Reportagem

No futebol todos falham até os árbitros

Alexa Sonhi|

No fim da partida de futebol entre as equipas do Benfica de Luanda e do Petro, o avançado Paizinho marcou um golo que valeu a vitória do seu clube. A equipa de arbitragem foi pressionada mas de nada valeu. A lei é dura mas palavra de árbitro não volta atrás. Venceu o Benfica. Parabéns aos vencedores e honra aos vencidos. Deviam ser assim, mas não foi. Os “juízes” foram julgados pelos especialistas que ditam opiniões na comunicação social e para já estão suspensos.

Presidente do Conselho de Arbitragem Muluta Prata pede aos juizes um comportamento digno e que sejam justos na medida do possível durante o tempo do jogo e punir os prevaricadores
Fotografia: José Cola

A questão da arbitragem continua a causar polémica no mundo do futebol angolano, com mil problemas para resolver. Como não encontram as soluções adequadas, fazem dos árbitros, bodes expiatórios. Há vozes mais exaltadas que falam mesmo em corrupção.
 Mas só aparecem quando os seus interesses são lesados. Se os erros dos árbitros forem a favor das suas equipas, dizem que está tudo bem em termos de arbitragem. Dionísio de Almeida, antigo árbitro internacional, agora comentador de arbitragem da Rádio Cinco, falou sobre os homens do apito. Disse que Angola está bem encaminhada em termos de árbitros do quadro da FIFA.
O presidente do Conselho Central de Árbitros da Federação Angolana de Futebol (CCAFAF), Muluta Prata, garante que o comportamento da arbitragem nacional, durante os jogos, é igual ao dos seus colegas em qualquer parte do mundo.
Muluta Prata apenas exige que os árbitros, enquanto estiverem em campo, tenham um comportamento digno e sejam justos na medida do possível. É isto que lhes dá o gabarito para serem classificados como bons. Na actividade de arbitragem nem tudo tem sido um “mar de rosas”, diz Muluta Prata: “porque durante os jogos podem existir falhas, tendo em conta que numa partida de futebol estão envolvidos dois intervenientes. Quando o árbitro falha pode prejudicar uma ou outra equipa”. E, isto, referiu, “acontece até nas principais ligas do mundo, porque errar é humano”.

O jogo da discórdia

Em relação à partida de futebol Benfica-Petro de Luanda, Muluta Prata admitiu que houve uma “falha” do árbitro assistente, por não ter assinalado o fora do jogo. “Depois de analisar detalhadamente as imagens gravadas, constatamos que naquele lance que deu o golo, o avançado do Benfica estava adiantado”. 
O problema é que o árbitro assistente, durante o jogo, não tem imagens gravadas, não tem câmaras, nem pode repetir as imagens em câmara lenta. Está no campo para tomar decisões “em tempo real”.
Outro problema está na “pobreza” das transmissões desportivas da TPA. Poucas câmaras, poucos meios técnicos e realizações que falham mais do que os árbitros, não dão garantias a ninguém. As imagens da TPA são boas para divertimento, nunca para fazer um juízo de valor do trabalho dos árbitros.
Quanto colocarem nos estádios o número suficiente de câmaras e usarem dispositivos técnicos que mostrem se um jogador está ou não adiantado aos defesas contrários, então as imagens da TPA podem ter alguma credibilidade. Só nessa altura podem servir para julgar o trabalho dos árbitros. Mas em nenhum caso servem para julgar ou absolver.

Vitória e derrota


Muluta Prata explica que é preciso “dar o benefício da dúvida”, porque o assistente ou o árbitro podem estar mal posicionados e por isso não visualizam se o jogador está fora de jogo. “Por ser uma responsabilidade do árbitro assistente, este é que deve arcar com as consequências, porque de um lado está uma equipa a festejar a vitória e no outro está a outra equipa a pedir justiça”, realçou.
A equipa de arbitragem do jogo Benfica-Petro foi ouvida na segunda-feira pelo Conselho Central de Árbitros da Federação Angolana de Futebol e até terminar o inquérito os três juízes estão suspensos. Se a moda pega, o Girabola fecha por falta de comparência de jogadores, treinadores e dirigentes desportivos. Os jogadores falham golos, os defesas consentem golos, os treinadores erram nas tácticas, os dirigentes erram nas contratações. Se forem suspensos, o futebol acaba.
Muluta Prata recorda que “nenhum árbitro que almeja atingir a excelência, fazer parte dos quadros da FIFA, entra em campo e para prejudicar a equipa A ou B, sabendo que esta acção premeditada o pode privar de apitar jogos e até pode baixar de categoria por falta de pontuação”. Muluta Prata esclarece que “a sanção deve ser sempre dada em função da dimensão do erro cometido. Se for uma falha tolerável a pena é menos grave, mas se for uma sanção premeditada a sanção deve ser mais grave”.
Questionado sobre a repetição do jogo Benfica-Petro, Muluta Prata recusou essa possibilidade porque “apenas foi cometido um erro de facto e não de Direito ou técnico. Não assinalar um fora do jogo ou um penalti é um erro comum que não pode exigir a repetição do jogo”.

Mulheres na arbitragem


Apesar de termos muitos homens na arbitragem, as mulheres também já estão a dar o ar da sua graça nesta profissão que em muitos países apenas é exercida por “machos”. Hoje, nos estádios angolanos, já é comum ver o rosto de Maximina Bernardo, árbitra do quadro da FIFA, e outras que desempenham o papel de juízes assistentes internacionais. 
O responsável dos árbitros em Angola referiu que, Maximina Bernardo tem sido um exemplo a seguir pelas novas gerações, porque “neste momento ela faz parte da elite da arbitragem na CAF para os jogos femininos”.
O país tem 800 árbitros que estão repartidos em diversas categorias e dirigem os jogos nas respectivas províncias. Deste número, 60 fazem parte do quadro de acesso, que são os assistentes nacionais e de segunda: “temos o quadro de primeira categoria nacional composto por 21 árbitros. Estes é que dirigem os jogos do Girabola”.

Despesas dos árbitros

Os custos com as despesas dos árbitros têm cenários diferentes. Os jogos organizados pela FIFA são custeados pelo órgão reitor mundial, com o pagamento do bilhete de passagem, hospedagem e outras despesas feitas ao seu serviço.
Nas partidas organizadas pela Confederação Africana de Futebol, os custos são partilhados com o clube visitado, à semelhança do modelo que se pratica em Angola. Mas Muluta Prata esclarece que “está a ser ensaiado um novo modelo para tentarmos inverter este quadro”.

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