Reportagem

“Os bombeiros só têm hora de entrada e não de saída”

André da Costa

“Os bombeiros só têm hora de entrada e não de saída”.
Foram essas palavras que Albertina Chilombo, 36 anos, agente bombeiro de segunda classe, há 11 anos, descreveu o dia-a-dia dos efectivos do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros,  movidos pelo sentimento de “dar a própria vida para salvar vidas”.

Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

No Serviço  de Protecção Civil e Bombeiros existem várias especialidades, entre as quais  a de salvamento em terra,   altura e nos grandes edifícios, assim como  a de nadadores-salvadores, que actuam nas praias marítimas e fluviais.
Angola tem apenas uma escola de formação básica localizada, em Viana, onde foram  formados, até à data,  13 mil efectivos. A instituição tem como plano a construção de um Instituto Médio de Formação de Bombeiros, na Baía Farta, em Benguela, cuja execução das  obras está a 80 por cento, para formar mais efectivos.
Os bombeiros registam défice de equipamentos e infra-estruturas, mas, com os meios disponíveis, têm combatido os sinistros para os quais são chamados.
O porta-voz da direcção nacional do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros, Faustino Sebastião, disse que a questão dos efectivos há anos com a mesma patente está entregue ao sector de Recursos Humanos.  
Quando a reportagem do Jornal de Angola chegou ao Quartel Principal do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros, nos arredores do Largo da Independência, em Luanda, Albertina Chilombo, “já lá estava, durante 24 horas de serviço, e não sabia a que horas iria para casa”, disse, acrescentado que o marido já está habituado com o horário e a complexidade do trabalho que desenvolve.
Albertina Chilombo reside no bairro do Capolo 2, com marido e um filho. Levan-ta-se às 4h30, saí de casa às 5H00 e chega ao quartel uma hora depois.
A razão principal que a levou a alistar-se na corporação tem a ver com o facto de gostar de prestar auxílio às pessoas. Desde o dia que ingressou nos bombeiros, não teve grandes dificuldades de adaptação ao trabalho ali desenvolvido.
Após o ingresso na corporação, ela foi durante nove meses submetida a uma formação no Quartel Principal dos Bombeiros e outra na Escola Nacional de Formação de Bombeiros, em Viana, totalizando 18 meses.
De segunda a sexta-feira, ela recebe no quartel aulas de preparação combativa, com destaque para aspectos relacionados com atendimento pré-hospitalar, extinção de incêndios, resgate e salvamento.  "São aulas que ajudam os bombeiros a estarem sempre em prontidão para os casos de emergência", disse Albertina Chilombo.
A preocupação inicial, quando chega à unidade, Albertina Chilombo verifica os equipamentos em prontidão, concretamente a viatura de combate e ex-tinção de incêndio e seus acessórios, a utilizar em caso de saída, uma actividade que faz parte da sua rotina diária.
Desde que ingressou nos bombeiros, Albertina Chilombo participou em várias missões de extinção de incêndios em Luanda com sucesso, mas recorda, com tristeza, um, ao qual ela e colegas não chegaram a tempo e hora para salvar a vida de uma criança.
Albertina Chilombo atribuiu o fracasso à chegada tardia ao local, devido ao engarrafamento, aliado ao facto de a moradia se situar numa zona de difícil acesso.
Fora este percalço, Albertina Chilombo sente-se feliz por, diariamente, arriscar “a própria vida para salvar vidas” e bens de pessoas que precisam da intervenção dos bombeiros. 
Como reconhecimento à sua dedicação, Albertina Chilombo foi brindada pela direcção do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros com um certificado de mérito, além de elogios que recebe por parte de colegas e da po-pulação em geral, devido à dinâmica no desempenho das suas funções.

Albertina Chilombo está na corporação
há 11 anos 

 

Bombeiros apedrejados     


José Castelo já foi considerado
“bombeiro do mês”

