e comportamento apático”, explicou.
 
Hospital sem vacinas

 As vacinas dependem da responsabilidade da secção epidemiológica da estrutura de tutela em detrimento dos hospitais. No caso particular do Zaire, “o hospital não possui condições para atendimento de pacientes mordidos por cães por falta de vacinas”, asseverou o doutor Carlos Germano Paulo, director clínico do Hospital de Mbanza Kongo.
Para o também médico cardiologista, quando se manifestam os sinais e sintomas de raiva no ser humano, os casos terminam sempre em mortes. “Por exemplo, no mês de Janeiro, foram registados 10 casos de mordedura de cães, em Fevereiro 47, em Março 30 e em Abril 29. Os dados de Maio com um caso estão a ser compilados para a posterior divulgação”, disse Fonseca Miala, do Departamento de Epidemiologia do Zaire.
Sobre o tema, o director clínico do Hospital de Mbanza Kongo, Germano Carlos, reforçou a ideia de multiplicar-se os cuidados durante as caminhadas e disse que neste momento os casos de mordedura são mais registados na capital provincial, Mbanza Kongo, onde foram notificados 47 casos, dos quias 14 faleceram. Os 14 casos foram mordidos em Janeiro último. Outro caso de mordedura, que causou a  morte de uma jovem, que deixa um bebé de três meses, ocorreu no bairro Cazanga, Novembro do ano passado.
O mais caricato dos acontecimentos foi a morte este mês Maio de uma criança de oito anos na zona de Kianganga, vítima de mordedura em Janeiro deste ano. A história repetiu-se no bairro Nsongo, onde um jovem, também morreu de raiva.Mbanza Kongo está a viver nos últimos dias um clima de choque pelo volume de casos de morte de pessoas com raiva, por mordedura de cães. No último fim-de-semana, José Nguinamau, de 23 anos, foi mordido. Pelo estado aparentemente crítico do animal, o mesmo foi evacuado para o hospital provincial onde recebe cuidados médicos intensivos, por receio de o animal ser portador do vírus de raiva.
“Infelizmente, não temos vacina anti-rábica humana. Geralmente, toda aquela pessoa mordida pelo cão é encaminhada para a Delegação Provincial da Saúde de Luanda. Algumas famílias com maiores possibilidades financeiras recorrem a clínicas privadas em Luanda, quando são mordidas”, disse.

Intervenção médica

 A intervenção médica, nos casos de mordedura, deve ser processada de forma rápida, no prazo de 72 horas, porque depois deste período a fiabilidade de eficácia dos medicamentos preventivos é baixa. “Normalmente, o período de encubação da doença da raiva no ser humano vária de dias até sete anos”, disse o doutor Carlos Germano.
A velocidade com que o vírus atinge o cérebro depende muito da capacidade de imunidade de cada indivíduo, tendo em conta o grau de violência do ataque e a quantidade de vírus introduzidos na corrente sanguínea. “Uma pessoa mordida que apresenta sinais e sintomas de raiva dificilmente sobrevive”, avisou. Para identificar um doente acometido com a doença de raiva, o técnico deve diagnosticar com provas através de análises clínicas, para determinar a existência ou não do vírus no sangue, uma modalidade inexistente no hospital provincial do Zaire.“Apenas nos limitamos a observar os aspectos de epidemiologia, analisar o histórico da mordedura e caracterizar os sintomas apresentados, como mal-estar, dores de cabeça, agitação psicomotora, salivação em excesso, desorientação total e fobia de água.

Tempo

Multimédia