Reportagem

''National Geographic'' anuncia importantes descobertas

Carlos Paulino | Cuito Cuanavale

A expedição da National Geographic, que há dois meses realiza um trabalho de pesquisa nos rios Cuito e Cubango, conseguiu identificar mais de 450 novas espécies de aves, plantas, peixes e répteis.

Equipa da organização mundial está impressionada com a grande variedade de espécies
Fotografia: Nicolau Vasco | Cuito Cuanavale

Munidos de equipamentos sofisticados, os 45 membros da expedição, entre cientistas, ambientalistas, professores e estudantes universitários da África do Sul, navegadores, operadores de câmara, fotógrafos e pessoal de apoio técnico, começaram o trabalho na nascente do rio Cuito e, percorridos 435 quilómetros, até à vila de Cuito Cuanavale, fizeram importantes descobertas.
Todos os dias, das 6h00 às 17h00, a equipa permanece na água a bordo de canoas. Amostras de ADN recolhidas dos espécimes encontrados são enviadas, em curto espaço de tempo, para laboratórios da África do Sul para autenticação dos resultados.
O chefe da expedição da National Geographic, Steve Boyes, disse à reportagem do Jornal de Angola que, neste momento, a equipa trabalha  65 quilómetros a sul de Cuito Cuanavale, em direcção à confluência com o rio Cubango, numa viagem que leva até ao Delta de Okavango, no Botswana, última etapa da expedição.
Os estudos científicos envolvem aves, insectos, sapos, cobras, peixes, lagartos e plantas. Das mais de 500 plantas pesquisadas, 375 são de tipos diferentes. Também foi possível encontrar no rio Cuíto o bagre mais pequeno do continente africano, que habita em locais muito profundos.
Steve Boyes sublinhou que a actual lista oficial dos répteis de Angola inclui 125 espécies, mas até ao final da expedição, previsto para daqui a cerca de um mês, o número pode aumentar para, pelo menos, 450, tendo em conta a rica biodiversidade dos rios Cuito e Cubango.
“Estamos fascinados com a variedade de novas espécies que estão a ser encontradas ao longo do rio Cuito e cuja existência era impensável até agora”, disse o  da expedição da National Geographic, acrescentando que a equipa da National Geographic vive  uma  experiência que jamais vai  esquecer.
O biólogo destacou que, apesar das dificuldades enfrentadas, sobretudo devido às baixas temperaturas e aos riscos de ataques de hipopótamos e  crocodilos, é grande a ansiedade pela descoberta de novas espécies, que vão ser alvo de um profundo estudo científico.
O chefe da expedição da National Geographic salientou a importância da presença de sapadores da operadora de desminagem Hallo Trust para o êxito da expedição, que vai produzir um relatório oficial das espécies animais e florestais identificadas ao longo dos rios Cuito e Cubango, a ser entregue ao Ministério do Ambiente de Angola. Um filme e um livro sobre a biodiversidade da região vão ser produzidos pela equipa da National Geographic.
 
Protecção das espécies

O chefe da expedição da National Geographic disse à reportagem do Jornal de Angola que os rios Cuito e Cubango apresentam águas cristalinas, sem vestígios de contaminação, situação que deve ser preservada pelas autoridades angolanas, de modo a manter a riqueza existente em termos de biodiversidade. “A província do Cuando Cubango tem uma biodiversidade invejável, com inúmeras espécies de animais e plantas, que devem ser mostrados ao mundo”, além de merecerem “uma profunda investigação e estudos científicos por parte de cientistas e estudantes universitários”, referiu o chefe da expedição da National Geographic,Steve Boyes. O pesquisador lamentou o facto de se registar ainda um número considerável de queimadas ao longo das margens dos rios, com reflexos negativos na fauna e flora locais e a consequente poluição da água. “Temos uma lista enorme de novas espécies que até agora os cientistas desconheciam e que devem ser urgentemente descritas e preservadas, antes de estarem em extinção”, defendeu Steve Boyes, que informou que a National Geographic já realizou estudos científicos do género na Namíbia e no Botswana, sobretudo no Delta do Okavango, que tem uma área protegida de 18 mil quilómetros quadrados.

Promoção do ecoturismo

A ministra do Ambiente, Maria de Fátima Jardim, disse, por altura da assinatura do memorando de entendimento entre o seu Ministério e a National Geographic, a 17 de ­Junho passado, que o acordo constitui uma mola impulsionadora para a promoção do ecoturismo nos rios Cuito e Cubango, no âmbito do Projecto Transfronteiriço de Conservação Ambiental Okavango-Zambeze (KAZA), que para além do país, integra o Botswana, Namíbia, Zâmbia e Zimbabwe.
A assinatura do memorando, no município de Cuito Cuanavale, foi testemunhada pelo governador provincial, Higino Carneiro. O acordo tem a duração de três meses. Os trabalhos de investigação abrangem uma área de cerca de 900 quilómetros quadrados, começando pela nascente do rio Cuito, na província do Bié, até à zona  em que o rio Cubango faz fronteira com  a Namíbia.
Fátima Jardim disse que devem ser feitos todos os esforços para  este projecto regional servir de exemplo para o mundo.  A ministra solicitou mais apoio das instituições internacionais para  o Projecto Okavango-Zambeze se tornar realidade, em particular em Angola. 
“O Executivo angolano está de portas abertas para cooperar com instituições internacionais em projectos ou programas que visem melhorar o conhecimento e a preservação da rica biodiversidade do país.”
A expedição aos rios Cuito e Cubango  continua até se concretizarem os objectivos preconizados, que se consubstanciam no estudo das áreas de conservação, de modo a que sejam protegidas contra qualquer acto negativo provocado pelo homem, garantiu Fátima Jardim.

Estudos científicos

O director nacional da Biodiversidade, Joaquim Manuel, disse que a expedição vai produzir dados científicos a ser usados em futuros estudos e na elaboração de trabalhos de fim de curso pelos estudantes das Universidades de Cuito Cuanavale e Agostinho Neto.
O projecto com a National Geographic permite identificar zonas adequadas para o desenvolvimento do ecoturismo e o memorando  estende-se por dois anos, no  fim dos quais é renovado, explicou Joaquim Manuel.
“Os níveis de aproveitamento dos recursos aquáticos em Angola estão muito aquém dos níveis dos demais Estados integrantes do projecto Okavango-Zambeze, com realce para a Namíbia e Botswana.”
O projecto é fiscalizado por uma comissão coordenada pela ministra do Ambiente e integra a Direcção Nacional da Biodiversidade, o Pólo de Desenvolvimento Turístico do Dirico, as direcções provinciais do Ambiente do Bié, Moxico e Cuando Cubango, a reitoria da Universidade de Cuito Cuanavale e a Associação de Ecologistas e Biólogos de Angola.

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