Reportagem

Percurso histórico do terceiro Chefe de Estado de Angola

Kumuênho da Rosa |

O Presidente eleito de Angola, João Lourenço, tem 63 anos, é Mestre em Ciências Históricas e general de três estrelas na reserva.

O agora Presidente da República de Angola com os pais
Fotografia: Edições Novembro | Arquivo

Casado com a economista Ana Dias Lourenço, antiga ministra do Planeamento, e pai de seis filhos, nasceu no município do Lobito, província de Benguela, em 5 de Março de 1954.
Membro do Bureau Político do MPLA, João Lourenço foi nomeado ministro da Defesa Nacional em 2015, e eleito para o cargo de vice-presidente do partido na sequência do seu VII Congresso Ordinário, realizado em Luanda, de 17 a 20 de Agosto de 2016. Na terceira reunião ordinária do Comité Central do MPLA, realizada a 3 de Fevereiro de 2017, em Luanda, João Lourenço foi indicado candidato do partido a Presidente da República. O Presidente eleito de Angola participou na primeira e segunda Guerra de Libertação Nacional, na segunda Região Político Militar, tendo desempenhado o cargo de chefe da Direcção Política Nacional das ex-FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola).
Posteriormente, exerceu as funções de 1.º secretário provincial do MPLA e de comissário (governador) das províncias do Moxico e de Benguela, respectivamente, de secretário para a Informação e Propaganda do MPLA, e posteriormente de secretário-geral do partido. Foi presidente da Comissão Constitucional da Assembleia Nacional,  presidente da Comissão Constitucional, membro da Comissão Permanente, presidente do Grupo Parlamentar do MPLA e 1.º vice-presidente da Assembleia Nacional.
João Lourenço é filho de Sequeira João Lourenço, enfermeiro, nacionalista da clandestinidade e prisioneiro político, natural de Malanje, e de Josefa Gonçalves Cipriano Lourenço, costureira, natural do Namibe, ambos já falecidos.
O sucessor do Presidente José Eduardo dos Santos fala inglês, russo e espanhol e tem como passatempos a leitura, o xadrez, e a equitação.
Sinais da transição
No princípio da tarde de hoje, logo a seguir ao acto solene de investidura do novo Presidente da República, José Eduardo dos Santos volta ao lugar aonde há 17 anos passou a dirigir o aparelho do Estado, deixando as suas impressões nos mais importantes momentos da história recente de Angola.
A paz efectiva, depois de 27 anos de guerra fratricida, a reconciliação nacional, a reconstrução das infraestruturas destruídas durante o conflito que abriu caminho para o relançamento da economia, e a afirmação do país no contexto regional e mundial, são apenas alguns das obras que compõem o legado de José Eduardo dos Santos, ao qual se junta a transição política pacífica e ordeira, por via de eleições.
No dia 23 de Agosto de 2017, os angolanos votavam nas quartas eleições da história do país. Desde a confirmação de João Lourenço como candidato a Presidente, em Fevereiro, José Eduardo dos Santos reduziu sobremaneira as intervenções públicas, deixando nas entrelinhas a decisão de deixar espaço para que seja outra estrela a bilhar. A ausência notada durante a campanha levou a várias interpretações, mas José Eduardo dos Santos manteve firme a sua decisão.
No dia da eleição, depois de depositar o boletim na urna, e já à saída da Assembleia de Voto, limitou-se a mostrar com um sorriso a ponta do dedo pintada de azul-escuro, sinalizando o voto da transição. Foi, pode-se dizer, um dos momentos de maior simbolismo no processo de transição política, pacífica e ordeira, que o próprio havia prometido há dois anos.
Em Junho de 2015, no meio de alguma tensão social devido aos efeitos da crise económica, José Eduardo dos Santos aproveitou uma reunião do Comité Central do MPLA para anunciar que não tinha a intenção de abandonar o barco naquelas circunstâncias e que levaria o mandato até ao fim.

Construir a transição

Nesta mesma reunião, falou abertamente da necessidade de se “estudar com seriedade” o que seria a “construção da transição” em Angola. “Em certos círculos restritos era quase dado adquirido que o Presidente da República não levaria o seu mandato até ao fim, mas é evidente que não é sensato encarar essa opção nas actuais circunstâncias”, afirmou.
Essa declaração, recorde-se, foi feita na abertura de uma reunião extraordinária do Comité Central, que tinha na agenda de trabalhos a preparação do Congresso ordinário do MPLA, que o reelegeu presidente do partido, com mais de 96,6% dos votos, para um mandato de cinco anos. No mesmo conclave foi confirmado João Manuel Gonçalves Lourenço, como número dois da hierarquia do MPLA, substituindo o veterano Roberto de Almeida.

