Reportagem

Mundo recorda Madiba

Osvaldo Gonçalves

Nelson Rolihlahla Mandela esteve preso pelo regime do apartheid durante 27 anos, pelo que se tornou num dos presos políticos mais antigos do planeta e também o mais conhecido internacionalmente devido ao motivo pelo qual foi condenado: a luta pela abolição do regime segregacionista no seu país natal, a África do Sul.

Nelson Mandela é considerado ícone da liberdade
Fotografia: AFP

Graças à luta levada a cabo pelo ANC e forças anti-apartheid no país e ao nível diplomático e à forte pressão internacional em prol da libertação do líder político e a realização de eleições livres e justas naquele país, Mandela acabou por ser solto em 1990. Falecido aos 5 de Dezembro de 2013, com 95 anos de idade, Nelson Mandela foi mais do que o primeiro presidente negro da África do Sul, o primeiro a ser eleito democraticamente naquele país.
A Resolução A/RES/64/13 aprovada pela Assembleia Geral, que instituiu o Dia Internacional Nelson Mandela - Pela liberdade, justiça e democracia, foi aprovada por consenso pelos 192 países membros da ONU e é uma homenagem à dedicação de Mandela ao serviço da humanidade, pela resolução de conflitos, pela relação entre as raças, promoção e protecção dos direitos humanos, a reconciliação, igualdade de géneros e direitos das crianças e outros grupos vulneráveis e ainda pelo desenvolvimento das comunidades pobres ou subdesenvolvidas.
Quase quatro anos passados após o falecimento de Nelson Mandela, continua a surpreender a postura assumida pelo líder anti-apartheid após a sua libertação, a começar pela atitude de perdão que teve em relação à comunidade branca sul-africana e de profunda compreensão em face dos receios e posicionamentos da comunidade negra, em particular dos seus líderes.
A leitura e depoimentos de pessoas que acompanharam a trajectória de Mandela até à sua eleição para a Presidência da República e posterior retirada da vida política e falecimento e um repetido visionamento dos filmes e documentários que se fizeram sobre a sua personalidade, abeiram-nos de um entendimento do carácter do indivíduo. Em Mandela, partindo da própria filosofia que sempre seguiu, o ubuntu, conjuga-se uma série de elementos que, cada um a seu modo, contribuíram para a formação de uma personalidade seriamente apostada na reconciliação. Os valores da filosofia ubuntu, como a compaixão e a comunhão, pilares do humanismo, serviram como base para a formulação dos objectivos nacionais de reconstrução e reconciliação que orientaram a Comissão da Verdade e Reconciliação, grupo formado por pessoas proeminentes, que entre 1996 e 1998, ouviram publicamente mais de 20 mil pessoas.
Esse exercício de releitura e revisionamento é feito muito por força de certos questionamentos sobre o papel desempenhado por Nelson Mandela na superação do fosso económico-financeiro entre as comunidades negra (79 por cento de uma população de cerca de 45 milhões de pessoas) e branca da África do Sul.
O domínio económico branco prevalece na África do Sul. O actual cenário na África do Sul demonstra uma grande disparidade entre negros e brancos em termos económicos, embora os primeiros detenham cerca de 80 por cento do poder político.
Está ainda por se saber se a nova classe média, oriunda do ANC, se vai posicionar à esquerda ou deixar-se enredar pelo fetiche do estatuto de pequena burguesia. Mas necessário será recorrer à História para entender que as mudanças a operar devem ser ponderadas, sob pena de se descambar para uma situação que poderia significar a perda do poderio da economia sul-africana, tida com a segunda maior de África, atrás apenas da Nigéria, e 25ª do mundo. E com o pender dos pratos da balança económica, pende também o tronco da marula ou maroela (árvore famosa pela noz de que se produz a bebida amarula) da sociedade sul-africana.
Muitas das vozes que hoje questionam a postura de Mandela, sobretudo no período imediatamente posterior à sua libertação, dão pouca atenção à realidade do cenário na África do Sul naquela época, marcado por fortes dissonâncias no seio da população negra, com forças e líderes políticos claramente vincados no poder tribal e o ANC dividido na forma como haveria de encarar a nova situação.
O rememorar da situação dá-nos bem a ideia de que a África do Sul se encontrava de facto à beira do precipício, sob o espectro de uma guerra civil que, em primeira instância, oporia as ainda quase intactas Forças de Defesa da África do Sul (SADF) à maioria negra, não apenas os grupos de guerrilha do Umkhonto we Sizwe (Lança da Nação em zulu), mas toda a população, e acarretava também a verdadeira avalanche que seria o estalar dos confrontos em massa no seio da população negra, com diferentes grupos movidos por simpatias políticas ou por motivações tribais.
Estava-se já às portas das primeiras eleições livres no país em que se alcançaria o feito “um homem um voto”, reclamado há décadas, com Mandela em constantes negociações com a liderança do Partido Nacional, principal representante da minoria branca que ocupava o governo.
As ruas, principalmente nos antigos ghetos, bairros periféricos, zonas rurais e até zonas mineiras, abrasavam com os discursos inflamados de Buthelezi e do seu Inkhata, e de Eugene Terreblache e o seu Movimento da Resistência Afrikaner, que defendia a supremacia branca e a manutenção do apartheid.

 

  Antigo líder no ANC agradeceu o apoio do Governo angolano

 

Mandela abraçou de imediato a tarefa diplomática e marcou posição na região com a primeira visita a ser efectuada precisamente a Angola, em Maio de 1990, durante a qual agradeceu o apoio do governo angolano e louvou os enormes sacrifícios consentidos pelo povo, mas claro estava que a principal batalha naquele momento desenrolava-se no interior das fronteiras do país.
Ataques bombistas e confrontos armados faziam antever um cenário dantesco, o ambiente político era de suspeição a todos os níveis, o futuro da África do Sul apresentava-se colocado sobre um barril de pólvora que, hoje podemos dizer, só não explodiu por alma e esforço de Nelson Mandela.
Hoje, críticas várias podem ser dirigidas tanto a Mandela quanto aos políticos que o seguiram na presidência, Thabo Mbeki e agora Jacob Zuma, sobretudo no que diz respeito à reforma agrária, sabendo-se que, por altura do fim do apartheid, a população branca detinha 80 por cento da terra. Os cálculos iniciais indicavam a atribuição de 30 por cento das terras aráveis do país a camponeses pobre até 2014. Mas, muito por força do sucedido no vizinho Zimbabwe, em que as expropriações de fazendeiros deram resultados considerados catastróficos para a economia do país, os sul-africanos procuram agir com a maior prudência possível, até porque existem no país diferentes visões do problema do desenvolvimento rural e da reforma agrária. Segundo os entendidos, cada uma das nove províncias tem uma velocidade própria de aplicação da lei de terras e em cada região são necessários acertos entre forças políticas e manter equilíbrios na luta contínua entre os lobbies representativos dos sem-terra e os produtores comerciais.
A prudência aconselha a ir devagar. “Nós podemos mudar o mundo e torná-lo um lugar melhor. Está nas nossas mãos fazer a diferença”, afirmou aquele que foi congratulado internacionalmente pela sua acção anti-colonial e anti-apartheid, recebeu mais de 250 prémios, incluindo o Prémio Nobel da Paz em 1993 e a Medalha Presidencial da Liberdade dos EUA.
 Na África do Sul, Mandela é olhado com grande respeito, com frequência tratado por Madiba, que, além de ser o seu nome do clã Xhosa, denota a intimidade do povo para com o seu herói, ou por Tata, que significa “pai”, e é frequentemente descrito como “o pai da nação”.

Tempo

Multimédia