Reportagem

O gigante que faz “tremer” o mundo

Cândido Bessa

Já não é apenas o país das roupas e brinquedos baratos, salários baixos e obras sem qualidade. O principal parceiro comercial de Angola no mundo está a transformar-se, a passos largos, numa nova China, moderna, para liderar o mundo.

As auto-estradas modernas e uma larga rede ferroviária que ligam quase todo o país são exemplo que a China, não é mais o país velho, pobre e atrasado. Nas últimas quatro décadas, a riqueza da China (o Produto Interno Bruto) cresceu, em média, 9,5 por cento ao ano, quando a média mundial não passou de 2,9, tornando-se na segunda economia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.
Os resultados do crescimento económico podem ser vistos na melhoria da vida da população. Mais de 800 milhões de chineses foram retirados da pobreza absoluta. Todo este progresso é registado num livro azul produzido conjuntamente pela Academia Chinesa de Ciências Sociais e pelo Conselho de Estado para a Eliminação da Pobreza e para o Desenvolvimento, em 2016. O documento indica que, entre 1978 e 2015, a população rural em situação de pobreza no país reduziu de 770 milhões para 55,75 milhões. Pelas contas do Banco Mundial, que enquadra como pobres pessoas com um consumo de até 1,90 dólares por dia, foram 853 milhões de pessoas retiradas da pobreza na China. Este ano vai reduzir em 10 milhões a sua população carente, batendo a meta do país de erradicar a pobreza nas áreas rurais e a pobreza regional até 2020.

Contribuição no mundo
Os números indicam que sozinha a China retirou 78 por cento da pobreza no mundo durante o período. Mas quer mais. O próprio Presidente Xi Jiping quer uma economia não apenas volumosa, mas forte e mais competitiva. E não se cansa de citar Victor Hugo: "o que já foi feito é insignificante em comparação ao que ainda vai ser criado". É esta China que não pára de bater recordes.
Dados divulgados pela imprensa indicam que em Setembro as exportações chinesas aumentaram 14,5 por cento, face a igual período do ano passado, para 226,7 mil milhões de dólares. As importações subiram 14,3 por cento, para 195 mil milhões de dólares.
A China é o motor do crescimento económico global e manteve por vários anos uma contribuição de mais de 30 por cento. Entre 2013 e 2018, a China precisou de importar produtos no valor de 10 trilhões de dólares. O país tornou-se no maior detentor de reservas cambiais, a segunda maior nação em matéria de investigação e desenvolvimento.
A iniciativa "Uma Faixa, Uma Rota", proposta em 2013 pelo Presidente chinês e que tem como objectivo reforçar as ligações e dinamizar o comércio entre várias economias da Ásia, do Médio Oriente, da Europa e de África, através do investimento em infra-estruturas. Há nove anos que o país é o principal parceiro comercial de África. E os números são impressionantes: as trocas comerciais que em 2000, rondavam os 10 mil milhões de dólares, totalizaram, no ano passado, os 200 mil milhões.
“A força individual é limitada, mas se nos unirmos não haverá dificuldades insuperáveis. A nossa responsabilidade pesa mais do que a montanha Taishan e temos tarefas pesadas e um longo caminho a percorrer”, afirmou o Presidente Xi Jinping.

