Reportagem

Novo padrão de qualidade de vida nasce com a centralidade da Quilemba

André dos anjos |

Às já tradicionais referências da capital da província da Huíla, que vão do Cristo Rei à Senhora do Monte junta-se agora uma imponente cidade satélite com visível potencial para descongestionar o “velho casco urbano” e conter o avanço da “cintura de musseques” que ameaçava ofuscar a sua beleza arquitectónica.

 Nova urbanização alarga horizontes para a realização do sonho de casa própria
Fotografia: Arimateia Baptista |

Localizada 20 quilómetros a nordeste da cidade do Lubango, a centralidade da Quilemba é uma combinação de moradias isoladas e geminadas e edifícios de apartamentos de dois e três pisos, propositadamente aglomeradas numa só urbanização para acolher os mais variados estratos sociais.
Aqui, a modernidade e a simplicidade estão patentes em todas as moradias, que incluem uma suite, sala comum, casa de banho, cozinha e, no caso das residências isoladas e geminadas, um quintal.
O projecto começou a ser executado em 2012, numa área de 1.100 hectares, e volvidos quatro anos evoluiu de uma simples maqueta para uma autêntica cidade, com 7.512 moradias prontas a habitar e 488 em fase de conclusão.
A par das casas por acabar, os empreiteiros esmeram-se agora na finalização de equipamentos sociais como jardins-de-infância, escolas e áreas de lazer.
É nessa fase derradeira, preenchida, em grande medida, por pequenos detalhes, como a sinalização de ruas, entretanto, já revestidas de camada asfáltica, que o Jornal de Angola confirmou que a nova centralidade é aberta ao público, definitivamente, nos primeiros meses de 2017, num processo que, se sabe desde já, é conduzido pela Imogestin, empresa responsável pela gestão e comercialização das novas centralidades.
Enquanto a empreiteira chinesa que executa as obras se ocupa dos últimos detalhes, o Governo da província desdobra-se em contactos com o Ministério de Energia e Águas para garantir o abastecimento de energia e água à centralidade, já dotada de equipamentos necessários para o efeito.
Aliás, é voz corrente que um eventual atraso na abertura ao público da nova urbanização só pode ser associada à demora na instalação destes serviços, que, de acordo com cronograma do projecto, já deviam lá estar.
Ao que Jornal de Angola apurou, o atraso na instalação de energia e água junta-se a outros constrangimentos que concorreram para o alargamento do prazo inicialmente previsto para a construção da centralidade da Quilemba, de dois para pouco mais de quatro anos.
Como não podia deixar de ser, a crise financeira que se segui ao arranque do projecto interferiu no ritmo dos trabalhos, ao lado de outros factores como a resistência de alguns cidadãos em abrir mão dos terrenos que cultivavam ou habitavam no perímetro delineado para a nova urbanização.

Revisão de expectativas


À véspera do arranque do projecto, as autoridades gizaram um programa de realojamento das famílias que habitavam dentro do traçado do que viria a ser a nova urbanização. Nessa altura, foram contabilizados 413 agregados para os quais foi criada uma zona residencial, nos arredores da nova cidade, com igual número de casas. Mas há quem detinha parcelas agrícolas – e não são poucas pessoas – que se recusaram a ceder.
Em consequência disso, a nova urbanização, inicialmente prevista para acolher 66.000 habitantes num total de 11.000 residências, ficou reduzida a 8.000 moradias, com capacidade para 48.000 pessoas.
Desenvolvido em regime concepção-construção, o projecto contempla infra-estruturas internas como redes viária, eléctrica, iluminação púbica, água, esgotos, e drenagens de águas pluviais, para além de diversos equipamentos sociais, que “sobreviveram” ao redimensionamento da maqueta. Por aí se vê que, no essencial, a nova urbanização preserva os traços urbanísticos originais.
Entre a população é notória a curiosidade em conhecer a nova urbanização, que, como é da praxe em obras do género, está resguardada da curiosidade pública por vedações, que não permitem senão entrever um ou outro detalhe da obra. As imagens mais pormenorizadas que lhe chegam pela televisão só aguçam ainda mais o interesse.
Um prestigiado jornalista residente na cidade do Lubango, fala de “nosso Kilamba”, para se referir à urbanização da Quilema, numa clara analogia com a centralidade mais emblemática hoje da província de Luanda.
A Quilema é o maior projecto imobiliário da província da Huíla, depois da independência do país em 1975, mas não é primeira grande obra de engenharia a perfilar na senda da modernização do burgo. No quadro do CAN'2010, organizado por Angola, a cidade do Lubango foi uma das eleitas para abrigar a competição. Ganhou novas  infra-estruturas e viu modernizadas outras tantas.