Escolha de um sucessor

Nesta reunião, José Eduardo dos Santos não só falou da necessidade de se “estudar a transição” como chegou a sugerir a escolha do próximo candidato do MPLA a Presidente da República, antes da eleição do presidente do partido.
“Na minha opinião é conveniente escolher o candidato a Presidente da República, que é competência do Comité Central - órgão máximo entre congressos-, nos termos dos estatutos, antes da eleição do presidente do partido no 7.º Congresso ordinário”, assinalou.

Eleições e Democracia

Sinalizando claramente a indisponibilidade para um novo mandato, o líder do MPLA defendeu que o “estudo das soluções a equacionar” sobre quem deveria assumir a responsabilidade de ser o cabeça-de-lista da maior força política angolana nas próximas eleições, devia servir para “reafirmar o carácter democrático do partido e consolidar o regime democrático da República de Angola”.
Em Fevereiro deste ano, dois meses depois do Congresso em que foi reeleito presidente do MPLA, e já com João Lourenço como vice-presidente, José Eduardo dos Santos anuncia a decisão de deixar a vida política activa.
 “Em 2012, em eleições gerais, fui eleito Presidente da República e empossado para cumprir um mandato que nos termos da Constituição da República termina em 2017. Assim, eu tomei a decisão de deixar a vida política activa em 2018”, anunciou José Eduardo dos Santos, lembrando, para reforçar, que integrou o movimento anticolonial em 1960, quando tinha 18 anos, e chegou a membro da direcção do MPLA em 1974.

Coincidências à parte

Em tom de aviso, e já sinalizando algum paralelismo, o líder do MPLA recordou que assumiu o cargo de Presidente da República em Setembro de 1979, na “substituição necessária” do malogrado Presidente Agostinho Neto, antes de ser eleito presidente do partido. Coincidências à parte, José Eduardo dos Santos deixa a política activa em 2018, conforme o seu desejo, já com um novo Presidente da República eleito por voto popular.

 Líderes mundiais na tomada de posse

Vários Chefes de Estado
e de Governo estão em Luanda para a investidura hoje do terceiro Presidente de Angola. O primeiro a chegar, na manhã de ontem, foi o Chefe de Estado português, Marcelo Rebelo de Sousa.
Até ao final da noite estavam já em Luanda os Presidentes da Namíbia, Hage Geingob, de São Tomé e Príncipe, Evaristo Carvalho, da Guiné-Bissau, José Mário Vaz, de Cabo-Verde, Jorge Carlos Fonseca, da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, da  Zâmbia, Edgar Lungu, do Ruanda, Paul Kagame, da Costa do Marfim, Alassane Ouattara, e da África do Sul, Jacob Zuma, que é também o presidente em exercício da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).
Em Luanda, estão igualmente desde ontem o Vice-Presidente do Zimbabwe, Phelekela Mphoko, o ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Timor-Leste, Aurélio Guterres, além do primeiro-ministro da República Centro Africana, Simplice Mathieu.
A lista de convidados para a cerimónia de hoje integra ainda o Chefe de Estado russo, Vladimir Putin, a chanceler alemã Angela Merkel, a primeira-ministra britânica, Teresa May, além da Presidente do Parlamento espanhol, Ana Maria Julian. Da França, chega o secretário de Estado, Jean Batiste Lemoyne. Marcam ainda presença na cerimónia de investidura, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, o Vice-Presidente chinês, Chen Yuan, o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros do Japão, Masahisa Sato, o Chefe de Estado guineense e Presidente em exercício da União Africana, Alpha Condé e o presidente da Comissão da União Africana, Moussa Facki.
Outros convidados são o Presidente da República do Congo, Denis Sassou Nguesso, da República Democrática do Congo, Joseph Kabila, do Egipto, Abdul Fatah Khalil Al-Sisi, do Ghana, Akufo-Addo, e os primeiros-ministros do Tchad, Paihme Padacke Albert, da Etiopia, Hailemarian Desalegn Boshe, o ex-presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso.
A lista integra ainda o Vice-Presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel Bermúdez, o ministro do Mar, Água e Pescas de Moçambique, Agostinho Mondlane, em representação do Presidente Filipe Nyusi.
O enviado especial do Secretário-geral da ONU do Said Djinnit é outro convidado à cerimónia de investidura de João Lourenço, tal como o Presidente da República do Gabão, Ali-Bem Bongo, o Chefe de Estado da Tanzânia, John Pombe Magufuli.
Paulo Portas, ex-presidente do CDS-PP, António Martins da Cruz e António Monteiro, ambos embaixadores, bem como, a directora executiva do Banco Africano de Desenvolvimento, marcam presença na cerimónia de hoje, na Praça da República, em Luanda.



Tempo

Multimédia