Reportagem

O número de visitantes aumentou no mês do guia imortal

Rodrigues Cambala

A voz estridente de uma jovem corpulenta impera sobre as mais de vinte crianças de um jardim de infância, para se manterem organizadas.

Fotografia: Paulo Mulaza |Edições Novembro

 A mulher tem uma  tissagem que escorre sobre o ombro esquerdo. O gracejo e os pulos dos catraios enervam a educadora.  Vê-se uma fila serpenteada e atabalhoada. Estão todos vestidos de, pelo menos, uma peça vermelha no corpo. É o momento de atravessar a avenida para desfiles, no Memorial Dr. Agostinho Neto. O asfalto está entre o jardim frontal e o edifício. Não há tráfego no interior. Os pequenos desatam como ovelhas desamparadas. Uns correm, outros param. A maioria faz barulho.
Mais uma vez Ana Bela vê-se impotente. Uma mudança de plano: chamada de atenção individual. “Neide, Carlos, Arlete… parem...”, surte, desta vez, o efeito desejado. A voz de Ana Bela parece arquejante. Não tarda, clama pelo apoio da colega que, em vários trejeitos, vai amparando as mais traquinas. Todos sentados nos degraus. Finalmente, a situação parece controlada, pelo menos, naquele instante.
O vai e vem de visitantes cresce. Várias carrinhas e autocarros estacionam rente ao passeio do edifício para deixar as crianças e os acompanhantes. Este cenário é cíclico. Vários  grupos visitam o imponente  memorial. Vêm de todos os pontos de Luanda. O mês  de Setembro é o mais concorrido.
As  nuvens carregadas com grandes quantidades de água em suspensão intimidam o sol. A época já é propícia para as chuvas. Por enquanto, nada cai do céu. O jardim, coberto de coqueiros, tem um elefante em pedra cinza que prostra em sinal de respeito. Relva aparada. O mausoléu está a receber pequenas obras de manutenção. As bancadas recebem nova tonalidade, assim como o piso de betão à entrada. O espaço está a ser preparado para a tomada de posse do novo Presidente de República. Mário Vidinha é o director pedagógico do Colégio Quatro Irmãs Farmhouse. Ele e mais quatro professores organizam a formatura dos alunos do ensino primário. Aguarda a luz verde de uma funcionária de traje social escuro. Vidinha desdobra-se de um lado para o outro com ares de boa disposição. Quer que os alunos fiquem organizados para, lá dentro, o grupo não estar descompassado.
Samuel Pereira, Alícia Roberto e Jaqueline Pinto têm dez anos e frequentam a quinta classe no colégio. Estão ansiosos. O que querem saber? “Queremos saber tudo sobre Agostinho Neto e desvendar o que está dentro daquele memorial. Queremos saber mais sobre a família de Agostinho Neto”, diz Jaqueline.
É a primeira vez que os três visitam o mausoléu. Estão vestidos de calções amarelos e uma camisola azul com gola amarela. Alícia tem informações oportunas que lhe foram ensinadas pelo professor antes da visita. Sabe de cor que o memorial foi construído em memória do primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto.
Enquanto elas conversam com o repórter, Vidinha solta o seu sentido de humor para os alunos lembrarem as explicações dadas antes da visita. Sussurra nos ouvidos dos meninos.
Jaqueline tem vestes diferentes dos demais. Veste um vestido preto pintalgado. Olha o professor ao lado antes de responder. Em número reduzido de palavras, diz-se ansiosa para ver os  objectos do primeiro Presidente de Angola.
O grupo recebe luz verde para  iniciar a visita.  O grupo de crianças do jardim de infância já está  no interior.
Ao todo, são 92 alunos deste colégio que visitam o espaço. Samuel é o primeiro da linha. A fila está desalinhada. A atenção dos meninos está apenas virada para a visita. O piso de betão recebe uma tinta cinza ainda fresca.
Mário Vidinha diz que as visitas ajudam os alunos a perceberem melhor a matéria dada pelos professores, por isso os alunos do seu colégio, sobretudo nas datas comemorativas, organizam actividades extra-escolares.
O lugar é aconchegante. Observa-se no interior vários grupos de crianças acompanhadas pelos professores, mas atentos aos cicerones. Todos saem providos de algum conhecimento sobre a História de Angola. Cruzam-se grupos de visitantes pelos corredores e escadas. Todos falam alto. A conversa é, muitas vezes, interrompida devido ao som ensurdecedor de crianças, que depois das explicações brincam e gritam. Próprio da idade.