Sinais de progresso

È na véspera do CAN, quando se assiste à inauguração do Aeroporto Internacional de Mukanka, que a cidade - escala obrigatória de quem sai de Luanda para Namíbia ou África do Sul - emite os primeiros sinais de que queria uma maior interacção com outras geografias e povos.
Trata-se de um imponente empreendimento dotado de equipamentos ultra-modernos para voos nocturnos e com capacidade para aviões de grande porte, como o Boeng 777 ou 747 e placa de estacionamento para aeronaves, por onde se esperava um tráfego anual de passageiros na ordem de 1.75 milhão.
O estádio da Tundavala, outro “monstro de betão”, também construído no âmbito do CAN 2010, não demorou a entrar para a galeria dos lugares emblemáticos da cidade, onde o Cristo Rei, a Fenda da Tundavala e a Senhora do Monte têm, seguramente, lugares cativos.
As duas infra-estruturas, o aeroporto construído numa área 350.000 metros quadrados e o estádio noutra, de 25. 807  metros quadrados, na zona Tchioco, deram lugar a uma terceira empreitada não menos importante, que consistiu no alargamento e modernização da estrada que liga a cidade aos dois destinos, separados um do outro por escasso quilómetros.
Por altura do CAN, aos investimentos públicos feitos na cidade, para além da construção de um novo aeroporto e um moderno estádio de futebol, juntaram-se os privados, com particular incidência para o sector hoteleiro e turístico, mas na sua maioria de efeitos efémeros.
Do estádio da Tundavala, onde, no CAN2010 desfilaram lendas do futebol mundial como Samuel Eto’o, por exemplo, já pouco ou nada se fala. Aliás, as últimas informações sobre o empreendimento, que custou aos cofres do Estado cerca de 70 milhões de dólares, dão conta do “desaparecimento misterioso” do gerador de energia eléctrica no estádio e da degradação acentuada da relva.
É neste fase em que os moradores que falaram à reportagem do Jornal de Angola, convergem na ideia segundo a qual em determinado momento a cidade “parou no tempo” e e em alguns aspectos  até  chega a dar alguns sinais de retrocesso, como no caso  do saneamento básico, que a nova centralidade surge como uma luz do fundo do túnel, uma esperança de que nem tudo está perdido.
Maria João, estudante de Economia a residir no Lubango há 20 anos, diz que a cidade, do ponto de vista de saneamento, não tem comparação com o que era há cinco anos.
“Se o senhor percorrer as ruas vai deparar-se, em algumas, com amontoados de lixo que remetem para outras realidades que não a nossa”, desabafa.
“O Lubango não está isento das dificuldades financeiras que afligem o país, mas está melhor do que muitas cidades”, defende um outro morador. “Se deixou de constar entre as mais limpas do país ainda não entrou para a galeria das mais sujas”, sublinha, gabando-se da sua terra natal.
Mas Clemente Gamboa, este mesmo que diz que o Lubango “ainda não entrou para a galeria das cidades mais sujas do país”, reconhece ser possível fazer mais em matéria de saneamento básico e manutenção de jardins, para uma imagem mais arejada da cidade. 
No essencial, a opinião comum é que o velho casco urbano da cidade do Lubango, caracterizado actualmente, por passeios esburacados, amontoados de lixo e edifícios descaracterizados, uns pelo tempo e outros por falta de manutenção, carece de uma intervenção, a vários níveis.
Recentemente, o governo da província interveio na reabilitação e asfaltagem de algumas  estradas secundárias, incluindo os troços que ligam o desvio do cemitério da Mitcha ao mercado do João da Almeida, do bairro Lucrécia ao Ferrovia e do Miradouro à Senhora do Monte.
E, ainda no âmbito dos programas de investimentos públicos, a cidade conheceu avanços significativos em matéria de fornecimento de energia e água. Em 2011, o governo da província pôs em marcha um programa de reabilitação e ampliação das redes de distribuição de energia e água, cujos resultados são hoje visíveis.

