Reportagem

Morrem doentes abandonados pelas famílias

Edivaldo Cristóvão

O Hospital Américo Boavida, em Luanda, registou, desde Janeiro último, a morte de 19 doentes que deram entrada sem identidade e abandonados pelas suas famílias, um fenómeno recorrente, que Agostinho Matamba considerou “muito preocupante”.

Fotografia: Vigas da Purificação |Edições Novembro

O responsável disse ao Jornal de Angola, que os doentes que morrem no hospital, sem identidade ou abandonados por familiares, são enterrados nesta condição quando os corpos não são reclamados no prazo de dois dias, depois de o óbito ser declarado.

Agostinho Matamba explicou que os casos desses doentes sem identidade ou abandonados pela família, que morrem no hospital, são encaminhados para o Serviço de Investigação Criminal (SIC) para dar o tratamento legal.
O gestor hospitalar adiantou que alguns dos doentes nesta condição, permanecem muito tempo no hospital, mesmo depois de receberem alta, o que inviabiliza o internamento de mais doentes no hospital, com capacidade para 800 camas.
Médico especialista em cirurgia geral, Agostinho Matamba disse estarem na situação de abandono sete doentes, alguns dos quais vítimas de acidentes de viação, tendo um deles recebido alta hospitalar em Agosto do ano passado, mas continua no hospital a ocupar uma cama.
Embora tenha reconhecido haver famílias que não sabem do internamento de alguns parentes, por terem sido levados ao hospital por pessoas estranhas, algo que pode acontecer a vítimas de atropelamento, o médico disse que “alguns doentes são abandonados propositadamente”, por discriminação, sobretudo idosos e pacientes com doenças in-fecciosas, como VIH/Sida e tuberculose.
Agostinho Matamba acentuou que, para evitar a estada prolongada no Hospital Américo Boavida, alguns doentes são enviados para o Lar Kuzola e para o Beiral. No Hospital Américo Boavida há doentes que não colaboram na localização das suas famílias por apresentarem discursos incoerentes, devido às sequelas deixadas pela doença, daí não informarem com exactidão a área em que vivem e a sua identidade.
Enquanto continuarem no Hospital Américo Boavida os doentes abandonados pelas famílias ficam exclusivamente dependentes da instituição hospitalar, desde a alimentação aos cuidados de higiene.
O hospital dispõe de uma área social, que se encarrega de localizar familiares de doentes para serem devolvidos ao ambiente familiar. O trabalho é realizado às quartas-feiras.
No ano passado regressaram ao ambiente familiar 360 doentes e, desde o início do presente ano, foram reintegradas 18 pessoas.

