Reportagem

Okavango Zambeze reúne a maior população mundial de elefantes

Osvaldo Gonçalves |

O anúncio feito na semana finda, em Luanda, pelo director do Projecto Transfronteiriço Turístico Okavango Zambeze (ATFC KAZA), Rui Lisboa, sobre a presença na região de 250 mil elefantes, a maior população destes paquidermes no Mundo, tanto pode ser celebrado como prova do regresso e sucesso na reprodução das manadas com o fim do conflito armado em Angola, como pode também servir de chamariz à caça furtiva.

 

Fotografia: DR

O ATFC KAZA é uma iniciativa regional de Angola, Botswana, Namíbia, Zâmbia e Zimbabwe, todos estados membros da SADC. Ao falar durante o IX Conselho Consultivo do Ministério da Hotelaria e Turismo, Rui Lisboa destacou a grande variedade de animais, entre carnívoros e antílopes naquele projecto turístico, considerado um dos maiores santuários de vida selvagem do mundo, assim como as quedas de Victoria Falls e o Delta do Okavango, o maior “Ramsar” (Zonas Húmidas de Importância Internacional, em especial como habitat de aves aquáticas) do planeta.
Foi com base nessas potencialidades que os países membros decidiram transformar a ATFC KAZA numa área de conservação e destino turístico a nível mundial. Os três pilares essenciais do projecto são a protecção da biodiversidade, desenvolvimento do ecoturismo e a melhoria das condições de vida das comunidades.
Angola procura condições para criar as infra-estruturas básicas para a operacionalização dos parques nacionais de Luengue Luiana e Mavinga, mobilização do empresariado nacional e cursos de formação hoteleira para as comunidades.
A componente angolana do projecto corresponde a uma parcela de 90 mil quilómetros quadrados na província do Cuando Cubango, integrada pelos municípios do Cuito Cuanavale, Mavinga, Rivungo, Dirico e Nankova.
Como resultado de um acordo assinado a 18 de Agosto de 2011, em Luanda, pelos países membros, durante a Cimeira dos Chefes de Estado, o Tratado ATFC KAZA estabelece a área transfronteiriça de conservação Okavango Zambeze.

Tráfico de marfim


O levantamento feito permite observar que a região possui mais de metade do total de elefantes existentes em África, estimados em 415 mil efectivos. Só nos últimos 10 anos, o número destes paquidermes em África caiu em 111 mil unidades, sendo que a cifra actual é a mais baixa desde há 25 anos.
Um relatório da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) divulgado em Joanesburgo, África do Sul, em Setembro do ano passado, aponta o dedo ao aumento da caça furtiva. “O grande aumento da caça furtiva que começou há cerca de uma década, e que é o pior registado em África desde os anos de 1970 e de 1980, é a principal causa deste declínio” da população de elefantes, referiu a UICN.
A população de elefantes na África caiu 20 por cento em nove anos, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) num relatório divulgado na Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e Flora Selvagens em Perigo de Extinção (Cites), em Joanesburgo, África do Sul.
Especialistas consideraram, na ocasião, que a caça e o comércio ilegal de marfim representavam as ameaças mais graves aos elefantes no continente. A contagem feita nessa ocasião era de 415 mil elefantes em África, número inferior aos mais de 500 mil da última apuração, realizada em 2006. A população de elefantes cai oito por cento a cada ano. O Grande Censo de Elefantes conferiu o efectivo em 18 países. Em Angola, foram contados 3.395 elefantes, com uma taxa de 30 por cento de carcaças, o que indica aumento da caça ilegal. Desde 2005, a população de elefantes no nosso país caiu 22 por cento.
O coordenador do grupo técnico da Unidade de Crimes Ambientais do Ministério do Ambiente, José Rodrigues, disse em Junho do ano passado por ocasião do 5 de Junho, Dia Mundial do Ambiente, que a caça tem uma vertente comercial e de origem criminosa, pelo facto de o marfim do elefante, tal como o chifre de rinoceronte,ter um valor comercial e gastronómico.
O responsável referiu que alguns cidadãos (angolanos e estrangeiros) que se deslocam a Angola, fazem-no na perspectiva de encontrar peças de marfim para traficar no mercado internacional. “A caça furtiva, o comércio e o tráfico de marfim em Angola é um fenómeno complexo, porque  há 20 anos, num  período de conflito, o tráfico de  marfim não tinha tanta relevância  como tem hoje”, disse o responsável.
Com o fim da guerra, as populações humanas aproximaram-se das zonas onde se encontram  concentrados os animais. Os homens foram ao encontro da vida selvagem e começaram a fazer novas opções, uma das quais é a caça furtiva.
Ao contrário do que se fazia há 20 anos, em que se caçava apenas  para a sobrevivência  das comunidades, passou a fazer-se para obter e comercializar marfim.

