Reportagem

Mundo assinala hoje Dia do Animal de Laboratório

Osvaldo Gonçalves

A celebração da data é, no mínimo, polémica. De um lado, os amantes da evolução da Ciência a favor de descobertas que permitam a cura de doenças, sobretudo, as graves; do outro, os defensores dos direitos dos animais; no meio, a Organização das Nações Unidas que, para chamar a atenção sobre a importância do assunto, instituíram o 24 de Abril, Dia Mundial do Animal de Laboratório.

Segundo dados oficiais, a data foi criada em 1979 pela Sociedade Nacional Anti-Vivissecção (National Anti-Vivisection Society, NAVS), tendo sido escolhido em honra do antigo presidente da sociedade, Hugh Dowding, o primeiro Barão Dowding, nascido a 24 de Abril de 1882, em Londres, Inglaterra. Hugh Caswall Tremenheree Dowding morreu a 15 de Fevereiro de 1970 e é-lhe creditado o papel fundamental na defesa da Grã-Bretanha e a consequente derrota do plano de Hitler de invadi-la.
Reza a história que após se aposentar, Dowding aderiu ao Espiritismo e se interessou activamente por essa doutrina, sendo escritor e palestrante. O seu primeiro livro sobre o assunto, Many Mansions, foi escrito em 1943, seguido por Lychgate (1945) e The Dark Star and God's Magic. Rejeitando o Cristianismo convencional, juntou-se à Sociedade Teosófica, que defende a crença na reencarnação e na mediunidade. Ele também abraçou a causa do bem-estar animal. Ele escreveu em Lychgate que conversava com “garotos da RAF” mortos na Segunda Guerra Mundial durante o sono.
Considerado o “Espírita número 1” da Inglaterra, o marechal do Ar Sir Hugh Dowding solicitou ao Parlamento inglês, a 30 de Julho de 1952, o reconhecimento do Espiritismo como religião naquele país, no que foi atendido.  Segundo os defensores, o objectivo desta data é dar voz e vida aos animais que são utilizados em testes de laboratório por todo o mundo, sofrendo torturas arcaicas por fins comerciais, industriais, científicos e académicos.

À moda antiga

A data é celebrada com reuniões de associações pela defesa animal, manifestações contra a utilização de animais em experiências e com a divulgação de listas de marcas que utilizam e não utilizam animais em experiências e de outros dados relevantes sobre a matéria. O objectivo de todas as iniciativas é acabar com a experimentação animal.
Estima-se que 92 por cento dos testes com animais (fase 1) falham nos ensaios clínicos com humanos (fase 2). Embora métodos avançados venham substituindo de forma gradual a pesquisa animal,  leis consideradas desactualizadas exigem testes animais antes que um produto possa ser colocado no mercado. Todos os anos, milhões de animais sofrem e morrem em experiências cruéis e injustificáveis, que nunca podem ser consideradas confiáveis.
Como método para predizer efeitos prováveis em seres humanos, a pesquisa animal é falha em três áreas consideradas chaves. A primeira tem a ver com as diferenças entre espécies. Notam os especialistas, que cada espécie responde de forma diferente às substâncias, pelo que os testes em animais são uma maneira não confiável de predizer efeitos em seres humanos.
Acrescentam que as doenças humanas em animais de laboratório não ocorrem por processo natural e precisam ser criadas artificialmente, sendo diferentes da condição humana que tentam imitar, o que também afecta os resultados.
Os entendidos, sobretudo geneticistas, referem ainda que estudos têm demonstrado que a vida dos animais no ambiente de laboratório pode afectar o resultado de um experimento, e os resultados dos testes diferem devido à idade do animal, sexo, dieta e até mesmo o material onde ele dorme.
Os defensores da data a-crescentam que os testes com animais continuam a ser utilizados simplesmente porque esta é a maneira que sempre foi feito.
Defendem que os reguladores governamentais e agências que são responsáveis por permitir que produtos entrem no mercado estão habituados a esses testes padrão em animais e a essas estimativas e avaliações de “segurança” extraídos dos seus resultados, embora estejam conscientes do potencial de diferenças entre as espécies.
Dessa forma, uma série de testes em animais é seguida por ensaios em humanos e é aí que o problema das diferenças de espécies pode produzir reacções adversas ines-peradas. Efeitos colaterais horríveis em pessoas ocor-rem devido a essas diferenças, sublinham.
Esse grupo avança que os progressos na ciência e tecnologia acontecem muito rapidamente, fornecendo avançadas técnicas não-animais que são mais rápidas, mais precisas e de relevância directa para os seres humanos. Nota ainda que existe uma ampla gama de técnicas multidisciplinares e sofisticadas que permitem o estudo da eficácia e da segurança das substâncias no tecido humano invitro, bem como nos seres humanos. Métodos não-animais incluem análises computadorizadas, base de dados e modelos baseados em humanos – melhores para a ciência, para os humanos e para as outras espécies, frisam.
Por esses motivos, o grupo refere que alguns pesquisadores estão presos ao passado e são cépticos sobre o abandono da investigação animal e a sua substituição por alternativas não-animais.

  Situação em Angola tem poucos estudos científicos divulgados

Falar de animais de laboratório e seus direitos em Angola pode até parecer totalmente sem nexo, atendendo, sobretudo, à falta de estudos, pelo menos divulgados, de pesquisas que envolvam animais, mas, mesmo sendo escassas as experiências nes-sa área, é importante que o tema comece já a ser abordado, já que se conhece o reiterado interesse de técnicos angolanos e, por força deles, das autoridades do País, na realização de pesquisas que envolvam as espécies locais.
Exemplo desse facto é o projecto Kitabanga, desenvolvido desde 2003 pela Fa-culdade de Ciências da Uni-
versidade Agostinho Neto (UAN), com vista à protecção da tartaruga marinha. Estima-se que desde o início da sua vigência, tenha sido possível dar cobertura a mais de 3.500 ninhos e devolver ao mar com segurança 322 mil novas tartarugas.
Mas existem, desde há muitos anos, experiências feitas no terreno sobre o impacto de certas espécies animais no desenvolvimento, sobretudo, das culturas vegetais, pelo que a sua passagem para laboratórios especializados é o caminho a seguir.
Agricultura e Pescas são os sectores mais indicados para dar sequência às iniciativas que até agora parecem circunscritas ao Ambiente. Não conhecendo a existência de animais de laboratório, é importante que cada um olhe para os animais domésticos de forma diferenciada, talvez mais carinhosa, mais humana.

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