Reportagem

Mulheres em busca de conhecimento

Ana Paulo |

Com uma caligrafia legível e perceptível, ela escreve no caderno bem conservado: “Maria Francisco”, perante o olhar curioso dos presentes.

 

Aulas de alfabetização representam um novo começo para angolanos de várias idades
Fotografia: Contreiras Pipa | Edições Novembro

Fazer isso, escrever o próprio nome, era miragem há 78 anos para Maria Francisco, natural de Calomboloca, Icolo e Bengo, que viu renascer as esperanças quando, em 2013, ingressou no ensino de adultos do Programa de Alfabetização e Aceleração Escolar (PAAE), incentivada pela filha mais nova das quatro que deu à luz.
Vestida com panos e lenço à cabeça, a nossa reportagem encontrou-a sentada atenta à explicação do professor numa das salas de alfabetização do bairro Cazenga Popular, nos arredores do Marco Histórico 4 de Fevereiro, onde, num universo de 41 alunos, ela é a mais velha com 78 anos, tendo a mais nova  29 anos de idade. Actualmente, frequenta o módulo dois do Programa de Alfabetização e Aceleração Escolar, que equivale à 3ª e 4ª classes.
“O meu maior sonho foi sempre aprender a ler a Bíblia Sagrada e a escrever o meu próprio nome. Nos cultos, enquanto os irmãos acompanhavam a leitura da Bíblia, como não sabia ler, prestava apenas atenção à leitura do pastor”, revelou-nos Maria, avó de 14 netos e uma das várias mulheres que ingressam cada vez mais no sistema de ensino de adultos, apostando na formação académica e profissional, para melhor se enquadrarem na sociedade. Dados da Organização da Mulher Angolana (OMA), juntamente com o Ministério da Educação, revelam que foram alfabetizadas nos últimos dois anos cerca de 35.778 mulheres e 7.147 homens com a implementação do Programa de Alfabetização e Aceleração Escolar (PAAE).
Para atingir esses números, foram criadas 247 salas, jangos e quintais de casas de 266 alfabetizadores membros da OMA, JMPLA e da sociedade civil distribuídos nos municípios, distritos e comunas de Luanda.

Mobilizadora social

Hoje, com a experiência de quem teve que trilhar um longo caminho para aprender a ler e a escrever, Maria Francisco trabalha na mobilização e sensibilização de jovens e adultos para ingressarem no sistema de educação no sentido de garantirem o seu futuro.
“O tempo não volta atrás, só avança. Nunca é tarde para realizarmos os nossos sonhos. Só é  tarde quando chega a morte”, frisou Maria Francisco, que, apesar de ter aprendido a ler e a escrever tarde, não culpa os pais por nunca a terem posto a estudar, uma vez que apostaram mais no cultivo da terra para garantir o bem-estar da família.
À semelhança de Maria Francisco, as alfabetizandas Fátima João, 56 anos, e Lurdes Domingos, 52 anos, também frequentam o ensino de adultos, no Cazenga Popular. As duas ingressaram no ensino de adultos em 2014.
Fátima, casada e mãe de 4 filhos, revelou-nos que só decidiu casar com o seu companheiro de longa data depois de aprender a assinar o nome completo nos documentos do casamento como manda a lei do matrimónio. Hoje, disse, graças ao Programa de Alfabetização e Aceleração Escolar (PAAE) deixou de estar na “escuridão” e já consegue ler todos os avisos e notícias que ocorrem no nosso dia-a-dia.
Lurdes Domingos é colega de sala de Fátima João há quatro anos. Ela reconhece não ter sido fácil aprender a ler e a escrever devido às dificuldades de assimilação. “Cheguei a pensar desistir, mas, com a ajuda dos meus filhos e a paciência da professora, consegui ultrapassar as barreiras”, contou-nos Lurdes Domingos, prometendo continuar os seus estudos até finalizar o ensino superior, visto ter criado o gosto pelos estudos.

Jovens alfabetizados

Nas salas de alfabetização, não encontramos só adultos, mas também jovens como David Correia, 14 anos, que há quatro anos frequenta as aulas do módulo “Sim, Eu Posso”.
 David Correia é o mais novo de cinco irmãos e o único que não foi inserido no sistema de ensino, por sua falta de interesse e irresponsabilidade. O adolescente, hoje, valoriza o bom hábito da leitura e da escrita, prometendo que vai continuar a estudar até ser alguém importante na sociedade.