Angola é rota de passagem

A Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES) apontou Angola como um país  a ser seguido. Nos últimos anos, as apreensões de marfim  nos aeroportos internacionais, na Ásia e no ocidente, apontam Angola como país de proveniência desse produto da fauna  selvagem.
“Os traficantes de marfim utilizam Angola como rota de passagem e a razão que faz esses traficantes optarem pelo território nacional é a vulnerabilidade que se assiste nas nossas fronteiras terrestre, aeroportuária  e  marítima”, avançou o técnico.
O país criou,em 2015,a  Comissão Interministerial contra os  Crimes  Ambientais, encarregada de recolher informações  pertinentes e realizar um estudo sobre o fenómeno  da caça furtiva em Angola e suas incidências na  vida  social.
A ministra do Ambiente, Fátima Jardim, assegurou em Fevereiro, no Menongue, que a caça furtiva no país e, em particular, no Cuando Cubango havia diminuído de modo considerável, fruto da fiscalização em curso.
A governante afirmou que esta estratégia foi e continuará a ser um desafio do Governo angolano. “Todos nós devemos estar empenhados para podermos colaborar naquilo que é acabarmos com a caça furtiva ou ilegal em Angola”, disse. A ministra reiterou que o Governo angolano está empenhado em acabar com a rota ilegal do marfim no país.

Protecção das espécies

O combate à caça ilegal e a conservação da natureza, de um modo geral, têm mobilizado, de certa forma, a sociedade angolana. A perseguição aos elefantes é a que mais chama a atenção, mas outras espécies, algumas das quais ameaçadas de exitinção, continuam na mira dos caçadores pelas mais diferentes razões. Embora Luanda seja apontada como referência para a venda de animais selvagens vivos, nomeadamente macacos, para serem criados como bichos de estimação, além de troféus, com realce para os felinos, regista-se uma grande presença de exemplares mortos nos mercados rurais e estradas ao redor da capital.
Nas redes sociais, são recorrentes os relatos, em jeito de denúncia, de pessoas confrontadas com a venda de animais vivos. Os macacos são os mais frequentes, entre os quais algumas espécies raras, e outros animais ameaçados de extinção como o pangolim.
Com o alargamento das cidades e o surgimento de novas centralidades dá-se a invasão pelo homem de zonas que são o habitat natural de várias espécies de animais selvagens. É, pois, natural que pequenos felinos, como gatos selvagens e linces, sejam avistados a rondar as novas centralidades, em busca de alimentos e presas fáceis, como animais domésticos, caçados ou simplesmente atropelados nas vias de circulação.
A ocorrência de acidentes é de certo modo compreensível, mas o mesmo não se pode dizer da caça de animais para venda, pelo capricho de se consumir a carne ou ter em casa um bicho raro ou exótico. A protecção da tartaruga gigante em Angola, através do projecto “Kitabanga”, desenvolvido pela Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto, é já uma referência internacional pela dedicação demonstrada pelos seus membros e pelos resultados alcançados.
Contudo, ainda se pode observar a venda de carapaças de tartaruga tratadas como peças de artesanato. Mais grave é a caça de espécies raras conhecidas pelo seu ar pacífico, sem a mínima razão, que não seja a ganância, como acontece com o manatim nos rios, lagos e lagoas ao redor de Luanda. Conhecido como “peixe-boi” ou “peixe-mulher”, esta espécie de herbívoro é de importância crucial para o meio em que vivem.
Embora a sua carne, que se diz saborosa e bastante nutritiva, seja consumida pelas populações das zonas ribeirinhas, a sua caça acontece, sobretudo, pela raridade e pelo misticismo criado à sua volta.

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