Perpetuar Neto
O mausoléu recebe muitos visitantes. É visível. E neste mês, a presença de visitantes é maior. Razão: é o mês dedicado ao Herói Nacional.
Rigoberto Fialho é chefe de Departamento do Sarcófago.  Conhece bem os cantos do mausoléu, por isso assevera ser o mês de Setembro o mais concorrido.  Acrescenta que as instituições, sobretudo escolares, procuram visitar o memorial e prestar mais uma homenagem ao guia imortal.
“É um motivo de satisfação a presença de pessoas, porque aumenta o nível de conhecimento que a população em geral tem sobre Agostinho Neto”, acrescenta.
O memorial tem todas as condições para os visitantes saberem de tudo. O objectivo é perpetuar e preservar a vida e obra de Agostinho Neto.
No mês de Setembro, o memorial recebe 300 pessoas em média, por dia. Nos outros meses, o número vária entre 150 e 200 pessoas por dia. Anualmente, são cerca de 27 mil visitantes que percorrem todas as áreas do mausoléu.
Na visão de Rigoberto, o número de visitantes é bom, mas, ainda assim, o memorial quer mais, para que as pessoas conheçam melhor a vida e obra de Agostinho Neto.
O número de visitantes vindos das outras províncias ainda é reduzido.
“Temos de fazer mais, para podermos transmitir e divulgar ainda mais que o mausoléu está aberto ao público”, alertou.
A primeira pedra para a construção do memorial do guia imortal da revolução angolana e fundador da Nação  aconteceu no dia 17 de Setembro de 1982, três anos depois da sua morte. A sua inauguração aconteceu 30 anos depois, ou seja, a 17 de Setembro de 2012.
O centro fulcral da visita tem sido o sarcófago. O lugar acolhe o corpo de Agostinho Neto. O memorial tem espaço didáctico e cultural, salas de conferência e um museu que acolhe o espólio, ou seja, alguns objectos pessoais do patrono. Entre os objectos, dá-se a observar o fato da investidura, o fato usado durante a proclamação da independência e livros enquanto estudante de Medicina. Há uma biblioteca multidisciplinar, onde estão as obras de Agostinho Neto, um teleporto com uma biblioteca digital com acesso livre para as pessoas poderem pesquisar os poemas de Agostinho Neto. Nos computadores, os visitantes têm acesso às informações todas de Neto, vídeos, fotografias, discursos, arquivos e acesso livre à internet.
Nas paredes do memorial, há estrofes de poemas de Agostinho Neto, alguns na  íntegra.  O memorial tem seis salas disponíveis com capacidade para receber 25 alunos,  para as escolas poderem consolidar as suas aulas.
O número de turistas estrangeiros que visitam o memorial tem vindo a aumentar. Os cruzeiros que passam por Luanda escolhem o mausoléu como uma paragem obrigatória. Em média, 100 estrangeiros visitam mensalmente o Memorial Agostinho Neto. “É bom e quer dizer que a dimensão de Neto já transborda as nossas fronteiras”, acredita Rigoberto Fialho.
As portas são abertas para todas as idades, mas são alunos de escolas primárias que mais afluem ao espaço. A média de idades da maioria dos visitantes situa-se entre os dez e os 25 anos. Hoje, os estudantes universitários já visitam mais o memorial. Alguns estudantes das faculdades de Ciências Sociais e Letras têm recebido contribuições do memorial para a conclusão dos seus trabalhos de pesquisa sobre a vida e obra de Agostinho Neto. Já existem trabalhos de dissertação produzidos com o apoio do memorial.
Rigoberto Fialho explica que, além de acolher os restos mortais, o espaço é cultural e de reflexão, onde as pessoas podem fazer pesquisas.
Outras envolventes estão na Praça da República com uma estátua de Agostinho Neto e um pioneiro da OPA- Organização de Pioneiro Angolano, que simboliza o dia da independência, 11 de Novembro de 1975.
Rigoberto explica que muitos conhecem a dimensão política, mas não a poética e humanística, daí a promoção de palestras que falam sobre Agostinho Neto. Desta feita, está prevista, para 4 de Outubro, a realização de um colóquio sobre a dimensão cultural de Agostinho Neto.

