Reportagem

Pescado processado com meios avançados

André dos Anjos |

Os produtos “made in Angola”  ganharam novos veículos esta semana, com a entrada em funcionamento da fábrica de processamento de pescado da Solmar, que passa a colocar no mercado, entre outros, hambúrgueres, filetes e postas de peixe, com esta marca.

A infra-estrutura contribui para a valorização e comercialização dos produtos nacionais
Fotografia: Domingos Cadência

A unidade fabril tem outras valências, como a valorização das espécies com baixa importância económica, a higienização do pescado e o aproveitamento dos resíduos.
A fábrica, com capacidade de processamento de 15 toneladas de pescado por dia, foi aberta, formalmente, na terça-feira, com a bênção do padre Antero Beji, a que se seguiu o corte de fita pela ministra das Pescas, Victória de Barros Neto. A cerimónia inaugural foi marcada por uma rara simplicidade. Por alguns instantes, a tribuna reservada às entidades oficiais é transformada em púlpito para permititir que o sacerdorte exerça o seu ofício.
A visita guiada pelo interior do edifício começa com um “workshop”.  Manuel Castro, o director da Solmar, fala da “anatomia da fábrica” para um auditório constituido por governantes, homens de negócio, jornalistas, autoridades tradicionais e religiosas.
Depois das explicações técnicas, parte para a recomendação dos cuidados a observar pelos interessados em conhecer as áreas de congelação, conservação, processamento e tratamento de pescado.
Aos interessados, são distribuidos equipamentos adequados às  condições térmicas e higiénicas pré-estabelecidas. A maior parte do equipamento é descartável. É depositado num balde de lixo logo à saída.
Localizada na rua dos Pescadores, em Cacuaco, a fábrica está dotada de equipamentos que permitem, para além da congelação, a limpeza e o corte de peixe em filetes e postas, através de duas linhas de processamento.
A sumptuosidade do equipamento não escapa ao “olhar clínico” do governador provincial de Luanda, presente na cerimónia inaugural. “Fiquei surpreendido com o que vi”, afirma  Higino Carneiro. O governador de Luanda é o segundo a intervir.
As primeiras palavras de Higino Carneiro são de “alguma surpresa pelo empreendimento acabado de inaugurar pela senhora ministra da Pescas”, começa por dizer. “É o primeiro com estas características que tive a oportunidade de ver”, confessa. “É o novo ex-líbris do sector das Pescas no país”, reforça.
 O primeiro discurso é de Elizabete Dias dos Santos. A administradora da Solmar lembra que a empresa é detida na totalidade por capitais angolanos e actua no sector pesqueiro, nas áreas de transformação e embalagem de pescado, há sensivelmente 20 anos.
 A empresária diz não ter dúvidas de que, se o país quiser tirar maior proveito dos sectores da pesca extractiva e da aquicultura, tem de apostar na dinamização e fomento de estabelecimentos industriais, como este que acaba de ser inaugurado, capazes de garantir competitividade aos operadores nacionais. “Entendemos, enquanto parceiros estratégicos do Executivo, que este é o caminho que nos levará a bom porto”, afirma a empresária, que defende uma maior aposta na exportação, ainda que de forma tímida.
Última a intervir, a ministra das Pescas diz tratar-se de uma infra-estrutura moderna, que vem enriquecer o parque industrial do sector das Pescas, no que toca ao processamento, transformação, distribuição e comercialização de pescado no país. A infra-estrutura “veio contribuir para a redução das perdas pós-captura”, que resultam da falta de condições higiénicas ou sanitárias para a conservação.

Programas dirigidos

O investimento, de acordo com a ministra das Pescas, enquadra-se perfeitamente no Plano Nacional de Desenvolvimento 2013-2017 e no Programa Dirigido de Produção de Pescado e Crustáceo, aprovado este ano pelo Executivo, com o objectivo de aumentar a oferta de pescado no mercado interno, potenciar as exportações e criar novos postos de trabalho. 
Orçada em cerca de 26 milhões de dólares, a infra-estrutura financiada pelo Banco Angolano de Investimentos (BAI) foi construída a meio da crise financeira que o país atravessa, o que alargou para quatro o prazo de dois anos, inicialmente previsto, para a conclusão das obras.
Elizabete Dias dos Santos, satisfeita com a inauguração da fábrica, afirma que “o mais importante não é o tempo que uma obra leva a ser executada, mas sim a sua concretização.”
“Acabar a obra é um marco, inaugura-la é um evento, mas mantê-la operacional, diariamente, é um desafio de todos nós”, alerta a administradora da Solmar, dirigindo-se aos seus colaboradores.
Elizabete Dias dos Santos assegura que a equipa que dirige vai dar o seu melhor para fazer com que o empreendimento contribua para a redução da fome, da taxa de desemprego e para a diversificação da economia.
A fábrica é um investimento da empresa com o mesmo nome, parte do grupo Diside. Até 2012, no lugar onde foi instalado o novo empreendimento, a companhia tinha uma unidade de congelação e conservação de pescado que a dada altura se revelou desajustada aos interesses do grupo.
Depois de uma série de ponderações sobre o destino a dar à mesma, “decidimos avançar para a construção de um novo empreendimento”, revela Elizabete Dias dos Santos.
Embora tenha presente esta função, a verdade é que esta fábrica não se limita a congelar pescado, pois,  tem capacidade para transformar e processar a matéria-prima das mais variadas formas e garantir o aproveitamento integral dos resíduos. Quem entende de pescas diz tratar-se de um nicho da indústria pesqueira nunca antes explorado no país. Um dos objectivos do Programa Dirigido para a Captura de Pescado é a maximização do aproveitamento de tudo o que é capturado. Da escama à espinha. E a  Solmar, de acordo com a ministra, oferece essas garantias técnicas. A capacidade de conservação de pescado no país é limitada, o que resulta em perdas pós-capturas consideráveis, como, aliás, reconhece a ministra.  Iniciativas como a da Solmar, seguramente, ajudam a reverter o quadro.
Dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) indicam que o país perde anualmemente cerca de trinta mil toneladas de peixe por insuficiência de meios de captura, sobretudo de conservação, situação contra a qual o Ministério tem vindo a lutar, apoiando todas as iniciativas tendentes a reverter o quadro.
Apesar da desaceleração do ritmo de crescimento do sector, em consequência do mau momento financeiro que o país atravessa, as metas estabelecidas para a pesca extractiva, no quadro do Progama Nacional de Desenvolvimento (PND) para o quinquénio 2013/­2017, de acordo  com a ministra , não estão ameaçadas.

