Reportagem

Obras da estrada Luena/Cameia em estado de abandono

Samuel António | Luena

As obras de requalificação da referida estrada intermunicipal tiveram início em Outubro de 2014, com um prazo contratual de 24 meses, mas devido a problemas financeiros, paralisaram em 2015 e reto­maram em Maio de 2016.

Fotografia: Edições Novembro

A estrada Luena/­Le­ua­/Lumeje Cameia está inserida no “Corredor do Lobito” e foi concebida para interligar todas as localidades por onde passa a linha ferroviária do Caminho-de-Ferro de Benguela. 
Ao invés de trazer benefícios, a obra só deixou sinais de escavações nas bermas e a colocação da camada de sub-base num troço de mais de 40 quilómetros dos 102 previstos, causando mais dificuldades na circulação.             
O então ministro da Construção, Waldemar Pires Alexandre, na sua última visita a estas obras em Junho de 2016, sublinhou que as mesmas constavam do Programa de Investimentos Públicos (PIP) e que, no âmbito do Orçamento Geral do Estado (OGE) para 2016, tinha sido reservado para a província do Moxico, um total de 12 mil milhões de kwanzas destinados a projectos sociais, como a construção de casas e a mesma verba, assegurou, permitiria a conclusão das obras das estradas Luena/Le­ua /Cameia/Luzi/Cassamba/ Cangamba, municípios dos Luchazes.
Face a este pronunciamento do ex-ministro, os cidadãos mais atentos com o que se passa nos meios de comunicação questionam onde foram parar estes milhões de kwanzas que o então governante garantiu para terminar as obras desta empreitada?
As declarações do Walde­mar Pires Alexandre, segundo as inquietações dos cidadãos, foram feitas com base nas verbas existentes, e não por uma previsão orçamental o que descarta qualquer possibilidade de existir outros pretextos para o abandono das obras.   
 No que toca à construção de casas sociais que o ex-ministro da Construção referiu, e segundo os dados que o Jornal de Angola obteve de fontes ligadas à empreitada, a empresa Kora tentou desenvolver em 2013, no bairro social da juventude arredores da cidade do Luena, um projecto de construção de três mil apartamentos, que numa primeira fase deviam ser concluídos 425 apartamentos até Março de 2015. O projecto nasceu de um consórcio entre a Sonangol Imobiliária e Propriedades com 52 por cento das acções e o Grupo LR, com 48 por cento. A em­preitada nem sequer atingiu cinco por cento de execução física. Durante a execução das obras foram erguidas apenas algumas paredes dos referidos edifícios, daí a obra já não teve pernas para andar, deitando assim por terra o tão almejado sonho dos habitantes de ter alguma moradia numa centralidade, como acontece em outras províncias. 
Hoje, o local é confundido como uma muralha em ruínas e tornou-se um autêntico refúgio dos meliantes que usam os seus edifícios inacabados para cometimento de crimes, principalmente na calada da noite.           
Falando sobre a requalificação da Estrada Lue­na­/Leua/Cameia, Pedro Calessa, estudante, disse não entender que uma obra retomada em Maio de 2016, com garantias de recursos financeiros disponíveis para a sua conclusão, fique abandonada do jeito como ela foi sem qualquer explicação. 
Em entrevista ao Jornal de Angola, o jovem que frequenta o curso de contabilidade e gestão na Escola Superior Politécnica do Luena, sublinhou que, apesar de ter havido a mudança de governador e do ministro das Obras Públicas, uma explicação deve ser dada para se saber exactamente onde foram aplicadas estas avultadas somas de dinheiro, que serviriam para execução de várias obras sociais para o bem-estar das populações. 
Pedro Calessa disse que, na véspera das eleições, assistiu a inauguração de muitas estradas em algumas províncias do país, situação que não aconteceu, segundo ele, com a província do Mo­xico, onde se pode ver muitas obras de estradas ini­ciadas, mas em estado de abandono.
