Reportagem

Mutango III toma posse no Kuando-Kubango

Carlos Paulino | Calai

O governo da província do Kuando-Kubango trabalha no resgate dos valores culturais. O regresso aos hábitos e costumes que nos identificam como povo, com uma história secular, constitui uma das suas principais apostas.

A rainha Mutango III e o marido durante a cerimónia de investidura que reuniu membros da comunidade e autoridades governamentais
Fotografia: Nicolau Vasco | Calai

O governo da província do Kuando-Kubango trabalha no resgate dos valores culturais. O regresso aos hábitos e costumes que nos identificam como povo, com uma história secular, constitui uma das suas principais apostas.
Para fazer jus a este projecto, o governador da província, Eusébio de Brito Teixeira, empossou, na semana passada, no município do Calai, a rainha do subgrupo étnico sambius, Evalina Candjimi, de 62 anos, que abandonou o trono durante o conflito armado e se refugiou na Namíbia, na localidade do Rundu, tornando-se na 3ª mulher a ser investida neste importante cargo do poder tradicional.
O reinado dos sambius tem sede na localidade de Mangarara, a 37 quilómetros da sede municipal do Calai, onde o governador inaugurou, durante a cerimónia de investidura da soberana, uma casa do tipo T-5 que lhe está destinada e lhe entregou uma viatura todo-o-terreno para lhe facilitar as deslocações no contacto com a sua comunidade.
O reino dos sambius é um dos mais populosos do Sul do Kuando-Kubango. O seu espaço territorial se estende entre os municípios do Calai e a comuna do Mucusso (Dirico). Entre as muitas limitações, o poder só pode ser exercido por mulheres porque no passado sempre que era indicado um homem para ocupar o trono, este acabava por morrer dias antes da investidura.
Evalina Candjimi passa a ser chamada Mutango III, como mandam as regras da tradição local, e tem como tarefa primordial trabalhar na unificação dos membros da sua tribo, muitos dos quais, tal como ela, tiveram de abandonar as zonas de origem devido à guerra.
Durante a cerimónia de investidura, a rainha e o marido são untados, dos pés à cabeça, com uma poção preparada à base de gordura de hipopótamo, jibóia e porco do mato. A seguir é colocado em volta do pescoço da soberana um colar denominado “Mpandi”, que, segundo a tradição, tem como propósito afastar todos os males no seio das comunidades e simboliza o poder tradicional junto do Governo legalmente instituído.
Evalina Candjimi ou, agora, Mutango III vai administrar todas as comunidades da sua tribo, fixados nos municípios do Calai e Dirico, e com o apoio das autoridades governamentais trabalhar na união e no resgate dos valores morais, cívicos e culturais das populações destas circunscrições.

Origem dos sambius

O director provincial do Kuando-Kubango da Cultura, Luís Vissunjo, considerou o acto de posse da rainha dos sambius “uma acção muito nobre do governo local”, que visa, essencialmente, dignificar a cultura e as tradições angolanas, que viveu períodos de turbulência por causa da guerra.
Os sambius, disse, têm a origem no grupo étnico dos Románia, que habita quase toda a zona Sul da Zâmbia, e é o resultado de muitas fricções, registadas no passado, entre as tribos locais, que atravessaram o rio Kuando e se estabeleceram nas proximidades do Kubango, concretamente na localidade de Mangarara (Calai).
Luís Vissunjo afirmou que a Direcção Provincial da Cultura está a desenvolver um plano, a nível da província, que tem como objecto o levantamento dos sítios históricos e o estudo dos hábitos e costumes de outros subgrupos étnicos que se estabeleceram em toda a zona do Sudeste de Angola.
“Vamos continuar a investigar em todos os municípios e comunas da nossa região, no sentido de termos uma ideia clara sobre quantos grupos e subgrupos étnicos habitam o Kuando-Kubango, onde estão e o que fazem, para depois se estabelecer um legado jurídico com todos os pormenores sobre aquilo que são os nossos verdadeiros laços culturais e tradições”, frisou.

Casamento entre os sambius

Na comunidade dos sambius, o casamento só é permitido quando a menina pretendida atinge os 10 anos. O ritual começa com a família do pretendente a levar a menina consigo, passando a dividir com ela o mesmo tecto até que esta atinja o primeiro ciclo menstrual.
A partir desta data, os pais do rapaz comunicam à família da menina, acertam os pormenores da cerimónia do alambamento e do casamento. Depois de realizados, em curto espaço de tempo, o marido e a esposa mudam-se novamente para a casa dos pais da rapariga, onde passam a viver durante dois anos, com o propósito de ele ser avaliado pelos sogros, se é um bom trabalhador ou não, realizando trabalhos no campo, de pesca, corte de lenha e caça.
Terminado o teste, se for aprovado pelos pais da menina, o homem é finalmente autorizado a levar a esposa para outro lugar, construir a sua casa e gerar a família longe dos olhares dos sogros.

Novos reinados

Eusébio de Brito Teixeira disse que a posse da nova rainha surge em obediência à Constituição, que reconhece o poder tradicional como uma manifestação da autonomia do poder local.
Acções de género, a par do realojamento das populações em curso na região, vão continuar nos outros municípios, a exemplo do Rivungo, onde nos próximos tempos vai ser empossada a rainha de Neriquinha.
“Perante este desafio que a realidade nos apresenta, tudo devemos fazer para que ninguém um dia se arrependa de ter regressado à sua área de origem, tendo ainda em vista que os administradores, a todos os níveis, hoje mais do que nunca, devem redobrar os esforços no sentido de conceder todo o apoio necessário às autoridades tradicionais e às suas respectivas comunidades, promovendo a cultura de unidade e solidariedade entre si”, sublinhou.
Para a concretização deste desiderato, disse, é necessário uma acção de mobilização, sensibilização, orientação e dinamização das comunidades para que as grandes tarefas de reconstrução e desenvolvimento da região primem sempre pela unidade e reconciliação nacional.
“O caminho que temos que percorrer para o desenvolvimento da nossa província ainda é longo, uma vez que é necessário velarmos, de forma concreta, coerente e responsável, pelos anseios do povo, visto que a população nesta região sofreu muito os efeitos da guerra, que destruiu profundamente todo tecido da vida nacional, neste momento em via de recuperação”, referiu.
Eusébio de Brito Teixeira solicitou à rainha maior cooperação entre o seu reinado e as administrações municipais, colaborando em tudo aquilo que for pedido para o bem-estar da população.
O governador agradeceu o apoio que as autoridades namibianas concederam a Evalina Candjimi ao longo do período de guerra, que fez com que milhares de angolanos abandonassem o país para as mais diversas paragens na procura de melhores condições de segurança e de vida.

Rainha pede  microcrédito

A rainha Evalina Candjimi agradeceu o gesto do governo da província e solicitou a concessão de microcrédito aos camponeses da sua comunidade para aquisição de imputes agrícolas, com vista ao aumento das áreas de produção e contribuir no programa do Executivo do combate à fome e à pobreza.
“A nossa localidade é potencialmente agrícola, mas o que nos falta são tractores, cabeças de gado, charruas de tracção animal, sementes e adubos para reforçarmos o trabalho dos nossos agricultores, para não dependermos somente do apoio do Governo”, disse.
Evalina Candjimi, ou Mutango III, mostrou-se preocupada com o facto de haver, na sua área de jurisdição, jovens que consomem bebidas alcoólicas em excesso em vez de participarem activamente no processo de reconstrução e desenvolvimento de Angola.  

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