Reportagem

O inventor que leva a bandeira de Angola a Silicon Valley

João Dias

O Jornal de Angola conversou com o inventor angolano Ricardo Augusto Figueiredo, para saber dos seus “mil e um sonhos” e conhecer os seus desencantos.

Ricardo Figueiredo
Fotografia: DR

Ele tem os protótipos do carregador de telefones, o “Chirengo”, do robot “limpa-vidros” em edifícios, da máquina que previne derrames de petróleo e da que evita incêndios em até 25 metros de altura. Embora da invenção à produção em escala vá, geralmente, uma distância colossal, Ricardo soma e segue no plano da inovação. Com uma mente a fervilhar ideias e soluções a tempo inteiro, apenas sonha. Sonha tanto que está, neste momento, a partilhar o espaço da Silicon Valley International Invention Festival 2018, no Estado da Califórnia, com inventores de outras partes do mundo.
O engenhoso jovem tem residência fixa no município da Caála, Huambo, desde 2014. Mas nasceu nos idos de 70, no Rangel. Foi na localidade do Chirengo, no Huambo, onde desenvolveu o sistema universal de carregamento de telefones, que ganhou o nome da zona: Chirengo. Remota, sem energia e sem infra-estruturas, a localidade impeliu Ricardo a desenvolver o carregador que está a ser, neste momento, objecto de exposição em Silicon Valley. Com o Chirengo, está outra das suas invenções: o colector de mosquitos.
Ricardo Figueiredo lembra que o espírito inventivo e inquieto começa nos tempos de “menino de peito”. O Natal foi sempre especial. Era sempre nesta altura que recebia brinquedos. No dia seguinte, não importa o que fosse, o brinquedo era desmanchado por ele, levado, não raro, pela “inevitável” curiosidade de querer saber como era feito. Voltava a montar. Mas, nem sempre, voltava ao normal. Por vezes restavam peças. Noutras ocasiões faltavam. Foi esta curiosidade indómita que o tornou o inventor que é hoje.
“Sou o inventor que leva a bandeira de Angola a Silicon Valley.  Sinto um grande orgulho em fazer parte da Silicon Valley International Invention Festival 2018 e saber que somos o único país da África Austral que vai expôr no maior palco de inovação e das tecnologias ao redor do mundo”.
Tudo isso vai ganhando forma à medida que consolida os seus conhecimentos. Ricardo tem nítidas lembranças dos tempos em que começou a estudar electrónica no Instituto de Telecomunicações (ITEL). Tempos em que a televisão era a válvula e a preto e branco. Depois, seguiu para Portugal, onde fez o curso de electrónica, sem deixar as engenharias, principalmente mecânica e hidráulica, cuja fusão ganhou o nome de mecatrónica.
 
Invenções e protótipos
 O colector de mosquitos foi criado no Huambo, em 2016.
“Criei-o para detectar o mosquito causador da febre amarela e da malária. O colector funciona com um sistema de luzes intermitentes que atraem os mósquitos. Além disso, o colector gera atracção  de mosquito com um sistema de aquecimento de 39,5 graus Célsios e um outro que faz a sucção do vento, por via de um ventilador electromagnético que puxa o mosquito, como um íman, para dentro de um copo. Daí é retirado para ser estudado em laboratório.
Ricardo Figueiredo fala do processo que levou à criação do Chirengo. Precisou de um retiro para “dar à  luz” este sistema de carregamento de baterias de telefones fora do convencional. A inovação está no facto de o carregador não precisar de energia electrica, nem de energia solar. Como funciona? Segredos dos Deuses. A sua patente está a caminho.
 Instalou-se na zona do  Chirengo, sem luz, água e “sem nada”. Tinha apenas silêncio e só silêncio, o alimento do ímpeto criativo e da originalidade.
“Foi  muito curioso. Aquela paz e o silêncio eram tão sagrados naquela zona, que não quisemos geradores. Eis que nasceu o carregador de telefones”, lembra Ricardo Figueiredo, que guarda o desejo obstinado de colocar a zona do Chirengo no Google Map.
 Numa entrevista despida de formalidades, lembra que quer contribuir para o promissor universo da economia verde. A justificá-lo está o Chirengo e a máquina, ainda sem nome e patente, que previne derrames de petróleo. Mas tem ainda o robot limpa-vidro e o “comedor de incêndios” de até 25 metros de altura”. O conceito do projecto para prevenir derrames de petróleo no oceano, criado em 2014, já foi medalha de bronze em Nuremberga, Alemanha.  O mecanismo é revestido de sistemas que evitam a dispersão do petróleo na superficie do oceano, no caso de ruptura de tubos ou “piperlines”. Capta o óleo da água e evita a sua dispersão para a costa.

