Reportagem

O fantasma de Chernobyl, 33 anos depois

Miguel Marujo

Em finais de Abril de 1986, os céus da Europa cobriram-se de pequenas partículas poeirentas e radioactivas. Na central nuclear sueca de Forsmark, os trabalhadores notaram a acumulação dessas pequenas partículas nas suas roupas e lançaram o alerta para eventuais fugas no local - mas a fonte do mal estava a 1100 km, em Chernobyl, uma central nuclear na cidade de Pripyat, na Ucrânia, então uma república soviética.

Fotografia: DR

Hoje, 33 anos depois, Chernobyl é o que os ucranianos chamam de “uma zona morta”, mas é também uma excelente série de televisão (com uma banda sonora a condizer na qualidade), que relata aqueles dias que carregaram mais medo e terror na atmosfera de uma Europa rasgada a meio.
A série, uma produção da HBO, conta uma história conhecida: na noite de 25 para 26 de Abril de 1986, um teste de segurança correu mal e o reactor nuclear nº 4 explodiu - era 1.23 da manhã. É por aqui que começa a série, por aquela onda que se propaga, um incêndio que se instala e as pessoas ao longe que despertam nas suas casas e saem à rua: homens, mulheres e crianças a verem ao longe as tonalidades hipnóticas que se desenham vindas da central. E as tais partículas que enchem o ar, como se fossem pequenos flocos de neve, quando na verdade eram confetis de morte.
É este rigor estético - sublinhado pelos cenários, guarda-roupa e os espaços físicos quase ascéticos e assépticos -, que prende o olhar do telespectador desde o primeiro instante, somado a uma tensão de quem descobre os bastidores e pormenores deste acidente.
O realizador Johan Renck (autor de outra minissérie, Os Últimos Panteras, ou dos telediscos de David Bowie, Lazarus e Blackstar) faz-se acompanhar de um elenco que inclui Jared Harris, Stellan Skarsgård, Emily Watson e Jessie Buckley, para nos contarem uma tragédia tantas vezes dita, mas tão pouco conhecida. Se conhecemos a história, a série reaviva a memória e conta-nos mais, mostra-nos o dia-a-dia de gente como nós, que trabalhava e ia para a escola todos os dias, sem desconfiar que vivia encostada a uma potencial “zona de morte”.
“Um mundo justo é um mundo são, não há nada são em Chernobyl”, diz-nos a voz que nos introduz na série, a de Valery Legasov (Jared Harris), cientista russo, que chefiou a comissão de inquérito ao acidente e se suicidou dois anos depois da tragédia, na véspera de publicar os resultados do inquérito.
Paradoxo: sem nada saudável em Chernobyl, como nos avisa Legasov, o sucesso desta mini-série fez disparar o turismo na “zona morta”, uma fantasmagórica cidade de Pripyat, que foi evacuada 36 horas depois do acidente. E na série, há um rapaz que vê um homem a vomitar num relvado, enquanto um soldado de máscara manda seguir um dos muitos autocarros que transportaram cerca de 49 mil pessoas para fora de um perímetro de dez quilómetros.
Em duas reportagens fotográficas, uma da Reuters, publicada no dia 4, e outra da agência EPA, partilhada sábado último, vêem-se visitantes a passear pela cidade abandonada de Pripyat: como qualquer turista destes dias, há uma mulher que tira uma selfie junto a um autocarro abandonado e outras duas que se fotografam numa ponte (talvez a “ponte da morte” que se vê no primeiro episódio da série), há um homem que observa um camião e pneus deixados para trás, há quem passeie por prédios que o tempo tratou de ir degradando ou quem fotografe um pequeno dosímetro, que regista os valores de radiação, e uma sala destruída de um jardim-de-infância.
Trata-se de um “turismo de risco”, apontava já há três anos, nas páginas do Diário de Notícias, o pediatra alemão Alex Rosen, que se tem dedicado a investigar as consequências, para a saúde, do desastre na central nuclear ucraniana.
“Ir a Chernobyl em turismo é uma ideia estúpida”, dizia então, antes deste boom, como noticiou agora a imprensa local.
A série toma algumas liberdades ficcionais, criando mesmo uma personagem central, como a protagonizada por Emily Watson: a cientista bielorussa Ulana Khomyuk não existiu, mas os criadores da série quiseram representar a comunidade científica soviética no rosto de uma mulher que se sobressalta com os índices de radioactividade e procura que o regime tenha uma rápida reacção.

A réplica dos russos

Os russos parecem não estar satisfeitos com a série da HBO - e não será por causa destas liberdades criativas. Segundo o jornal britânico The Guardian, a televisão estatal russa deve apresentar, ainda este ano, a sua própria versão do drama, mas, ao contrário da mini-série que podemos ver, esta versão russa garante que um espião da CIA esteve presente no pior acidente nuclear da história.
Esta outra Chernobyl, que irá para o ar no canal NTV da Rússia, “parece cumprir uma exigência de colunistas de tabloides e telejornais para uma releitura mais patriótica da história”, escreve o Guardian. Filmada na Bielorrússia, à série será dada outro tipo de liberdades criativas: uma sinopse diz que o enredo desenvolve-se em torno de um agente da CIA despachado para Pripyat para recolher informações sobre a central nuclear de Chernobyl e de um agente russo de contra-informação que é enviado para localizá-lo.
Se parece ficção é porque é, descreve o jornal britânico. O realizador, Alexey Muradov, deixou no entanto a garantia de que a série russa “vai contar aos telespectadores sobre o que realmente aconteceu naquela época”.
Já a Chernobyl da HBO foi filmada na Lituânia. A cidade de Pripyat, a central de Chernobyl e mesmo a capital soviética Moscovo foram reproduzidas quase por completo em locais como Pravienišk?s e Visaginas. Segundo os produtores da série, no total, foram usados mais de 40 locais para as filmagens, que se traduziram em cerca de mil horas de filme.
Pripyat é hoje uma cidade sem gente e é com a evacuação que fecha o álbum da banda sonora original da série, composta pela islandesa Hildur Guðnadóttir. A violoncelista e compositora (que escreveu por exemplo as bandas sonoras de Trapped, Mary Magdalene e Strong Island) visitou uma central nuclear, na Lituânia, para se inspirar nos sons que aí ouviu.
“Cada som desta partitura é gravado a partir dessas gravações da central nuclear”, explicou-se Hildur, no podcast Score. “É uma história tão complicada de contar”, admitiu a compositora, que quis perceber “como é que soa uma catástrofe”.
A banda sonora é tão tensa e claustrofóbica como são aquelas paredes da central destruída, minutos depois da explosão. E num dos dois temas vocais, o coro municipal Homin Lviv, da cidade de Lviv (a 557 km de Chernobyl), canta-nos Vichnaya Pamyat, um lamento que acompanha as orações fúnebres.
“Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso”, é o que nos dizem estas vozes fundas e graves, como funda e grave é a memória da tragédia de Chernobyl.

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