Reportagem

Na rota do abacaxi: de camiões para a mesa ou revenda

Kindala Manuel

Na estrada de areia que dá  acesso à Praça do Catinton, no bairro Gamek, Distrito Urbano da Maianga, é  visível o movimento da venda de abacaxi feito maioritariamente por senhoras, que, por cima das carrinhas, despacham o produto a grosso e por unidade, para revendedores e outros interessados.

A maioria das vendedoras que comercializa diariamente o abacaxi em carros que estacionam nesta zona traz o negócio do Centro e Sul do país, com maior incidência para as províncias de Benguela e Cuanza-Sul.
Fotografia: Kindala Manuel | Edições Novembro

Num perímetro de quase 200 metros do arame que limita a unidade da FANA (Força Aérea Nacional) está perfilado um conjunto de 11 carrinhas de diferentes marcas, com destaque para os modelos da Mitsubishi, Fuso e Canter, a par dos Hyundai, uns recém-chegados outros a terminar a venda, numa disposição que vai dar à entrada da Praça do Catinton.
O negócio envolve produtores (camponeses fornecedores), grossistas (as senhoras que compram em varias províncias), retalhistas que vendem em praças e outros ainda que revendem o produto fatiado, deambulando pelas ruas de Luanda.
A maioria das vendedoras que comercializa diariamente o abacaxi em carros que estacionam nesta zona traz o negócio do Centro e Sul do país, com maior incidência para as províncias de Benguela e Cuanza-Sul.
Num escaldante sol das 11 horas da manhã, prenúncio do fim-de-semana que dá entrada à festa natalícia, o senhor Jorge Cacondo disputa com demais senhoras a escolha da melhor fruta. Porém, a dona do negócio não concorda com a bagunça.
"Se for assim, não compro mais. Se não me deixas escolher o produto da minha preferência, vou pegar noutro carro", desabafa, chateado, o senhor Jorge, depois de ter já escolhido abacaxi no valor de sete mil kwanzas, do carro da dona Teresa. Esta responde, do alto da carroçaria, em tom firme: "cliente que compra não escolhe muito; não aturo quem escolhe muito e aperta demais as minhas frutas".
Proprietário de um restaurante em Luanda, Jorge Cacondo faz compras de abacaxi semanais no perímetro do Catinton. Prefere comprar dos carros aí estacionados por considerar mais barato e pela possibilidade de escolher a melhor fruta. No seu restaurante, usa o abacaxi para produzir cocktails, em conjunto com outras frutas.
Por seu turno, dona Mariana está no negócio há mais de quatro anos. Compra dos carros e revende por unidades, "zungando" com um carro de mão pelas ruas de Luanda. Depois de o senhor Jorge sair, coube a vez a ela e a algumas amigas de escolher pacientemente, desarrumando a montra da dona Teresa, ao ponto de algumas frutas caírem da carrinha para o chão, "mexendo" novamente com a vendedora.
 "Estão a desfazer demais as montras.  Se não querem comprar, vão para outro carro. Tenho família para sustentar; não me estraguem o negócio”, reclama, furiosa, dona Teresa. Volta e meia abre um monte de palha, onde guarda o abacaxi ainda não exposto na montra, a fim de aumentar a oferta e assim satisfazer o desejo dos clientes.
Entretanto, o seu discurso não deixou de merecer resposta. "É sempre assim, tem mania de rabugenta”, reagiu dona Mariana, que, rapidamente, subiu de tom, para acrescentar: “pensa que só você é que sofre e tem família!? Rodeamos Luanda, debaixo do sol, para vender o negócio, porque também precisamos de sustentar os nossos filhos. Ouviu" ?
Este último desabafo da compradora repôs a ordem no lugar. Dona Teresa vende numa carrinha Hyundai, que transporta mais de três mil cabeças de abacaxi. Natural do Bocoio, Benguela, disse à nossa reportagem que o negócio que faz é de risco e de muito sacrifício.
A jovem Ana Chimuma, natural de Benguela, disse que, por norma, ela e suas companheiras recolhem a fruta das fazendas situadas em Bocoio, Monte Belo e outras,  da mesma região, até encherem as carrinhas. O frete de uma carrinha Mitsubishi Canter varia entre 140 a 150.000 kwanzas. Já a viatura da mesma marca, modelo Fuso, por ter a carroçaria mais longa e com autonomia para carregar mais de 4.000 cabeças de abacaxi, é alugada ao preço de 170 mil kwanzas, para o percurso de Benguela a Luanda.
As vendedoras não quiseram dizer que margem de lucro têm. "Este é um negócio que não tem muito ganho. É apenas para garantir a panela em casa", explica a jovem Ana Chimuma, conhecida por Chinha, mãe de dois filhos. De acordo com a nossa interlocutora, que falava à nossa reportagem enquanto atendia por cima da carrinha,  nos dias em que não tem havido muitas viaturas a comercializar, todo produto que habitualmente traz acaba em menos de três dias de vendas. Os preços não variam entre os carros. Três abacaxis do tamanho médio são vendidos a 500 kwanzas. Quem compra em grandes quantidades ganha uma cabeça. O abacaxi acima do tamanho médio é vendido a 200 ou 250 kwanzas, enquanto o menor vai a 100 kwanzas.
Entre os compradores, surgiu de forma inusitada o jovem João Massati, que comprou apenas um abacaxi ao preço de 100 kwanzas, com finalidade de degustar com a namorada. João disse que faz isso todas as sextas- feiras para partilhar em mo-mentos especiais com a parceira.