As obras já levam mais de um ano desde que elas foram paralisadas. O estaleiro que foi construído para apoiar os trabalhos de requalificação na localidade de Sachifunga, 16 quilómetros a Leste da cidade do Luena, está completamente desabitado.
Cidadãos que tinham sido contratados no local, para trabalhar na conclusão da estrada, estão desapontados com a má atitude dos responsáveis da empresa que, além de abandonar a obra, deixaram os trabalhadores sem os seus salários.
Serafim Muloweno disse que tinha um contracto de trabalho de 12 meses, com início em Maio de 2016, mas antes do seu término, foi interrompido alegando falta de verbas para a continuidade dos trabalhos.      
Moisés Cateta Lemos, professor do Sachifunga, local onde a empresa colocou um estaleiro para facilitar o andamento das obras, afirmou que a intervenção nesta via, invés de trazer benefícios aos utentes, pelo contrário provocou mais embaraços ao trânsito.
O jovem, que frequenta diariamente a via até a comunidade onde lecciona no ensino primário, lembrou que antes das obras, o troço oferecia alguma mobilidade, mas hoje, devido à camada de areia que foi posta no antigo tapete, inviabilizou a circulação principalmente nesta época chuvosa.
“Esta estrada criou mais lodo que outra coisa, porque a terra vermelha que colocaram por cima provocou dois problemas: primeiro levanta muita poeira no tempo seco e na época chuvosa cria muita lama”, lamentou o nosso interlocutor.   
Para o soba Calufelo Sa­chifunga, o abandono das obras da estrada veio dificultar mais ainda a vida da população e apela as autoridades no sentido de encontrar mecanismos para reverter o actual quadro e acabar com o sofrimento de milhares de pessoas que usam aquela via para atingir outras localidades.
Aquela autoridade tradicional afirmou que, qualquer iniciativa do governo provincial deve visar o bem-estar da população e não criar mais problemas, além daqueles que já existem, como argumentou.             
“Esta obra a princípio trouxe alguma esperança para a população, dada a importância que a via tem na circulação de pessoas e bens e nas trocas comerciais entre a cidade e o campo”, sublinhou aquela autoridade tradicional que apela o actual governador a manter contactos com as estruturas afins, com vista a retomar as obras naquele troço.    
Leua e Cameia são dois municípios importantes na estratégia do Executivo sobre a diversificação da economia, por constituírem grandes pólos de desenvolvimento agrícola na região, dada a fertilidade dos seus solos e encantos naturais existentes. 
Nestas regiões estão localizados o Parque Nacional da Cameia, e a Lagoa do Ca­lundo, as quedas do Chafin­da, algumas das referências incontornáveis para o desen­vol­vimento do turismo na província do Moxico.     
Henriques Sapalo é agricultor no município do Le­ua. Para ele, a reabilitação da via iria garantir mais fa­cilidade de escoamento e evitaria a deterioração de pro­dutos a partir das zonas de produção.   
Em declarações a este jornal, Henriques Sapalo disse que, apesar de as sedes destes municípios estarem localizadas nas encostas do Caminho-de-Ferro de Benguela, o transporte rodoviário é es­sencial para o escoamento rápido de produtos perecíveis como o caso do tomate e outros legumes.
 A província do Moxico tem cerca de 3.744 km da rede fundamental de estradas, além de 4.327 secundárias e terciárias. O programa de reabilitação e melhoramento de estradas no Moxico permitiu, até aqui, a conclusão total dos troços Luena/Lucusse/Luzi Luena/Kamanongue, Kamanongue/Dala, numa distância de mais 300 quilómetros de estrada.
O programa de construção e reabilitação das estradas na província do Moxico, segundo os dados do INEA, contemplava para  2014, a execução de  338 quilómetros entre estradas secundárias e terciárias, o que permitiria a maior comunicação com diversas localidades da região.
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