 Aposta na inovação para liderar a tecnologia


Quando em 1964, o Japão lançou o comboio de alta velocidade, a China era um país pobre e atrasado. Os chineses inaugurariam a primeira linha de alta velocidade apenas em 2008, cerca de 28 anos depois dos franceses. A linha ligava a capital Pequim, à cidade de Tiajin, a quinta mais rica da China e que alberga as principais indústrias de produtos petroquímicos, têxteis, automobilísticos, metalúrgicos e farmacêuticos. Hoje, em menos de 10 anos, a China cresceu mais do que todos.  
Com mais de 1,3 mil milhões de habitantes, o país tem a segunda maior rede ferroviária do mundo. Mas com uma diferença: das 31 regiões e províncias da China continental, 29 são servidos com linhas de alta velocidade, com comboios que circulam a mais de 350 quilómetros por hora (km/h) e podem chegar a 450. Uma viagem de 1200 quilómetros chega a ser percorrida em quase duas horas e meia. Para ter uma ideia, um comboio do Caminho-de-Ferro de Benguela, por exemplo, precisa de mais de 20 horas para fazer igual percurso.
Estimular a competição, a cooperação e promover a mobilidade racional e ordenada dos recursos humanos é outra aposta do Governo. Reformar os mecanismos de formação, recrutamento e uso dos talentos, esforço para formar cientistas e engenheiros a nível internacional, líderes científicos e tecnológicos e equipas de inovação de alto nível, é outra.
No ano passado, a China apresentou o seu primeiro avião comercial, o C919. Com capacidade para 168 passageiros, o aparelho emite menos 12 por cento de dióxido de carbono que o americano Boeing ou o europeu Airbus.
Entretanto, o projecto “Made in China 2025”, anunciado em 2015, vai fazer o mundo tremer. O objectivo é transformar o país, hoje uma plataforma industrial do mundo, em líder tecnológico, incluindo sectores como biotecnologia, robótica, tecnologia aeroespacial.
Grande aposta recai a fabricação de aviões e outros produtos tecnológicos. A ideia é incentivar a inovação em sectores como tecnologia avançada, robótica e máquinas automatizadas, equipamento aeronáutico e naval de alta tecnologia, transporte ferroviário moderno, veículos e equipamentos eléctricos, geração de energia, implementos agrícolas, entre outros.
São vários milhares de milhões de dólares a serem investidos para transformar o país numa potência industrial e tecnológica. A inteligência artificial é outra aposta para tornar a China num poder económico, juntamente com a energia renovável, robótica e carros eléctricos. Os chineses investirão no desenvolvimento de habilidades e recursos de pesquisas académicas para alcançar “grandes avanços” até 2025 e tornar a China um líder mundial em 2030.

Educação é a chave

Para alcançar o desenvolvimento, a China aposta na educação. Rigorosidade, disciplina e competitividade são as principais características da educação chinesa, que se tornou referência mundial. A educação tem início na pré-escola, quando a criança chinesa começa a aprender a escrever caracteres e operações  básicas de matemática. A alfabetização do país está perto dos 95 por cento da população.
As prioridades de investimentos são para modernizar a educação, principalmente nas infra-estruturas e na ampliação do corpo docente. As tecnologias são cada vez mais trazidas para as aulas. Há escolas a usar o reconhecimento facial, para monitorar a atenção dos alunos.
Câmaras espalhadas pela sala capturam o rosto do aluno e classifica em sete categorias de emoção e é possível reconhecer quando está triste, decepcionado, zangado, assustado, surpreso, neutro ou feliz. Hoje, vários aeroportos na China usam já sistemas de reconhecimento facial para acelerar as verificações de segurança, mas o sistema implementado em Xangai é completamente automatizado. A tecnologia está disponível apenas para titulares do passaporte chinês.
Em toda a China, o reconhecimento facial está a ser implementado na vida quotidiana, incluindo para dar entrada em hotéis, fazer pagamentos em restaurantes ou detectar a reacção dos estudantes nas salas de aula.
A China ampliou, igualmente, o intercâmbio com outros países para envio de estudantes. O Presidente Xi Jinping afirma que a ideia é que, com base na sua cultura, o chinês conte as suas histórias e transmita a voz do país de modo acessível, fácil de entender e aceitável para os estrangeiros para que o mundo compreenda melhor e apoie mais a China”.
Numa mensagem aos jovens, o Presidente Xi Jinping disse: “a vida nunca favorece aqueles que se agarram às regras antigas e se contentam com o status quo, nem espera por aqueles que ficam sentados desfrutando dos frutos do trabalho alheio sem querer progredir. Pelo contrário, a vida dá sempre mais oportunidades àqueles que sabem e se atrevem a inovar”.
Outro responsável pelo crescimento económico chinês são as Zonas Económicas Especiais, que consistem em territórios onde estão localizadas diversas multinacionais estrangeiras.
A redução de impostos por parte do Governo tem como objectivo atrair investimentos e inovações tecnológicas oriundas de países desenvolvidos. Os principais investidores nas Zonas Económicas Especiais são japoneses e norte-americanos.
A China adoptou o conceito de “linha vermelha ecológica”, na questão da protecção ambiental. Ninguém a pode cruzar, caso contrário é punido. Aplica-se na urbanização, agricultura e desenvolvimento industrial.  Nada pode prejudicar a saúde das pessoas.
A ideia é incentivar a economia circular, que promova a redução, reciclagem e reutilização no processo de produção, circulação e consumo.
Como disse Confusio:  “Ao renovar-se um dia, deve-se fazer isso todos os dias para que a renovação seja constante”.

