Reportagem

País renova aposta no café

Isidoro Natalício| Ndalatando

Manuel Castro Paiva, 88 anos, vive no sector de Cacanga, no município do Golungo Alto, Cuanza-Norte e dedica-se principalmente à agricultura. Um dos maiores produtores de café na província, tem uma fazenda de 150 hectares, mas apenas metade está a ser efectivamente explorada.

Fotografia: DR

A campanha nacional de colheita começa hoje, mas Castro Paiva começa a colher o produto apenas no próximo mês,  por razões organizativas. Na sua situação estão muitos agricultores. Este ano conta obter 10 toneladas. “Há épocas em que colhemos 30 toneladas, há outras menos, depende da quantidade de chuva que cai”, disse.
As autoridades angolanas fixam para as famílias camponesas 280 quilos por hectare, mas Castro Paiva afirma  que obtém apenas 133 quilos por hectare. O quadro sombrio da produção de Castro Paiva reflecte a realidade de todos os agricultores que se dedicam à produção de café.
A abertura da campanha  é uma oportunidade para o Ministério da Agricultura re-flectir sobre a necessidade do relançamento da produção do café, que no passado foi um dos suportes da economia nacional. O acto será presidido pelo secretário de Estado para as Florestas, André Moda, numa das fazendas da Gabela, província do Cuanza-Sul e contará com a presença de produtores, famílias camponesas, representantes do Fundo das Nações Unidas para Agricultura (FAO)  e técnicos do sector.
O evento foi antecedido do  Encontro Técnico  do Instituto Nacional do Café (Inca),  que abordou temas como produção de mudas de café,  multiplicação vegetativa, gestão de uma unidade de óleo de palma e metodologia de recolha de dados estatísticos.
O encontro, que decorreu sob o lema  “Café, palmar e cacau uma aposta para o desenvolvimento económico de Angola”, debateu também o fomento da cultura de cajú,  dentre outras questões.

Perspectivas
Este ano, espera-se que sejam produzidas no  Cuanza-Norte 550 toneladas, 70  toneladas no Bengo e 20 toneladas em Cabinda. Maiores expectativas se colocam ao Cuanza-Sul com 3.510 toneladas e Uíge repete as 1600 toneladas.
No geral estão projectadas nessas regiões 5.680 toneladas de café robusta e 160 toneladas de café arábica, sendo 90 toneladas no Bié, 10 no Huambo e 60 toneladas em Cassongue (Cuanza-Sul). Esta produção representa  mais 150 toneladas em relação à época passada.
Tais indicadores estão longe da realidade do ano 1973 quando Angola tinha 525 mil hectares plantados. Na altura, o rendimento foi de 400 quilos por hectare, com uma produção total de 230 mil toneladas, convertendo-se no maior produtor de África e o terceiro do mundo, só superado pelo  Brasil e Colômbia.
Na altura, o sucesso baseou-se na criação de lojas de venda a grosso, hospitais e escolas próximo dos produtores. As fazendas tinham estradas eficientes e havia facilidades de processamento.  Segundo um relatório da multinacional NESTLÉ, além disso, os grandes agricultores recorriam ao uso de agroquímicos.

Crise produtiva
A redução da produção cafeícola iniciou em 1975 com o abandono das fazendas pelos portugueses e posterior nacionalização das mesmas, que resultaram na criação de 33 empresas estatais, que tinham como principais funções a gestão das plantações.O relatório indica ainda que as empresas territoriais de café então criadas tiveram debilidades de gestão por inexperiência do pessoal e insuficiência de matéria-prima. O climax da crise aconteceu entre 1985 e 2002 devido à guerra civil que provocou um novo abandono das fazendas, ausência de capina e outros procedimentos agrotécnicos.
Aconteceu também a destruição e avarias dos sistemas de descasque, máquinas agrícolas, bem como das infraestruturas de apoio, como hospitais, lojas, sistemas de água e estradas.
Com produção residual e valor comercial nulo, acrescenta o documento, vastas extensões de café começam a ser substituídas por culturas de subsistência como a banana, batata-doce  e  mandioca. “ Era a a luta pela sobrevivência, face a perda de valor comercial do café”, afirma Cândida José, camponesa, 64 anos.

Soluções pontuais
O país carece de programas abrangentes, mas sobretudo de dinheiro para financiar o relançamento da produção. O que está a acontecer são iniciativas isoladas, longe de recuperar as plantações existentes, bem como substituir o cafezal já velho, com mais de 50 anos de existência.
Manuel Castro Paiva é um exemplo. Por ano planta sempre que pode  2.000 cafeeiros, que depois ficam a depender da regularidade das chuvas. “Rega e capina, associada à falta de pessoal são as maiores dificuldades”, disse.
Para a recuperação do café robusta, o Governo chegou a implementar na Gabela, Cu-anza-Sul, um projecto-piloto denominado “Reabilitação das plantações de café abandonadas em pequenas unidades de produção familiar em Angola”, orçado em oito milhões e meio de dólares,  financiado pelo Executivo e a Comman Fund for Comodities (CFC) da Holanda.
O relatório refere que atribuíram-se parcelas de dois a cinco hectares a quatro mil agricultores. Beneficiaram de crédito bancário (dos quais 50 por cento não reembolsou) mais de dois mil produtores. Extensionistas e cientistas foram formados em vários aspectos da produção de café, processamento e marketing.
“Foi adquirido equipamento, incluindo kits de prova de café, de amostra de terra, tractores e outros veículos. O projecto-piloto terminou em 2013, o alcance foi muito limitado relativamente ao resto das áreas de cultivo, não foi ampliado para um programa maior de desenvolvimento do café.”, Lê-se no documento.
O café robusta tinha em 1973 uma área global de 496. 300 hectares, com rendimento de 407 quilos por hectare e hoje cultiva-se cinco por cento, estando abandonado noventa e cinco.
Ao nível da arábica salien-ta-se a entrega recente de 300 mil mudas que podem satisfazer 150 hectares nas províncias do Bié, Benguela e Huambo. Os maiores entraves centram-se na existência de solos ácidos e ausência de fertilizantes.
Há 45 anos o país tinha rendimento de 265 quilogramas por hectare, 28.700 hectares plantados e agora se exploram cerca de cinco mil. O café arábica é usado como aditivo para melhorar a qualidade do robusta.
Outra barreira a ultrapassar é a idade dos cafeicultores. Os poucos em vida estão velhos (a volta dos 80 anos) e o surgimento de uma nova geração depende do impacto de políticas públicas para o sector.
 O café financiou maioritariamente a construção de cidades como Luanda, Uíge, Ndalatando e Waco-Cungo.

  Cuanza -Sul foi a mais produtiva

O relatório de balanço do Instituto Nacional do Café (Inca) re-ferente à campanha passada dá conta de que o país arrecadou um  1.289.909 dólares resultante da exportação de 714.300 quilos.
A província do Cuanza-Sul foi a mais produtiva com 3.510 toneladas de café robusta (comercial) e 60 de arábica, sendo Cabinda a menos produtiva com 18 toneladas de café comercial. Foram colhidas 97 toneladas de arábica nas regiões do Huambo e Bié. A produção total no país foi de 5.702 toneladas. A Organização Internacional do Café (OIC) revela que em Africa só um por cento da população consome café.
Até Maio de 2016 exportaram-se para Portugal, Espanha e Itália 746 toneladas, que na base do custo de 1. 800 dólares por tonelada se estima um en-caixe para o país no valor de 1.342. 800 dólares.

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