Retalhistas “peregrinam” por Luanda

Encostada entre as rodas de uma das carrinhas, dona Fernanda Domingos Cambanga descascava o terceiro abacaxi, para em seguida cortá-lo em quatro metades. Ela faz parte do grupo de vendedoras que compra a fruta dos carros e a revende em fatias, numa marmita, durante longas peregrinações pelos vários pontos de Luanda, com maior destaque no centro da cidade. Compra três unidades  de abacaxi a 500 kwanzas e vende um quarto da fatia a 50, alcançam o lucro de 100 kwanzas por cabeça.
Para rentabilizar o negócio, dona Fernanda disse que o grupo de oito senhoras, no qual está integrada, faz "quixiquilas" semanais. Cada uma entrega aos sábados o valor de 2.500 kwanzas, perfazendo 20 mil, para uma beneficiária, em sistema rotativo.
Dona Margarida compra abacaxi no mercado do Catinton e revende transportando num carrinho de mão por vários pontos de Luanda. Compra habitualmente cinco cabeças do tamanho acima do médio, a 1000 kwanzas, e revende-os a 350 ou 400 kwanzas cada. Ao cabo de um ano a comercializar o abacaxi pela cidade, refere como constrangimentos as perseguições diárias dos fiscais.
“Além do produto, também têm levado os carrinhos, acção que dificulta a continuidade do negócio. A situação não está fácil. Temos o “Resgate” e os fiscais atrás de nós. O marido perdeu emprego. O lápis, o caderno para as crianças e a comida para casa saem daqui deste negócio. O que fazer?”, interroga-se a senhora.
José  Francisco, 36 anos, motorista de uma carrinha, transporta o negócio de abacaxi há três anos e justifica o preço que cobra com a distância e o mau estado da Estrada Nacional 100, que liga Benguela a Luanda. Natural de Benguela e pai de quatro filhos, explica que, devido aos inúmeros buracos que a via apresenta, a maior parte dos veículos que faz o transporte de mercadoria neste percurso tem constantes avarias nas suspensões e danos em pneus e rolamentos. Por ser uma das principais vias de comunicação e de escoamento de produtos do país, pede às autoridades de direito uma intervenção com brevidade.
Além do estado da via, que tira o sossego de quem sustenta a família carregando mercadorias pelas estradas que cruzam o país, Matias Domba, 32 anos, reclama do excesso de controlos da Polícia nesta estrada. O motorista conta que de Benguela a Luanda existem mais de 12 controlos. Da Canjala ao Sumbe existem mais de cinco e os restantes do Cabo Ledo a Luanda.
“Esta situação tira-nos o sossego mano. É um negócio de risco, no qual temos tido muitas despesas para o conserto das avarias, por conta do mau estado da via. O excesso de contróis tem feito muitos colegas desistirem de transitar nesta rota”, revela Matias, acrescentando que, para continuarem no negócio, alguns circulam de madrugada.

Abacaxi no Sul do país


Após a plantação, o florescimento da planta do abacaxi ocorre durante 18 meses. Neste ciclo, são necessários aproximadamente três meses para os frutos atingirem a fase de colheita, com o pico entre os meses de Agosto, Setembro, Outubro e Novembro, considerada época de melhores resultados. O Bocoio é considerado o principal produtor de abacaxi em Angola, com 359.68 toneladas/ano, que abastecem o mercado nacional. Quanto a destino, Luanda tem sido a província onde é escoada a maior produção proveniente do Sul do país.

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