Reportagem

O “Dia da Roupa Velha”

Osvaldo Gonçalves

A maior parte das pessoas passa o dia 25 de Dezembro a dormir, a curar-se da ressaca proporcionada pelos excessos cometidos na noite anterior. Para bem dizer, Natal é a Ceia, a Noite da Consoada e a data em que se diz ter nascido Jesus Cristo será apenas mais uma efeméride, a somar a tantas outras ao longo do ano.

Fotografia: DR

Este ano, o Natal calha numa terça-feira, mas poucos serão os que amanhã se apresentarão ao trabalho: passaram a maior do tempo nas compras – as de última hora, como sempre -, depois ficaram a tentar arranjar o que faltava e, por fim, com as coisas preparadas ou não, entregaram-se à folia: comeram de tudo um pouco (doces e salgados) beberam outro tanto (misturaram fermentados com destilados) e hoje entregam-se ao Espírito Santo, na perspectiva de continuarem vivos e de boa saúde daqui a uma semana, no fim-de-ano.
Por muito que se diga, o Natal mesmo é de 24 para 25 de Dezembro, a Ceia, momento em que ocorre a reunião das famílias e envolve muitas tradições populares. Normalmente, é servido peru, prato mais tradicional das ceias natalícias, acompanhado de rabanadas.
Por cá, herança da tradição portuguesa, faz-se o cozido de bacalhau. Às postas, grossas ou finas – consoante o bolso –, este peixe dos Mares do Norte tem, no modo como é salgado e curado pelos portugueses, segredos que só mesmo a História será, um dia, capaz de revelar, por mais que se saibam algumas lendas a respeito.
Na essência, o Natal é um feriado e festival religioso-cristão, comemorado todos os anos. Nos países eslavos e ortodoxos, cujos calendários são baseados no Juliano, o Natal é comemorado a 7 de Janeiro, dia atribuibuído à chegada dos Três Reis Magos a Belém.
Mas é a 25 de Dezembro que a data se torna no centro das festas de fim-de-ano e da temporada de férias, sendo, no cristianismo, o marco inicial do Ciclo do Natal, que dura doze dias.
Ao contrário do que se pensa, a lenda vem de muito mais longe. Segundo alguns historiadores, originalmente, a data era destinada a celebrar o nascimento anual do Deus Sol no solstício de Inverno (natalis invicti Solis), mas foi ressignificada pela Igreja Católica no século III, para estimular a conversão dos povos pagãos sob o domínio do Império Romano e então passou a comemorar o nascimento de Jesus de Nazaré.
O Natal é comemorado por muitos não-cristãos e até por agnósticos e atéus, que vêem na data uma ocasião para juntar familiares e amigos, muitas vezes desavindos.
Ao longo da história do feriado, o Natal tem sido objecto de controvérsia e críticas de uma ampla variedade de fontes distintas. Cá mesmo em Angola, durante alguns anos, o Natal foi celebrado como o Dia da Família.
Pelo que se sabe, a primeira controvérsia documentada em relação ao Natal foi liderada por cristãos e começou durante o chamado “Interregno Inglês”, quando a Inglaterra era governada por um Parlamento Puritano, altura em que estes, incluindo os que fugiram para a América, procuraram remover elementos pagãos restantes do Natal.
Durante esse breve período, o Parlamento Inglês proibiu por completo a celebração do Natal, considerando-o “um festival papista sem justificação bíblica” e uma época de comportamento perdulário e imoral.
Mas, como dizíamos, o dia de Natal é propício a ressacas. Há mesmo quem, muito ligado a dietas, faça nelas um intervalo para poder desfrutar das bebidas, dos pratos e guloseimas da época.
A mesa posta na Noite da Consoada é normalmente farta. Todos fazem o máximo para reunir sobre ela o que lhes faltou ao longo do ano.
Hoje, quando poucos ainda estão em condições para proceder à lavagem dos tachos, aproveita-se o que sobrou da noite. A roupa, diz-se, é velha. Mas o certo é que assenta bem a qualquer um.

