Reportagem

Nzeto prepara exportação

Víctor Mayala | Nzeto

A Fazenda Girassol, situada na comuna da Musserra, município do Nzeto, província do Zaire, está apostada no cultivo de hortícolas, variedades de ervas aromáticas e curcubitáceos (abóbara, melancia, melão e outros), cuja produção, além de abastecer os supermercados, restaurantes e hotéis de Luanda, é exportada para a Europa, com maior incidência para Portugal.

Com um grande apoio tecnológico, a Fazenda Girassol pretende ser líder no mercado nacional, produzindo alimentos com altos padrões de qualidade
Fotografia: Garcia Mayatoko | Edições Novembro - Mbanza Kongo

Ocupando uma área de 87 hectares na margem directa do rio Loge, para quem sai de Luanda em direcção ao Nzeto, através da estrada nacional número 100, a Fazenda Girassol assume-se como uma verdadeira alavanca do sector agrícola privado da região, em particular, e do país no geral, ao dispor da mais alta tecnologia no domínio da mecanização.
A marca Girassol existe no país desde 2003, com o surgimento dos Pólos de Desenvolvimento Agrícola do Kikuxi (15 hectares) e Kifangondo (25 hectares). Na Fazenda da Musserra, que é o Pólo III da empresa, existente desde 2016, foram já cultivados 60 hectares, dos 87 que compreendem o empreendimento, onde estão a ser colhidos diversos produtos. Nos três pólos, a empresa tem atingido uma venda anual de cinco milhões de unidades de produtos diversos.
Todos os processos de produção envolvem máquinas, cujo funcionamento depen­de dos homens, que constituem a força de trabalho. O Pólo III emprega 308 trabalhadores, oito dos quais são expatriados.
Depois de colhidos, os produtos são lavados e embalados, postos em camiões e encaminhados para o centro frigorífico instalado no local, para conservação, antes de serem escoados para as superfícies comerciais de Luanda.
Vitorino Jerónimo Cameie, 33 anos de idade, é engenheiro agrónomo e presta serviços na Fazenda Girassol há três anos. Formado pela Faculdade de Ciências Agrárias do Huambo, responde pela área de plantação. Nessa condição, dirige uma equipa de dez  mulheres, que semeiam hortícolas. Aliás, cerca de 75 por cento da força de trabalho é constituída por mulheres. 
Depois de quatro anos de formação na Faculdade de Ciências Agrárias do Huambo, Vitorino Jerónimo Cameie utiliza os conhecimentos adquiridos na produção de alimentos para abastecer o mercado nacional, e não só. O que ganha com o trabalho permite-lhe sustentar a família, embora reconheça que “o dinheiro nunca é suficiente”.
Cesaltina Manuel, 23 anos, decidiu também abandonar a sua terra natal, Luanda, para se juntar a outras mulheres provenientes de diferentes pontos do país e que encontraram na Fazenda Girassol um emprego que garante a fonte de rendimento.  A jovem agricultora opera uma má­quina que semeia hortícolas. Apesar de ser uma máquina de alta tecnologia, diz que é de fácil manuseamento, o que permite plantar largas extensões de terra sem dificuldade. Está integrada há seis meses e diz gostar do que faz.
“Este projecto está a ajudar muitas pessoas que encontraram aqui o seu primeiro emprego”, disse por sua vez Beatriz Camana Nduva Nhime, 55 anos e mãe de cinco filhos. Tia Beatriz, como é carinhosamente tratada pelas demais companheiras de trabalho, não esconde a satisfação de fazer parte do ambicioso projecto, que vem dar resposta ao apelo da diversificação da economia nacional, fortemente dependente da indústria petrolífera. “Os produtos aqui cultivados são de boa qualidade. Queremos que surjam mais fazendas do género, para, em primeiro lugar, reduzirmos as importações e em segundo criar mais postos de trabalho, porque há muita gente ainda sem emprego”, disse.
Lourdes Gonçalves, 25 anos, é engenheira agrónoma, formada na Faculdade de Ciências Agrárias do Huambo. Ela coordena o grupo que trabalha com a máquina de colheita.
“Liderar um grupo de pessoas num processo como é o de colheita de produtos agrícolas, requer paciência e rigor. Mas o segredo reside em procurar conhecer os integrantes do grupo, para um melhor entrosamento”, disse Lourdes Gonçalves, antes de exprimir a sua satisfação.

 Alimentos de qualidade
Com um invejável aparato tecnológico, a Fazenda Girassol pretende ser líder no mercado nacional, produzindo alimentos em abundância e com padrões de qualidade internacionalmente recomendados, como referiu o sócio-gerente, João Amaral, quando fornecia explicações ao governador provincial do Zaire, Joanes André.
“Temos uma loja ‘on-line’ e fornecemos produtos às pessoas directamente, através de entregas ao domicílio”, realçou João Amaral, que de seguida apontou a perspectiva de atingir mil hectares de terra cultivada, com o intuito de manter o grande objectivo de exportação, além de contribuir para a redução dos níveis de importação.  “Um dos principais objectivos é tornar a fazenda a mais tecnológica do país, com as melhores máquinas que há no domínio da mecanização agrícola”, referiu o responsável, no momento em que dava explicações inerentes às distintas áreas do novo campo agrícola do Pólo III ao governador Joanes André. Durante a visita do governador, João Amaral era um homem visivelmente satisfeito e não se coibiu de elogiar a qualidade dos solos da região.
“Os solos são bons. Não precisamos de adicionar fertilizantes. Fizemos apenas a análise dos solos e de resíduos para aferir o tipo de substâncias neles existentes”, indicou, acrescentando que a fertilidade, aliada à abundância de água, são as razões da implantação da fazenda no local.
Apesar da abundância de água, fruto do vasto caudal do rio Loge, a fazenda possui três reservatórios com capacidade para 1.800 metros cúbicos de água, qualquer coisa como um milhão e oitocentos litros, que são distribuídos para os sistemas de irrigação gota a gota e por micro-aspersão.
No decurso da visita do governador provincial do Zaire, foi anunciada a construção da sede da empresa na vila piscatória do Nzeto e de uma loja de venda de produtos, cujas receitas re­sultantes vão ser depositadas localmente.

Apoio institucional
A Fazenda Girassol vai ter apoio institucional do Governo Provincial do Zaire, segundo afirmação do governador, Joanes André, que apelou a outros investidores, quer nacionais, quer estrangeiros, a apostarem no sector agrícola, pois a província “não é conhecida apenas por petróleo, mas também é rica em outros recursos naturais, como são os casos de solos aráveis e abundância de água”.  
“Muita gente conhece o Zaire só por petróleo, mas o Zaire tem muito mais do que petróleo. O Zaire tem tudo para ser um celeiro de produtos agrícola, porque tem muita água e solos aráveis. Tem cerca de 32 rios permanentes e 64 la­goas, também permanentes”. Joanes André referiu que na região a água pode ser encontrada numa profundidade de apenas 70 metros, o que às vezes não se verifica noutros territórios do país.
O governante falou também sobre a abertura de vias de comunicação, condição essencial para o escoamento da produção agrícola, estando já a região ligada à rede eléctrica nacional, através da barragem hidro-eléctrica de Cambambe e do ciclo combinado do Soyo.
“A energia eléctrica e a água são as bases fundamentais para o crescimento da agricultura”, sublinhou o governante, visivelmente satisfeito com os níveis de produção que viu na Fazenda Girassol.

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