Reportagem

Negligência agrava a tuberculose

Carlos Paulino | Menongue

O Cubango Cubango registou no ano passado 50 mortes por tuberculose dos 804 casos atendidos pelos serviços de saúde da província. O director do Hospital Sanatório, Alberto Funvo, disse ao Jornal de Angola que a situação é grave, devido à negligência de pacientes e familiares.

Autoridades sanitárias pedem à população que procure as unidades médicas ao mínimo sinal de doença a fim de receberem assistência
Fotografia: Nicolau Vasco|edições novembro

Muitos familiares levam os pacientes àquela unidade só depois de recorrerem ao tratamento tradicional e quando o estado clínico já é demasiado grave, pelo que se continuam a verificar muitas mortes, disse o médico.
Os óbitos ocorrem, sobretudo, com pacientes que interrompem o tratamento e voltam a procurar assistência apenas quando ocorre um agravamento do estado de saúde. Em Janeiro deste ano, registaram-se 34 casos de tuberculose, com seis mortes. Em 2015, o Hospital Sanatório registou 869 casos, que resultaram em 52 óbitos.
“Esta é a principal preocupação que ainda enfrentamos na província do Cuando Cubango, porque muitas pessoas, quando estão doentes, recorrem primeiro ao tratamento tradicional e só procuram uma unidade sanitária quando o quadro clínico do seu ente querido se agrava”, lamentou Alberto Funvo.
As autoridades sanitárias da província procuram sensibilizar a população, sobretudo no meio rural, para que procurem as unidades sanitárias ao mínimo sinal de doença, para receberem uma assistência médica e medicamentosa apropriada, disse o responsável.
O director do Hospital Sanatório, Alberto Funvo, revelou que, devido ao abandono do tratamento, apenas 58 pacientes foram declarados curados em 2016, menos que no ano anterior, em que 82 pessoas ficaram livres da enfermidade.

Falta de espaço

Além de estruturas degradadas, o Hospital Sanatório só pode internar 20 pacientes,  afirmou Alberto Funvo. Dos cerca de 30 tuberculosos atendidos por dia naquela unidade, apenas um ou dois podem ficar internados. Os demais regressam casa e fazem tratamento ambulatório.
Neste momento, o Hospital Sanatório presta tratamento em regime ambulatório a 711 doentes, dos quais 468 apresentam um quadro clínico preocupante e 243 estão em situação estável. Estes pacientes recebem a cada 15 dias medicamentos para tomar em casa.
A tuberculose pulmonar é a mais frequente nesta região do Sudeste de Angola e afecta, sobretudo, pessoas entre os 15 e os 45 anos. As regiões mais atingidas são Menongue e Cuito Cuanavale. Alberto Funvo referiu que a cura da tuberculose depende muito do próprio paciente, mas constata que muitos doentes em regime de tratamento ambulatório falham no cumprimento da medicação e acabam por voltar ao hospital em situação complicada.
De momento, o hospital tem medicamentos suficientes para atender as pessoas que procurarem os seus serviços. Está garantida alimentação para três refeições diárias aos pacientes internados, com destaque para leite e derivados, sopa, legumes, arroz e peixe, entre outros produtos ricos em proteínas.

Casos de lepra

Além da tuberculose, o Hospital Sanatório de Menongue tem sob sua responsabilidade 75 doentes com lepra, visto que a província do Cuando Cubango não dispõe de leprosaria. Todos os pacientes diagnosticados com esta doença recebem tratamento em regime ambulatório.
A lepra é uma infecção registada, sobretudo, em cidadãos a viver em condições precárias, tanto em termos de recursos, quanto de higiene pessoal e do meio em que residem. Por norma, o contágio acontece em ambiente familiar e com amigos. “É preciso que as pessoas ganhem o hábito de tomar banho todos os dias e vestirem ou cobrirem o corpo com roupas limpas, para evitar doenças infecciosas”, frisou Alberto Funvo. 
A unidade hospital é servida por dois médicos, um angolano e um coreano, e 28 enfermeiros, mas precisa de, pelo menos, mais dois médicos e 10 enfermeiros.

Novo hospital

A construção do novo Hospital Sanatório de Menongue está parada desde 2015 por falta de recursos financeiros. A sua conclusão é crucial, defendeu Alberto Funvo.
O projecto prevê uma infra-estrutura capaz de internar cerca de 100 doentes. “Por falta de espaço nas actuais instalações do Hospital Sanatório, improvisadas para albergar este serviço, muitos doentes diagnosticados com tuberculose são obrigados a fazer tratamento ambulatório, situação que contribui para que alguns abandonem a medicação”, disse.
Com a expectativa de entrada em funcionamento da nova unidade hospital, no bairro Kwenha, arredores da cidade de Menongue, os doentes passam a ter um atendimento de melhor qualidade.
Alberto Funvo afirmou que a situação dos doentes em tratamento ambulatório agrava-se nalguns casos pelo facto de viverem em condições de extrema pobreza.

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