Índice de analfabetismo

A responsável da Educação do Ensino de Adultos do município do Cazenga, Amélia Vitoriana, disse que o município do Cazenga se encontra na fase final da erradicação do analfabetismo, numa altura em que já foram alfabetizadas mais de 12 mil pessoas e a previsão é alfabetizar nove mil e 300 cidadãos. “O analfabetismo já foi erradicado no bairro Hoji-ya-Henda, isto é desde a linha férrea até às Borracheiras”, frisou.
O município conta com 310 salas e alfabetizadores e os cidadãos que mais  aderem ao ensino de adultos são provenientes dos bairros Cazenga Popular, Tala Hady e Hoji-ya- Henda. Por isso, vamos continuar a trabalhar com as turmas de recuperação e atraso escolar nas escolas, igrejas e mercados”, sublinhou.
Amélia Vitoriana explicou que o ensino de adultos começa dos 18 anos até aos 60, mas devido à existência de muitos jovens na faixa etária dos 12 e 13 anos, que não conseguem assimilar devidamente a matéria, passou a ser a partir dos 14 anos.
“Dos 12 aos 15 anos, são alunos de recuperação e atraso escolar que ainda não tiveram oportunidade de ingressar no sistema de ensino. Nós, como educadores, temos que ser pacientes com eles, porque só assim conseguiremos colmatar este défice”, sublinhou Amélia Vitoriana.
O Programa de Alfabetização e Aceleração Escolar (PAAE) visa a recuperação do atraso escolar de crianças, jovens e adultos, que não puderam fazê-lo em tempo normal, atendendo às várias situações que o país viveu e vive.
Incrementado em todo o país, o programa funciona com dois projectos: os módulos 1, 2 e 3, que correspondem à alfabetização e pós-alfabetização, e o “Sim, Eu Posso”, que veio dar força e acelerar o processo de aprendizagem e elucidar melhor os jovens ou adultos através de imagens.
O “Sim, Eu Posso” é a fase inicial do programa. Em três meses, os alunos aprendem as letras e os números. O módulo 1 corresponde à primeira e segunda classes do ensino regular, assim como o 2 à terceira e à quarta e o 3 à quinta e sexta classes.
Os módulos funcionam de forma interdisciplinar. Trata-se de um conjunto de matérias diversas num único manual. Inclui matemática, língua portuguesa e ciências, entre outras. O módulo 1, com o tema “Meu nome, minha história”, baseia-se na lógica de fazer do nome do aluno a palavra mais importante, com a qual pode compreender e pensar a escrita a partir dela.
Este programa desenvolve-se em três etapas, nomeadamente treinamento, ensino de leitura e escrita e consolidação, seguindo três marcos: escutar e ver (ouvido e olhos), escutar e ler (ouvido e livro) e escutar e escrever (ouvido e lápis).

Capacidade de assimilação

Leonor Pacheco, funcionária do Ministério da Educação há quatro anos e colaboradora há 16 anos, dá aulas no módulo “Sim, Eu Posso”, desde 2013. Tendo em conta a sua experiência profissional, Leonor considera que dar aulas a adultos é fácil, porque colaboram e facilitam o trabalho e é mais difícil com os jovens devido ao seu baixo nível de assimilação. A educadora explicou que, quando os alunos transitam para o módulo 3 (equivalente a 6ª classe), são logo transferidos para as escolas públicas com direito a certificado de habilitações literárias. Diz sentir-se orgulhosa por estar a ajudar o Executivo a acabar com o analfabetismo no país.
Margarida Madureira também lecciona numa das salas do “Sim, Eu Posso” há quatro anos, onde conta com 47 alunos, entre eles Maria Francisco. Margarida Madureira disse que as alfabetizandas não querem mais parar os estudos, porque adquiriram o gosto pela ciência. A professora declarou que já não consegue ficar sem leccionar e contou que a sua turma do ano passado atingiu 80 alunos, que foram muito bem encaminhados para as escolas públicas.

Formação à distância

Em 2015, a OMA implementou também no ensino de adultos o “curso à distância”, do primeiro e segundo ciclos ao ensino médio. A primeira secretária provincial da organização feminina do MPLA, Eulália da Rocha, informou que este curso já formou 56 mulheres que concluíram o ensino médio, com direito a certificado de habilitações literárias pelo Ministério da Educação.
“Antes de aderirem ao curso, elas foram contempladas com um curso de informática leccionado por professores voluntários angolanos e brasileiros. Foram atribuídas matérias escolares, incluindo computadores individuais.” 
A OMA vai continuar com o curso à distância e vai acrescentar um pacote de ensino superior para que as 56 mulheres e outros que ainda não terminaram o ensino médio possam dar continuidade à sua formação.
“A formação académica e profissional está em primeiro lugar, daí a importância da organização e seus parceiros sociais continuarem a apostar no ensino de adultos, em particular as mulheres, para que saibam ler e escrever com mais facilidade e rapidez”, declarou a secretária.
Para Eulália da Rocha, uma sociedade onde as mulheres sabem ler e escrever compreende melhor os fenómenos  sociais, por isso, deve haver mais mulheres devidamente letradas e sem dúvidas já com formação, para mais fácil compreenderem os fenómenos da sociedade e assim resolvê-los.  A secretária provincial disse que os cidadãos que mais aderem ao ensino de adultos pertencem aos municípios do Kilamba Kiaxi, Cazenga, Belas, Viana e Cacuaco e com menos adesão os da Quiçama e Icolo e Bengo, onde se regista o maior índice de analfabetismo.

Formação profissional

A OMA, em parceria com o Instituto Nacional de Apoio às Micro,  Pequenas e Médias Empresas (INAPEM) e a associação não-governamental APDCA, vai continuar a combater o analfabetismo e apostar mais na formação profissional das mulheres, bem como no trabalho com a mulher rural.
Para o efeito, foi implementado o projecto “Novo Rumo”, específico para as mulheres das comunidades periféricas que trabalham na produção de sabão, na reciclagem de resíduos sólidos, culinária e outros para combater a pobreza.
Sendo a agricultura a base e a indústria o sector decisivo, Eulália da Rocha disse que a organização vai continuar a apostar mais nas cooperativas agrícolas, pois é a mulher rural que cultiva os produtos que abastecem os mercados do país. Este ano, vão ser formadas na província de Luanda cinco mil mulheres a nível de empreendedorismo. Em Março, já foram formadas mais de 300 mulheres.

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