Percurso da cidade


Lubango foi elevado à categoria de cidade a 31 de Maio de 1923, quando o caminho-de-ferro cruzou, pela primeira vez o deserto, superou a serra da Chela e atingiu o planalto. Pouco depois, a cidade foi baptizada por Sá da Bandeira e alcunhada por  "Coimbra de Angola", devido ao desenvolvimento cultural que começou a apresentar desde muito cedo.
Durante muito tempo, Lubango só dividiu com Luanda o privilégio de albergar um liceu, que ministrava cursos até ao 7.º ano do tempo colonial, o que fez com que intelectuais e políticos como Costa Andrade, Viriato da Cruz, Lúcio Lara, Aires de Almeida Santos, Manuel Rui, António Neto, tivessem passado por lá, uns na condição de estudante e outros de funcionários. Cercada de raras belezas naturais, a cidade alberga monumentos e sítios que a distinguem do panorama turístico angolano. As Fendas da Tundavala, que proporcionam um espectáculo fascinante, quando avistadas da parte alta do Lubango, constituem um exemplo disso.
Mas em matéria de monumentos e sítios, Lubango tem muto mais do que se pode imaginar. A Fenda do Alto Bambi - Barragem das Neves Cristo Rei – localizada na Ponta do Lubango, de onde se pode ver a cidade em todo seu esplendor, é um detalhe à parte.
No rol de monumentos e sítios e para não mais mencionar os mais falados, como a Senhora do Monte, surge, ainda, o Antigo Palácio do Governo, construído em 1887, onde funciona hoje o Governo Provincial, e a Catedral da Sé, situada no centro do Lubango, cujas belezas arquitectónicas são de encher as vistas.
É à volta da preservação deste património histórico, cultural e turístico que a maior parte da população apela às autoridades para intervir onde for necessário, para garantir que a cidade continue a ser uma porta para o interior da província, cuja dinâmica de desenvolvimento depende, em certa medida, do município sede.
Concebida para pouco mais de 50 mil habitantes, Lubango suporta actualmente uma população à volta de 800 mil habitantes, de acordo com dados do  Censo de 2014, com todos reflexos negativos na  prestação de serviços básicos, sobretudo de saneamento básico.
Ao longo dos últimos 40 anos Angola sofreu um acentuado movimento populacional à procura de segurança e melhores condições de vida nas zonas urbanas, resultando em fenómenos de ocupação desordenada das áreas peri-urbanas das principais cidades, com destaque para Luanda, Lubango e Benguela.
Das ocupações desordenadas nas áreas peri-urbanas das principais cidades resultou um crescimento não planeado do parque habitacional informal, caracterizado pela carência generalizada das infra-estruturas urbanas e equipamentos sociais, com efeitos directos sobre a degradação dos níveis de salubridade e de qualidade de vida.
Dados do Censo indicam que 97,5 por cento da população da província da Huíla, uma das que mais deslocados receberam de outras províncias, nos últimos 40 anos, vive em habitações construídas à base de material inapropriado.
É para corrigir esta situação que o Executivo elaborou e colocou em marcha  o Programa Nacional de Urbanismo e Habitação, no âmbito do qual já foram construídas várias centralidades em diferentes províncias do país. Para o Lubango coube a da Quilemba.

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