As ideias de Deng Xiaoping

Apenas era candidado a Presidente da República, quando, numa entrevista à agência espanhola EFE, João Lourenço fez a revelação: “Reformador? Vamos trabalhar para isso, mas certamente não Gorbachev, Deng Xiaoping, sim”. Quem é este político chinês que inspira o Presidente angolano?
Em 1954, Xiaoping torna-se secretário-geral do partido comunista e, no ano seguinte, passa a membro do Politburo - comité central que define a política do partido. Em 1959, Mao é afastado do Governo e Liu Shaoqi torna-se Presidente, conservando Xiaoping na liderança do partido. Em 1966, quando Mao volta ao poder, Liu Shaoqi é destituído e Xiaoping é demitido e preso. Entretanto, foi com Deng, que governou entre 1982 e 1990, que a China se abriu ao investimento estrangeiro e, no campo diplomático, completou a normalização das relações com os Estados Unidos.
Sem pôr em causa o “pensamento de Mao”, a “teoria de Deng combinou com os conceitos confucionistas de harmonia e da “ascensão pacífica” da China no quadro mundial. Deng promoveu também várias reformas institucionais ao nível do partido com duas prioridades: impedir a construção de um novo culto da personalidade e tornar os processos internos mais estáveis e previsíveis. Deng fez uma adaptação do maoísmo a alguns aspectos das economias de mercado, promovendo a abertura económica e a modernização do aparelho produtivo.

Desporto como montra

Mais do que mostrar o potencial, os Jogos Olímpicos de Pequim, realizados em 2008, serviram para a China mostrar-se ao mundo.
O próprio presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), Jacques Rogge, reconheceu que o povo chinês impressionou o mundo com o seu imenso entusiasmo pelos jogos e caloroso apoio a todos os atletas competidores, sem se importar com nacionalidades, raças ou desportos.
“O mundo conhece mais sobre a China e a China conhece mais sobre o mundo. Acredito que isso é que trará efeitos positivos a longo prazo”, destacou Jacques Rogge. O próprio Presidente Xi Jimping afirmou que a “China e o mundo precisam de se conhecer melhor”.
A verdade é que os jogos revelaram o crescimento da Ásia, especialmente da China, que, com as vantagens em casa para os seus atletas, liderou o quadro de medalhas de ouro com um recorde de 51 ouro, ultrapassando a potência permanente do desporto, os Estados Unidos, pela primeira vez na História, como era esperado por quase todas as pessoas.

Marca angolana é bem recebida pelos chineses

A China garante um mercado internacional com diversos produtos de elevada qualidade a preços baixos, enquanto maior exportador do mundo, por outro lado, o país oferece ao resto da comunidade internacional a partilha dos frutos económicos, ao permitir o acesso ao seu mercado de 1,3 mil milhões de consumidores.
A entrada do sumo angolano Nutry, no mercado chinês, pode ser um bom exemplo desta abertura e da necessidade de ousadia dos empresários de outros países. Há dois anos, Jiang Hui, um empresário chinês, provou, de passagem por Luanda, o sumo feito pela Refriango. Gostou e decidiu levar para a China. Hoje, é vendido em grandes espaços comerciais através da chinesa NUVI (Shangai) International Trade Co. Ltd. Até ao momento, são mais de um milhão de litros vendidos, num mercado bastante concorrido e onde a qualidade de produtos do género é avaliada a cada dia.
Jiang Hui fala da boa aceitação do produto, mas lamenta a burocracia para importar a partir de Angola. Para promover a marca, a NUVI realizou uma campanha com famosos actores de cinema, além de patrocinar maratonas e corridas de ciclismo. O futuro é levar à China outras marcas angolanas.

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