O espaço
Com uma área de 18 hectares, o memorial tem um bloco central que comporta o sarcófago, onde repousam os restos mortais de Agostinho Neto, museu, galeria de exposições, salas multiuso, administração, biblioteca/videoteca, biblioteca multimédia, centro de documentação, uma área de tribuna com dois mil lugares e parque para 300 viaturas.
O projecto arquitectónico do memorial tem duas grandes naves, com mais de 60 metros de extensão e no seu centro está erguida uma torre com cerca de 120 de altura.
O memorial tem toda a bibliografia de Agostinho Neto, documentos, material fotográfico, textos e cartas, em formato digital para estudiosos e jovens. O mausoléu conta com  sete guias, um número insuficiente.

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O memorial tem uma área pedagógica infantil. São quatro oficinas pedagógicas, que contemplam diferentes faixas etárias. As crianças compreendem a história por intermédio de ilustrações.
Samuel, Chelsia e Jaqueline fazem perguntas comuns tal como a maioria das crianças que visitam o memorial. Todos querem saber os nomes dos filhos de Agostinho. Perguntam sobre a viúva e as razões da existência do sarcófago. Uma pergunta menos importante que as crianças fazem é saber sobre as razões da construção do memorial. Enquanto uns entram, outros saem. Eriacline Pacavira tem 13 anos, já  Leonilde Chicape, Gracieth Touray e  Horácio Francisco têm 14. São alunos da oitava e nona classes no colégio Turma da Bibi. A visita chegou ao fim. Estão recolhidos na bancada para avaliarem conjuntamente com os professores o grau de percepção que tiveram, antes do lanche. A escola dividiu os alunos em diferentes grupos e, desde a semana passada, visita o memorial.
Eriacline está pela segunda vez no mausoléu. Conta que  ficou impressionada com o sarcófago e a fotografia da família de Neto. Vai para casa com os nomes dos filhos de Agostinho Neto na memória. 
Leonilde é franzina e com a visão suportada por óculos. Diz que aprendeu  a forma como Neto liderou a luta de libertação nacional. Com calças azuis e camisola castanha, Horácio folheou o caderno que tinha nas mãos para recorrer às anotações. Lê-se, em letras miúdas numa das folhas, que Neto estudou Medicina; nasceu em 1922 e foi casado com Maria Eugénia Neto.

 

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O presidente do Conselho de Administração do Memorial Dr. Agostinho Neto, Jomo Fortunato, afirmou ser necessário motivar os estudiosos nacionais e estrangeiros, sobretudo jovens,  a fazerem investigação da vida, obra e percurso político de Neto.
De acordo com o entrevistado, o memorial tem um projecto de investigação dos discursos de Agostinho Neto, um campo muito pouco visitado. “Há mais estudos sobre as obras poéticas, mas podemos fazer estudos sobre a contextualização dos seus discursos políticos”, acrescentou. O memorial vai editar, em breve, a revista Manguxi, que vai congregar investigadores e estudantes dos cursos de Letras, Sociologia e História da Universidade Agostinho Neto, para colaborarem nesta revista.
“Pretendemos que seja uma revista de prestígio e de referência para os estudos da vida e obra de Agostinho Neto”, disse, para sublinhar que a publicação, que aguarda por apoios financeiros,  vai ser bilingue (português e inglês).
O memorial instituiu um prémio literário que, embora relacionado com Agostinho Neto, é uma homenagem a Maria Eugénia Neto.
O poema “Um Buquê de Rosas” foi escrito por Neto e dedicado a Maria Eugénia Neto. O concurso é aberto às mulheres e a vencedora será anunciada no mês  Março, altura que Maria Eugénia faz anos. Os poemas devem ser entregues até dia 30 Novembro.
Jomo Fortunato revelou que o memorial está a elaborar um programa semestral de visitas com as escolas públicas e privadas, com o objectivo de divulgar o percurso de Neto.

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