Um dos momentos mais marcantes que o agente de segunda classe José Castelo viveu enquanto operativo do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros aconteceu quando foi apedrejado pela população, no Golfe 2, município do Kilamba Kiaxi, em Luanda, em plena actividade de socorro a vítimas de acidente de viação.
Eram duas horas da madrugada, quando a viatura de intervenção em que se encontrava José Castelo, chegou ao local do acidente, uma hora e meia depois de receber a comunicação,  através do número 115.
"Tivemos que subir rápido na viatura e saímos em busca de reforços, porque alguns populares, furiosos, tentaram agredir-nos. Voltamos depois ao local, onde fizemos o trabalho de salvamento das vítimas que se encontravam encarceradas no interior de uma viatura acidentada", contou  o operativo ao Jornal de Angola.
Por causa desse incidente, José Castelo alerta a população para a necessidade de entender os constrangimentos vividos pelos bombeiros no desempenho das suas actividades.
Para ele, é importante que se tenha em consideração os engarrafamentos, os buracos nas estradas e as dificuldades de acesso aos locais, constrangimentos que concorrem para os atrasos na chegada dos bombeiros.
O chefe das Operações do Quartel Principal dos Bombeiros, segundo subchefe Tomás Francisco,  confirmou o facto de muitos cidadãos apedrejarem os bombeiros por chegarem tarde ao local de sinistro.
Além de lamentar a situação, Tomás Francisco  disse que muitas vezes a população, em vez de ligar para a unidade mais próxima da área onde ocorreu o desastre, telefona para o 115, que é um terminal de emergência que atende todo o país, o que concorre para que as chamadas não sejam atendidas no momento, a julgar pelo fluxo de solicitações recebidas.
Actualmente com 32 anos, dez dos quais como elemento do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros, José Castelo vive no bairro Calemba II com mulher e filho. Por pensar na segurança e saúde das pessoas, José Castelo decidiu ingressar no Serviço de Protecção Ci-vil e Bombeiros.
Quando se desloca à unidade, José Castelo parte consciente da necessidade de cumprir missões operativas e procura sempre colocar em prática os conhecimentos técnicos adquiridos.
Depois de render os colegas que passam a noite no quartel, faz a distribuição do pessoal que vai para o terreno fazer atendimento pré-hospitalar, extinção de incêndios e socorro a vítimas de acidentes de viação.
José Castelo diz que a intervenção em acidentes de viação  com vítimas encarceradas no interior de viaturas “requer uma especial preparação para que ,no terreno das operações, o trabalho  seja feito com rapidez e eficácia”.
Em Novembro do ano passado, José Castelo recebeu um certificado de mérito por ter sido considerado o “Bombeiro do Mês”, distinção atribuída a operativos do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros destacados no exercício das funções.
A este reconhecimento, juntam-se outros certificados entregues pela direcção da corporação, no âmbito do Dia Nacional do Bombeiro, assinalado a 30 de Novembro.

Efectivos estão sempre em prontidão para qualquer eventualidade


Os bombeiros são treinados para salvar
vidas sem olhar aos riscos que a profissão acarreta 

À entrada do Quartel Principal do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros, nas imediações do Largo da Independência estão afixadas duas estátuas,  uma de um operativo a transportar uma criança ao colo, que precisa de atendimento médico, e outra é de um elemento com uma mangueira nas mãos a extinguir um incêndio.
São imagens simbólicas que explicam por si só a importância do trabalho realizado pelos "soldados da paz",  que, diariamente, "dão a vida para salvar vidas", sem olhar para os riscos que a profissão acarreta.
O Quartel Principal do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros, cujas paredes estão pintadas a vermelho e branco, tem um quintal vasto, com várias viaturas pesadas e ligeiras estacionadas para qualquer eventualidade.
Dos meios disponíveis naquela unidade contam-se três viaturas de combate a incêndios em instalações eléctricas, oito para resgate e salvamento e sete para combate a incêndios urbanos e florestais,
Ao lado destes, estão quatro ambulâncias, que só saem à rua com um médico para acudir situações diversas, oito motorizadas para atendimento pré-hospitalar e seis motorizadas de quatro rodas para terrenos arenosos.    
 Os efectivos de várias especialidades estão em prontidão e à espera por uma eventual chamada para intervir em acidentes de viação e incêndios em moradias no casco urbano e na periferia.

O dia-a-dia dos bombeiros


Tomás Francisco é chefe das Operações
no Quartel Principal dos  Bombeiros   

Com 14 anos de actividade, o chefe das Operações do Quartel Principal dos Bombeiros, segundo subchefe Tomás Francisco, assegura que a unidade tem meios para dar resposta aos vários sinistros em Luanda e disse serem os engarrafamentos a causa da chegada tardia aos locais de acidente, "mas a sociedade não entende esta parte".
"A falta de vias de emergência nas principais avenidas, ruas sem nome, bairros periféricos de difícil acesso, construção desordenada, ausência de bocas de incêndio nos bairros e automobilistas que não dão prioridade às viaturas dos bombeiros complicam a nossa actividade", referiu o chefe das Operações.  
A movimentação de uma equipa e os respectivos meios acontece em função de uma ligação para o número de emergência 115, recepcionada na Sala Operativa,  que notifica o quartel mais próximo do local onde se regista o sinistro. As equipas são agregadas por especialidades, nomeadamente extinção de incêndios, atendimento pré-hospitalar, resgate e salvamento, com nadadores salvadores.
Há também elementos talhados para neutralizar animais que colocam em perigo a vida humana, assim como  condutores que conduzem na via pública em estado de embriaguez.
Diariamente, o Quartel Principal dos Bombeiros, localizado junto ao Largo da Independência, recebe dez chamadas telefónicas de ocorrências diversas. O Serviço de Protecção Civil e Bombeiros  tem unidades espalhadas por toda a província de Luanda. 

Planificada formação média

No Serviço  de Protecção Civil e Bombeiros existem várias especialidades, entre as quais  a de salvamento em terra,   altura e nos grandes edifícios, assim como  a de nadadores-salvadores, que actuam nas praias marítimas e fluviais.
Angola tem apenas uma escola de formação básica localizada, em Viana, onde foram  formados, até à data,  13 mil efectivos. A instituição tem como plano a construção de um Instituto Médio de Formação de Bombeiros, na Baía Farta, em Benguela, cuja execução das  obras está a 80 por cento, para formar mais efectivos.
Os bombeiros registam défice de equipamentos e infra-estruturas, mas, com os meios disponíveis, têm combatido os sinistros para os quais são chamados.
O porta-voz da direcção nacional do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros, Faustino Sebastião, disse que a questão dos efectivos há anos com a mesma patente está entregue ao sector de Recursos Humanos.

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