Novas locomotivas duplicam operações

André dos Anjos | Sampaio Júnior | Benguela
11 de Janeiro, 2017

Fotografia: Sampaio Junior | Edições Novembro

O Caminho-de-Ferro de Benguela (CFB) entra para a história como a primeira companhia ferroviária angolana a aceder àquela que já começa a ser considerada pela comunidade ferroviária nacional como a nova geração de locomotivas do país, as GE-C30-ACi, da gigante norte-americana General Electric.

 

O processo de compra dessas máquinas entra, também ele, para a história como um dos maiores contratos da indústria ferroviária mundial e uma das maiores aquisições de locomotivas feitas de uma só vez. São no total 100 unidades que Angola solicitou à General Electric para modernizar a frota de locomotivas das três companhias nacionais, detidas pelo Estado.
O contrato prevê a entrega faseada das máquinas. As primeiras quinze já chegaram ao país e foram repartidas pelas três companhias, mas é o CFB que recebeu primeiro e ficou com oito unidades, mais de metade do lote, e já projecta as suas operações com base nas novas locomotivas.
Para já, enquanto as suas congéneres, a de Luanda, para a qual estão reservadas duas unidades, e a de Moçâmedes, cinco, aguardam pela entrega formal das novas locomotivas, o Caminho-de-Ferro de Benguela já promete duplicar o número de viagens semanais, do Lobito ao Luau, passando de duas para quatro, e dobrar o número de passageiros e a quantidade de carga transportados. 
É com satisfação incontida que o presidente do Conselho de Administração do CFB, José Carlos Gomes, confirma ao Jornal de Angola que as oito locomotivas destinadas à companhia já repousam no Lobito. “O Executivo investiu forte numa caminhada inovadora, para satisfazer o melhor possível as necessidades das populações, que há muito clamam pelo incremento do número de viagens entre Lobito (Benguela) e Luau (Moxico)”, afirma.
A modernização da frota de locomotivas do país é uma iniciativa presidencial, que, a despeito da ­crise financeira que o país atravessa, recomendou ao Ministério dos Transportes para persistir no negócio, orçado em centenas de milhares de dólares e suportado por uma linha de crédito do Canadá.
A iniciativa junta-se a outros investimentos públicos de vulto feitos no sector ferroviário, nos últimos anos, e que traduzem a importância estratégica que o Executivo atribui às empresas do sector no Plano Nacional de Desenvolvimento, de médio e longo prazo.
Importante instrumento no sistema de transportes que conformam o chamado Corredor do Lobito, o Caminho-de-Ferro de Benguela é, entre os três, o que maiores recursos públicos já absorveu, o que se explica pelo facto de ser o que maiores danos sofreu em consequência da guerra, mas sobretudo pela sua importância estratégica para o país.
O Corredor do Lobito é uma plataforma de transportes intermodal, que começa no Lobito, atravessa as províncias do Huambo, Bié e Moxico, até ao município do Luau, de onde o Caminho-de-Ferro de Benguela se liga à República Democrática do Congo, resultando daí a dimensão transfronteiriça do CFB.
Através da ligação à Zâmbia, que passa apenas pela criação de um ramal a partir do Moxico até à fronteira daquele país, é possível chegar à cidade da Beira, em Moçambique, a Dar es Salaam, na Tanzânia, junto ao Oceano Índico, o que confere ao Caminho-de-Ferro de Benguela uma dimensão transcontinental.
As ligações com a República Democrática do Congo e a Zâmbia, concluído que está o “trabalho de casa” que cabia a Angola, dependem agora dos dois países. Enquanto  não cumpre as suas missões transfronteiriça e transcontinental, o Caminho-de-Ferro de Benguela serve o país da melhor maneira, garantindo o transporte de pessoas e de mercadorias do litoral para o leste, passando pelo centro sul.