  Uma festa de tradições e simbolismos

Além de tradições, o Natal é uma festa cheia de símbolos. Como tradição principal pode dizer-se que é a decoração das casas, edifícios, elementos estáticos, como postes, pontes e árvores, estabelecimentos comerciais e prédios públicos. Existem até competições destinadas a premiar casas ou estabelecimentos mais bonitos.
Para muitos, a árvore de Natal é o símbolo principal, quando, na verdade, não é mais do que uma “cristianização” das tradições e rituais pagãos em torno do Solstício de Inverno, que incluía o uso de ramos verdes, além de ser uma adaptação de adoração pagã das árvores.
A Alemanha é tido como o país de origem da tradição da árvore de Natal, sendo que uma das histórias mais populares atribui a novidade a Martinho Lutero (1483-1546), autor da Reforma Protestante do século XVI.
Pelo que se sabe, o costume de enfeitar as árvores de Natal surgiu em 1539 em Estrasburgo, França, havendo muitas versões sobre a associação da árvore ao Natal.
Das tradições associadas, uma delas é que o formato triangular do pinheiro representaria a Santíssima Trindade.
Em Angola, a tradicional da árvore de Natal não faz qualquer sentido. Primeiro, porque os pinheiros são raros e, segundo, porque não neva, nem sequer no Morro do Moco, o ponto mais alto do País. A fazer de neve, as pessoas colocam pedaços de algodão...
Pai Natal
Entre estas figuras de origem cristã e mítica associadas ao Natal e à entrega de presentes está o Pai Natal ou Papai Noel, também conhecido como Santa Claus, Père Noël, Weihnachtsmann, São Nicolau ou Sinterklaas, Christkind, Kris Kringle,Joulupukki, Babbo Natale e Ded Moroz.
 Figura mais famosa e difundida no Natal em todo o mundo, ele aparece sempre vestido de vermelho, o que tem diversas explicações, nomeadamente que teria a ver com a Coca-cola.
A origem do nome em inglês Santa Claus pode ser rastreada até ao Sinterklaas holandês, que significa simplesmente São Nicolau. Reza a História que Nicolau foi bispo de Mira, na actual Turquia, durante o século IV.
Entre outros atributos dados ao santo, ele foi associado ao cuidado das crianças, à generosidade e à doação de presentes. A sua festa, realizada a 6 de Dezembro, passou a ser comemorada em muitos países com a troca de presentes. A imagem popular moderna do Pai Natal foi criada nos EUA, em particular, em Nova Iorque, e surge após a guerra de secessão.

Estrela de Natal
O Evangelho Segundo Mateus diz que quando Jesus nasceu, uma estrela anunciou o facto e guiou os Três Reis Magos do Ocidente até ao local onde estava o Menino Jesus, Maria e José. Essa estrela recebeu o nome de Estrela de Belém e, segundo o texto, o seu brilho intenso foi uma forma de representar que Jesus seria a luz do mundo.
Astrólogos da antiguidade tinham o costume de acreditar que alguns fenómenos aconteciam em razão do nascimento de um rei, motivo pelo qual teriam considerado a aparição da estrela como anúncio do nascimento de Jesus. O facto está registado na Bíblia: “Onde está aquele que é nascido Rei dos Judeus? Pois do Oriente vimos a sua estrela e viemos adorá-lo” (Mateus 2:1-2).
Os três Reis Magos eram Belchior, Baltazar e Gaspar. Eles levaram incenso, ouro e mirra para presentear Jesus, pois cada um deles teria um importante significado para a sua vida. O incenso foi dado para manter o bebé protegido, representando a fé, a oração que chega a Deus através da fumaça.

Presépio
Na Língua Portuguesa, presépio designa o local onde se recolhe o gado ou o estábulo. Entretanto, ele também é uma referência cristã que remete ao local exacto do nascimento de Jesus em Belém, na companhia de São José e da Virgem Maria.
Reza a História que, quando Jesus nasceu, não havia lugar para ele na hospedaria. Por isso, os pais colocaram-no numa manjedoura. Esse pormenor mostra como Jesus veio para se identificar com os mais pobres e desprezados.

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