Reportagem

O impulso de Catoca no fomento da aquicultura

André Anjos | Mona Quimbundo

Com uma estrutura produtiva deficitária em proteínas animais, baseada fundamentalmente na pesca continental, a  Lunda Sul aposta agora na criação de peixe à escala industrial, num desafio que junta a Sociedade Mineira de Catoca e o governo privincial, na comuna de Mona Quimbundo, município de Saurimo.

O projecto data de 2012
Fotografia: Santos Pedro|Edições Novembro

O projecto data de 2012, um ano depois da assinatura do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Económico e Social (PADES), nos termos do qual o Governo da Lunda Sul e a Sociedade Mineira de Catoca se comprometem a atacar conjuntamente os problemas estruturais da província.O défice de proteínas na estrutura produtiva da província, aliado aos custos de logística do peixe, frango, carne e outros perecíveis provenientes de outros pontos do país, favorece à especulação dos preços destes produtos na Lunda Sul, com repercussões nas poupanças familiares.
Atentos à situação, o Governo da Lunda Sul e a Sociedade Mineira de Catoca resolveram apostar na diversificação das fontes de proteínas animais na província, ao abrigo do PADES. A Odebrecht chegou a ser contratada para estruturar e executar o projecto. Fez os primeiros 10 tanques, mas para baixar os custos da empreitada e valorizar experiência da juventude local na escavação da terra, cedo a empresa brasileira foi convidada a retirar-se, conta João Reis, o representante de Catoca no PADES.
A experiência na escavação de terra a que se refere João Reis é, como diria depois, fruto da exploração rudimentar de diamantes (garimpo), actividade que implica habilidades específicas no manejo dos solos. Na selecção dos jovens que fizeram os tanques, pesou sobremaneira o histórico de garimpo de cada um.
A cooperativa de aquicultura de Mona Quimbundo, com excepção dos 10 tanques escavados pela Odebrecht, é obra dos jovens da comunidade, que fizeram 90 dos 100 tanques que constituem o projecto, construíram o canal de indução de água de cinco quilómetros que abastece os tanques, o dique com um metro de profundidade no rio e a vedação dos 20 hectares que abarcam os tanques.
Não fosse a crise financeira resultante da queda do preço do petróleo no mercado internacional, que afectou as importações de ração, diz João Reis, a cooperativa já se teria expandido a outros municípios da província.
O projecto, de acordo com João Reis, foi concebido para produção comercial de tilápia (choupa), mas com a condição de criar um banco de alevinos (larvas) para o fomento da aquicultura comunitária.Ultrapassados os constrangimentos logísticos, a cooperativa retoma agora o seu curso normal. Para não prejudicar as reservas de larvas destinadas à aquicultura comunitária, vai ao mercado, ainda este mês, comprar alevinos em fase de engorda para proceder às primeiras capturas em Agosto.
Por falta de ração, em 2016 não se faz repescagem nos 100 viveiros que conformam a cooperativa, cuja actividade ficou reduzida à manutenção dos alevinos para aquicultura comunitária.
Para o desenvolvimento da aquicultura, o potencial hídrico é fundamental. E neste particular, a Lunda Sul está bem servida. Mas não basta. Especialistas calculam que entre 60 e 80 por cento dos custos de produção de tilápia resultam da compra de ração.
Em Angola, onde o fabrico de ração é quase nulo, a aquicultura depende, em grande medida, de importações. E num cenário de permanente depreciação da moeda nacional face aos cambiais, os importadores exageram nos preços de revenda para, alegadamente, protegerem o valor de aquisição do capital investido.
Foi este quadro que refreou, um pouco em todo o país, a aquicultura, depois de um período relativamente curto em que a actividade despertou interesse em muita gente. O facto de o mercado nem sempre permitir que os produtores repassem os altos custos da ração ao consumidor complicou ainda mais as equações.
A recente visita da ministra das Pescas à cooperativa coincidiu com os preparativos da “época aquícola” em Mona Quimbundo. Dirigindo-se aos trabalhadores e gestores da cooperativa, Victória Neto teceu elogios à iniciativa que, na sua óptica, representa uma aposta na diversificação da economia.
As previsões para a presente “época aquícola”, de acordo com João Reis, apontam para a utilização de 40 tanques dos 100 existentes. Uma metade com três mil peixes e a outra com quatro mil. É do somatório destes efectivos, que em fase comercial atingem entre 300 a 500 gramas, que o representante da Sociedade Mineira de Catoca estima as próximas capturas à volta de três mil toneladas.