Nova etapa

Desde que o comboio do Caminho-de-Ferro de Benguela voltou a apitar no percurso que sai da cidade do Lobito, no litoral atlântico, até ao município do Luau, província do Moxico, extremo leste do país, passando pelo Huambo e pelo Bié, começou-se a verificar sinais de transformação no dia-a-dia da população que habita ao longo do seu “hinterland”, a começar pela circulação segura e barata das pessoas, passando pelo transporte de todo o tipo de mercadoria e material indispensável para a construção de infra-estruturas para o desenvolvimento das diferentes vilas e povoações atravessadas pelo ramal do CFB.
Numa só viagem, o comboio leva em média 1.900 passageiros e 520 toneladas de mercadorias. A companhia tem a sua sede no município do Lobito, onde foi construída uma moderna estação, infra-estrutura  inteiramente alinhada com um ambicioso programa de modernização e de reabilitação das infra-estruturas ferroviárias.
Trata-se de uma imponente obra, um autêntico postal da chamada “sala de visitas de Angola”, como também é chamada a cidade dos flamingos, e que foi pensada para dar o máximo de comodidade aos passageiros e prestar serviços de elevado padrão. À estação ferroviária do Lobito, somam-se outras 37 até à cidade do Huambo, a traduzir o gigantesco esforço de recuperação das infra-estruturas ao longo do traçado do Caminho-de-Ferro de Benguela.
Ao longo da linha do Caminho-de-Ferro de Benguela ainda existem importantes empreitadas por concluir, como a consolidação dos trabalhos da via, o acabamento do sistema integrado de comunicações, comando e controlo das circulações, incluindo testes em alguns troços. Prossegue, igualmente, o reforço das áreas de drenagem ao longo da linha. Tudo isso para garantir uma circulação mais segura do comboio.
Entre as estações sobressaem, ainda, as  da Catumbela e a do Negrão, autêntica placa giratória dos comboios para o planalto central e a cidade de Benguela. Do Negrão a Caimbambo, passa-se pela área do Guviriri, onde foi instalado um aparelho responsável pela medição das águas do rio Cubal, cujas enchentes provocaram, no passado, enormes prejuízos em vidas humanas, colheitas e gado.

Comércio

Com a circulação  do comboio, dezenas de camponeses viram chegar uma oportunidade para venderem os seus produtos. Ao longo da linha, em Caimbambo, Cubal, Ganda, Tchinjenje, Ukuma, Longonjo, Caála e outras, a chegada do comboio é sempre motivo de celebração para os camponeses, desejosos de vender tudo o que podem. Aliás, o comboio funciona, também, como um forte incentivo à produção rural, devido à sua acessibilidade e, sobretudo, à elevada capacidade de escoamento.
O desenvolvimento económico e social das diferentes povoações situadas no “hinterland” do CFB,  nas províncias de Benguela, Huambo, Bié e Moxico passa hoje, inquestionavelmente, pelo Caminho-de-Ferro de Benguela.
Pelas carruagens e vagões do Caminho-de-Ferro de Benguela circula bebidas, sobretudo cerveja, farinha de milho, sal, peixe seco, gás butano, combustíveis (gasolina e gasóleo), diverso material de construção, viaturas, sucatas, cimento, equipamentos agrícolas, roupa usada, calcário, mobiliário, colchões, material de telecomunicações, cimento e toda a parafernália essencial às pessoas e para a montagem e recuperação de infra-estruturas nas regiões atravessadas pelo comboio.
Em 2012, estatísticas apontam que viajaram pelo Caminho-de-Ferro de Benguela  23.968 pessoas, do Lobito ao Huambo, cifra que caiu para 11.324 no ano a seguir, registando uma ligeira subida em 2014 ao ficar em 18.775.  Em 2015, houve quase o dobro de passageiros nessa frequência, com um registo de 35.860 pessoas.
Em 2016, entre Janeiro e Setembro, o Caminho-de-Ferro de Benguela transportou 288.498 passageiros e 20.657 toneladas de mercadoria, entre produtos do campo, bebidas, cimento e gás de cozinha.
Há sinais de grande vitalidade em todo o traçado do Caminho-de-Ferro de Benguela. O comboio devolveu a esperança de uma vida melhor à população, pois havia  muitos produtos a estragarem-se nos campos agrícolas.
Hoje, muita gente vende milho, feijão, batata-doce, legumes e outros produtos nos mercados de Benguela, Lobito e noutros centros urbanos um pouco por todo o país, graças ao comboio.
No Huambo, está em construção um centro para a formação dos técnicos do CFB e uma linha para formação prática na condução de veículos e outras infra-estruturas da via. Na província do  Bié, uma potência agrícola no centro de Angola, a população vê reavivadas as esperanças quanto ao escoamento da sua produção, a partir das estações do Kunhinga, Cunje, Catabola, Chipeta, Camacupa, Cuemba e de outras localidades do Moxico, onde a linha férrea termina na estação do Luau, junto à fronteira com a RDC e da Zâmbia. Aí o impacto do comboio é absolutamente notável. 
Entre 2005 e 2015, o programa de reabilitação do CFB representou um investimento de 1.900 milhões de dólares americanos de um total de 3.500 milhões de dólares destinados à reparação da rede dos caminhos-de-ferro de Angola.
Nestes números, estão incluídas outras infra-estruturas, umas reabilitadas e outras erguidas de raiz ao longo do traçado do Caminho-de-Ferro de Benguela em todo o seu corredor, desde o Atlântico ao Luau, que incluem estradas, aeroportos, portos, escolas e centros de saúde.
A reabilitação e a modernização dos ramais do CFB incluem a instalação de redes de fibra óptica e de equipamentos de sinalização e de segurança em toda a extensão das linhas, construção de pontes, pontões, apeadeiros, passagens de nível e valas de drenagem, além de modernas estações para comodidade dos passageiros, o que explica as somas astronómicas da empreitada.