  Da invenção à produção vai uma distância abismal

“Ando há anos nisso, Trabalho com pessoas que tratam desta componente da atracção de investidores. Não posso inventar, fazer desenho, ir às feiras e procurar quem queira produzir”, sublinha Ricardo, que sabe, à partida, que da invenção à produção vai uma distância abismal.
Para Ricardo Figueiredo, o encontro com o Presidente da República, que à partida o ajuda a ir a Silicon Valley, é um passo significativo e simboliza a esperança. Na sua opinião, os problemas dos cientistas têm sido, até agora, os mesmos: criam, mas depois não  existem fundos para concretização. Ficam encalhados.
 Ricardo entende ser a hora dos jovens africanos começarem a pensar na criatividade, inovação e investigação científica, para dar solução à problemas reais e locais. Não continuarem como meros consumidores e espectadores do que ocorre no campo da ciência. Mas realça: “é preciso que os nossos Estados invistam sério e estejam conscientes de que investir na inovação e tecnologia é investir no médio e longo prazo. Não é imediatismo”.
Os Estados africanos, diz, devem olhar para projectos africanos com potencial e devem olhar, hoje mais do que nunca, para o campo da ciência e da investigação científica.
Ricardo foi de “armas e bagagens” a Silicon Valley, o habitat das empresas mais disruptivas a nível da criatividade e da inovação e tem certeza de que vai fazer um excelente serviço.
O engenhoso rapaz pretende, sobretudo, mostrar que Angola existe no ramo da inovação e da ciência. “Não somos primitivos, não andamos com leões e flechas. Vou mostrar que podemos fazer coisas que o Ocidente também pode precisar. Pretendo mostrar que o nosso país tem mais abertura e que é possível receber investidores das áreas das tecnologias”, detalha.
A feira decorre durante três dias.
Ricardo apresenta os protótipos do Chirengo e do Colector do Mosquito, dois dos seus produtos ecológicos.
 
Um sonhador arreigado 
 “O meu sonho é ver Angola nos grandes palcos do mundo. Mas o que quero mesmo é ver Angola com um Prémio Nobel, nos próximos tempos, e não importa a área. Sonho sempre  com isso. Não sei se serei eu. Mas, Angola terá o Nobel um dia”, perspectiva o jovem inventor.
 Embora o sonho seja enorme, Ricardo recusa-se a deixar de sonhar. É insistente e lembra que, se não fosse o sonho que o move, não chegaria ao Presidente da República.
“Fui ao Presidente sem nenhum tostão. Sai do Huambo sem nenhum tostão.  Se pensasse assim, não chegaria ao Presidente. Nunca posso desistir e nunca posso ser fraco. Nós somos fortes.  Não me intimido por ninguém, nem por país algum. Apenas respeito e exijo que seja respeitado.  Acredito nas potencialidades dos angolanos”.
Na sua opinião, é necessário investir na investigação científica e na inovação. Para tal, pede que sejam criados pólos de inovação e ciência, que sejam autênticos “viveiros” de homens virados para a busca de soluções”.
Os laboratórios são fundamentais neste processo, tal como o são as condições para quem está neste universo. “O inventor deve ter paz de espírito na busca de respostas para um determinado problema que reclama a intervenção da ciência”, sublinha.
Ter sido recebido pelo Presidente da República representa a devolução da esperança que estava prestes a definhar.
“Acho que daqui para frente as coisas vão mudar. Tenho confiança”, realça Ricardo Figueiredo, para quem neste ramo é preciso ousadia, aliada ao conhecimento e perseverança.
“Parar é morrer e não quero morrer ainda. Por isso, não desisto. O resultado foi o facto de o Chefe de Estado me ter recebido. Mas isso é ainda a ponta do Iceberg”, concluiu.

O “comedor de incêndios”

Imaginativo , Ricardo partilhou um dos “mil e um sonhos” que tem com o Chefe de Estado. Falou vagamente da máquina, sem entrar em detalhes, para combater incêndios ou labaredas em qualquer que seja a floresta. Pode combater incêndios de até 25 metros de altura. A sua inspiração partiu da vontade de não querer ver repetido o infortúnio provocado pelos incêndios de Pedrogão Grande, Portugal, onde vidas foram ceifadas pelo fogo implacável. Para ele, o céu é o limite e não existem sonhos impossíveis. Por isso, tem na forja um projecto-conceito  para prevenir incêndios nas habitações das zonas rurais,  geralmente feitas de capim.
Que sistema é esse e como funciona? Ricardo, mais uma vez, não diz. É um segredo fechado a sete chaves. Receia que lhe roubem a ideia. “São pormenores que não posso dizer para não plagiarem a ideia”, assinala em plena escada à entrada do Prédio do Livro a poucos metros do Estádio dos Coqueiros.
O inventor angolano fala da medalha de prata que ganhou em Nuremberga, fruto de mais uma das suas invenções: “o robô limpa-vidro”, feito para exercer este serviço em edifícios altos e envidraçados.  “Porquê ter pessoas penduradas? Os meus projectos sempre surgem da necessidade de responder a uma coisa, o que está em falta, e arranjar uma solução. E esta é uma solução que pode evitar riscos desnecessários à vida”.
O robot exerce uma certa pressão sobre o vidro a ser limpo e nele projecta vapor que é transformado em água. A água, sem químicos ou poluentes, pode ser reutilizada para irrigação de jardins.  “Quando fiz a apresentação da invenção em Nuremberga, os membros do júri disseram que era um projecto ecológico. Comecei a reparar que quase todos meus projectos são ecológicos. Por exemplo, o Chirengo e a máquina que previne derrames são ecológicas. Só depois de estar no Huambo é que soube que é uma cidade ecológica. Calhei na cidade certa”.

PERFIL

Ricardo Augusto Figueiredo

 Apesar de inventor, não lê apenas bibliografia de tecnologias, engenharias ou mecatrónica, mas também histórias aos quadradinhos ou BD e livros infantis. Gosta da música angolana e realça a admiração pelo músico Conde e o grupo Kassav.

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