Formação e investigação

A par dos objectivos iniciais, a cooperativa vai também servir à formação e investigação no domínio da piscicultura. A escassos metros do local, foi construída uma escola técnica agrária, que inclui no seu plano curricular o curso de piscicultura.Trata-se de um imponente complexo académico, construído numa área de 10 hectares. Com oito salas de aulas, dois laboratórios para Biologia e Química, uma sala de Informática, biblioteca, enfermaria, área administrativa e espaços para internato com capacidade para 90 alunos.
A cooperativa, de acordo com João Reis, já foi sondada para disponibilizar parte dos seus tanques para aulas práticas e pesquisas de piscicultura.
Com uma área de 77.636 quilómetros quadrados, a província da Lunda Sul é rica em recursos hídricos. Os rios mais importantes são Mombo, Luachi, Chicapa, Muanguês, Cuango, Luó, Luavuri, Cucumbi, Luzia, Luachimo, Chiumbe e o Cassai, que nasce na região do Alto Chicapa, a uma altura de 1.300 metros, todos propícios para a pesca artesanal.
A par dos rios, a Lunda Sul tem lagos e lagoas onde abundam espécies como a tuqueia e a caqueia, ricas em proteínas. Em 2016, o Executivo elaborou um conjunto de programas dirigidos para a saída da crise, onde incluiu a aquicultura. As múltiplas vantagens que a aquicultura oferece contrastam, claramente, com o reduzido número de riscos que apresenta.
Quem coloca, por exemplo, 10.000 peixinhos num tanque tem a probabilidade real de, ao fim de quatro meses, colher igual número de pescado ou muito próximo disso.Outro factor que faz da aquicultura um negócio rentável é o facto de a actividade não precisar de muita mão-de-obra para muita produção.
A  cooperativa de  Mona Quimbundo, por exemplo, com 100 tanques de 25 metros de comprimento e 20 de largura cada, emprega apenas 15 trabalhadores.
Programa dirigido

O Programa Dirigido para o Aumento da Produção e Promoção da Exportação da Tilápia 2016-2017 tem, entre outros, o objectivo de elevar para 30 mil toneladas a produção aquícola no país, até finais deste ano.
A estratégia do Executivo neste  sector vai no sentido de transformar o país, a médio prazo, de importador em exportador de tilápia. Dados da Direcção Nacional de Aquicultura indicam que, em 2015, Angola empregou mais de quatro milhões e trezentos mil dólares na compra dessa espécie no estrangeiro.
Um estudo recente, destinado a determinar o potencial aquícola do país, conclui que Angola tem excelentes condições para esse tipo de actividades, excepto na província do Namibe, onde a escassez de recursos hídricos, por causa do deserto, dificulta a prática da aquicultura.
Desenvolvido pelo Ministério das Pescas, em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), o estudo, orçado em 200 mil dólares, consistiu no mapeamento das áreas com maior potencial para a aquacultura.
O projecto foi coordenado por uma especialista nacional em parceria com peritos internacionais com vasta experiência no ramo, que realizaram um trabalho de campo em várias províncias, com a ajuda de produtores locais. “Os locais identificados permitem aos operadores desenvolver as suas iniciativas em locais apropriados”, concluíram os especialistas.
Os primeiros estudos sobre a aquicultura no país foram feitos entre 1970 e 1972, pela então Missão de Estudos Bioceanológicos da Pesca de Angola, que neste período procedeu ao cultivo experimental de mexilhão na Baía do Lobito, mas sem grandes resultados.Na década de 1990, o Instituto de Investigação Marinha retomou os estudos do tempo colonial, com o cultivo experimental de algumas espécies na praia de Santiago, mas foi em 2003 que o Ministério das Pescas e o Instituto de Investigação Marinha fizeram um trabalho de investigação mais aturado que levou à identificação e localização das primeiras áreas propícias para o desenvolvimento da aquicultura.
O estudo de 2003 culminou com a inventariação, levantamento e identificação das espécies que melhor se adaptam à aquicultura, nas províncias de Luanda, Bengo, Uíge, Malanje, Lunda Norte, Lunda Sul, Moxico, Huíla, Namibe, Cunene e Cuando Cubango.
A mais avançada pesquisa científica sobre a aquicultura foi desenvolvida pelo Ministério das Pescas, que levou os investigadores a concluírem, sem margem para duvidas, de que Angola tem excelentes condições naturais para desenvolver a aquicultura.

Produção de mandioca


Ainda em Mona Quimbundo e no quadro do PADES, o Governo Provincial da Lunda Sul e a Sociedade Mineira de Catoca desenvolvem um projecto de reprodução de estacas de mandioca, destinado a apoiar o fomento desta cultura na região.
A escassos metros dos tanques de peixe estendem-se, até perder de vista, madioqueiras precoces, assim chamadas por precisarem de muito menos tempo que as outras para produzir.
 Além do pouco tempo de que necessitam para produzir, as chamadas mandioqueiras precoces gozam, ainda, da fama de serem resistentes a pragas e estiagem.
São estas plantas geneticamente melhoradas que o PADES está a desenvolver em Mona Quimbundo para distribuição gratuita às populações. Desde o arranque, em 2012, o projecto já beneficiou mais de 20 mil famílias.O projecto ocupa uma área de 20 hectares, mas já foi desbravada igual quantidade de terra para alargar o plantio de mandiocas. A Direcção Provincial da Agricultura controla 30 piscicultores individuais, com 250 viveiros, envolvendo 235 famílias.
A Direcção provincial da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas na Lunda Sul controla ainda 416 associações de camponeses e  48 cooperativas agro-pecuárias. A agricultura familiar envolve 115 mil e 512 famílias camponesas na Lunda Sul, que produzem cerca de 70 por cento dos bens alimentares consumidos na província.
Para o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Económico e Social, os piscicultores e os camponeses organizados em associações e cooperativas gozam de prioridade.

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