Percurso histórico

O Caminho-de-Ferro de Benguela começou a ser construído em 1899, com a finalidade de dar acesso ao interior e facilitar o transporte dos recursos minerais extraídos da República Democrática do Congo. A ligação ao Luau aconteceu em 1929. Desde muito cedo, a linha mostrou ser um sucesso, revelando-se muito rentável, por constituir o caminho mais curto para transportar as riquezas mineiras do Sul do Congo para a Europa.
Em 1931, o Porto do Lobito recebeu por via férrea o primeiro carregamento de cobre proveniente do Catanga. Mas a guerra que se seguiu à Independência de Angola obrigou à suspensão do funcionamento do CFB, dado que boa parte da sua infra-estrutura acabou por ser destruída ou danificada, inviabilizando o trânsito.
Em 1987, numa fase de abrandamento, foi acordado um plano de reconstrução entre as autoridades de Angola e do Congo Democrático, que acabou por não ser levado a cabo por causa do reacender da guerra. Com o advento da paz, em 1991, Angola solicitou um estudo para a sua reconstrução com a ajuda do Banco Mundial, com vista a retomar o tráfego ferroviário e a potenciar a capacidade do Porto do Lobito.
Durante o breve período de paz, a ferrovia transportou material em quantidade reduzida, mas conseguiu voltar a funcionar, ainda que em distâncias médias.
O tráfego era então assegurado por oito locomotivas da General Electric, modelo U20C, 2 Paxman 8RPHXL, seis de dois motores acoplados Cummins NT855L4, com um total de 22 locomotivas a diesel e mais 19 dedicadas a serviços menos importantes.
Em 1995, contava com 53 locomotivas (das quais 24 foram adquiridas em segunda mão à África do Sul), quatro vagões restaurantes, igual número com camas e 1.761 carruagens.
Em 2005, foram encetadas conversações entre os governos de Angola e da Zâmbia para retomar o funcionamento. Em 2009, foi concluída a remoção dos engenhos explosivos nesta linha, num esforço conjunto das Forças Armadas Angolanas, Instituto Nacional de Desminagem, Gabinete de Reconstrução Nacional e Polícia de Guarda Fronteira. Desde então, o Caminho-de-Ferro de Benguela reescreve a sua própria história.

capa do dia

Get Adobe Flash player




ARTIGOS

MULTIMÉDIA