Os abandonados pelas famílias

Amadeu Gunga, 55 anos, está desde 26 de Dezembro no Hospital Américo Boavida, para onde foi transferido para a área de Nefrologia, depois de ter sido assistido no Hospital Municipal de Cacuaco.
O paciente foi parar ao hospital em consequência de uma crise de hipertensão que teve no dia 18 de Outubro, mas só foi levado para o Hospital Municipal de Cacuaco dois dias depois pelos vizinhos que notaram a sua ausência e o encontraram debilitado.
Pelo estado grave em que se encontrava teve de ser transferido para o Hospital Amé-rico Boavida, onde permanece até hoje.
Antes de ser internado, Amadeu Gunga vivia sozinho na Nova Urbanização de Ca-cuaco, perdeu quatro filhos, hoje é pai de uma filha apenas, com nome de Albina Lombo, 34 anos, que vive no Lobito.
"Há muito tempo que não vejo a minha filha, não tenho nenhum contacto dela. Acredito que se até agora ela não me procurou é por falta de condições financeiras. Sempre tive bom relacionamento com ela, inclusive, quando estava bom de saúde, sempre que pudesse ia ao Lobito visitá-la", contou.
O paciente contou que a sua filha tem sete rebentos e é vendedora num dos mercados do Lobito, estando em Luanda sem família, razão pelo qual "gostaria de receber apoio para poder ir ao encontro dela".
Amadeu teme voltar para casa, porque não tem condições para o seu sustento, por se encontrar numa cadeira de rodas. "É-me difícil fazer as coisas sem ajuda, O atendimento no hospital tem sido satisfatório, sou bem tratado, tendo recebido alimentação e produtos de higiene."
Antes da crise de hipertensão, Amadeu Gunga trabalhou como guarda de um cidadão moçambicano, que residia no bairro dos Combatentes, Sambizanga e fazia alguns biscates em carpintaria. Quando recuperar completamente, pretende continuar a trabalhar.
A enfermeira Maria Otília da Silva que geralmente cuida do paciente Amadeu, disse que o estado de saúde dele tem evoluído significativamente, já que esteve pior por resistir ao tratamento. Hoje tem feito sessões de fisioterapia para recuperar o andamento.
O assistente social, Luwawa Pedro, que acompanha os pacientes abandonados até à residência dos familiares quando são identificados, disse que a maior parte das pessoas nesta condição tem dificuldade com a fala, por esta razão só Amadeu Gunga estava disponível para conversar com o repórter do Jornal de Angola.
Luwawa Pedro disse que muitos pacientes abandonados no hospital foram reconhecidos e levados pelos familiares depois de o Jornal de Angola publicar fotografias dos mesmos.
Neste momento, entre os doentes sem identificação, há um adolescente de 13 anos, que entrou no hospital no dia 24 de Novembro de 2018. Es-teve no Serviço de Cirurgia Geral, por causa de um acidente de viação, em Cacuaco, e hoje encontra-se no Lar Kuzola. O menor já tentou localizar os parentes que residem naquela circunscrição de Luanda, mas sem êxito.
Graças ao Jornal de Angola, André Cassoma que esteve internado no Serviço de Doenças Infecciosas e Parasitárias, a sua família reconheceu-o e levou-o para o seu convívio.
Manuel Sebastião foi admitido no Serviço de Cirurgia Geral, vítima de ferimento de arma de fogo na cabeça. Já saiu da área de tratamento de traumatismo craniano encefálico, deverá receber alta médica nos próximos dias e será entregue à família, na próxima quarta-feira.
Outros pacientes abandonados ainda continuam no processo de localização familiar como são os casos de João Pedro, 71 anos, acamado no Serviço de Medicina, desde Dezembro último, levado àquele hospital por um jovem não identificado. João Pedro apresenta dificuldades na comunicação, associadas à patologia e ao factor linguístico, por ser natural da República Democrática do Congo. Domingos Jamba Candimba, 30 anos, natural da Huíla, mas os familiares residem no Namibe. Foi levado ao Américo Boavida por agentes da Polícia Nacional, vítima de atropelamento, tendo fracturado a perna direita e o braço esquerdo.

Urgência com vários casos de VIH/Sida

O Banco de Urgência do Hospital Américo Boavida recebe diariamente mais de 400 do-entes, 25 por cento dos quais infectados pelo vírus da sida, informou o director Agostinho Matamba, que garantiu ter “di-minuído muito” o índice de mortalidade na unidade sanitária, devido à melhoria das condições de trabalho.
Agostinho Matamba disse não haver falta de medicamentos nem meios técnicos, tendo informado que a principal causa de mortes é a chegada tardia ao hospital, alguns dos quais dão entrada na fase terminal da doença.
O gestor hospitalar lamentou que haja doentes que preferem antes procurar tratamento tradicional ou igrejas, para a cura de doenças de que são vítimas, e muitos chegam aos hospitais já com a doença em estado avançado.
“A nossa perspectiva é humanizar cada vez mais os serviços e fazer diminuir os nossos indicadores”, declarou Agostinho Matamba.
O Hospital Américo Boavida tem capacidade para 800 camas e, por ser uma unidade de referência, atende pacientes de todo o país. Com várias especialidades em medicina, é um dos mais solicitados, daí estar a direcção preocupada com a ocupação de camas por doentes já com alta hospitalar, quando existem pacientes em estado mais grave para ocupar as enfermarias.

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