Metas tangíveis

No âmbito do PND 2013/2017, o Executivo estabeleceu como meta a captura anual de 400.000 toneladas de peixe e de crustáceos, cifra que a ministra garante que vai ser alcançada este ano. “Se não atingirmos os objectivos do quinquénio, ficaremos muito próximo disso”, vaticina.
Em relação à aquicultura, sobretudo a produção da tilápia, as metas estão longe de ser alcançadas devido à escassez de cambiais para a importação de ração.
O Programa Dirigido para o Aumento da Produção e Promoção da Exportação da Tilápia 2016-2017 tem, entre outros, o objectivo de elevar para 30 mil toneladas a produção aquícola no país, até finais do próximo ano.
A estratégia do Executivo neste  sector vai no sentido de transformar o país, a médio prazo, de importador em exportador de tilápia. Dados da Direcção Nacional de Aquicultura indicam que, em 2015, Angola empregou mais de quatro milhões e trezentos mil dólares na compra dessa espécie no estrangeiro.
Estudos destinados a determinar o potencial aquícola do país concluíram que Angola tem excelentes condições para esse tipo de actividade, excepto na província do Namibe, onde a escassez de recursos hídricos, por causa do deserto, ­dificulta a prática da aquicultura. Desenvolvido pelo Ministério das Pescas, em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), o estudo, orçado em 200 mil dólares, consistiu no mapeamento das áreas com maior potencial para a aquacultura. O projecto foi coordenado por uma especialista nacional em parceria com peritos internacionais com vasta experiência no ramo, que realizaram um trabalho de campo em várias províncias, com a ajuda de produtores locais. “As áreas  identificadas permitem aos operadores desenvolver as suas iniciativas em locais apropriados”, concluíram os especialistas.
Fruto da crescente contribuição para a oferta de pescado no país, o Ministério das Pescas passou a incluir, desde 2014, os produtos aquícolas nas feiras internacionais que realiza anualmente em Luanda.
Este ano, a Feira Internacional das Pescas e Aquicultura, marcada para próximo mês,  decorre sob o lema “Pescas e aquicultura contribuindo para a riqueza nacional”.
Na edição anterior, participaram  70 expositores nacionais e estrangeiros ligados ao sector, sob o lema “Pescas e aquicultura maré de oportunidades”.
Os princípios de gestão das pescas e a abordagem dos ecossistemas, assim como  a importância da investigação na gestão sustentável dos recursos pesqueiros, incluindo a aquicultura  são temas sempre presentes neste tipo de eventos.
Por altura da aprovação do Plano Nacional de Desenvolvimento (2013/2017), as metas de produção anuais estabelecidas para a aquicultura eram de 60 mil. Devido à crise financeira, o Executivo reviu este ano as metas para metade.
A pesca extractiva e a aquicultura integram os 58 programas  dirigidos aprovados este ano pelo Executivo.  Por limitações financeiras, apenas 23 estão a ser executados, cinco dos quais no sector das Pescas.
Neste momento, segundo  apurou o Jornal de Angola, a maior parte dos aquicultores depende da ração importada, com todos os inconvenientes resultantes da escassez de cambiais no país.
O país já fez alguns investimentos no domínio de fabrico de ração para peixe, mas a produção nacional ainda não atingiu a qualidade e as quantidades necessárias para satisfazer a procura que aumenta à medida que surgem novos criadores. Para reduzir as importações, foi construída no município da Quibala, província do Cuanza Sul, uma fábrica de rações.
A entrada em funcionamento, em Maio,  da fábrica de processamento de farinha e óleo de peixe, no município do Tombwa, província do Namibe, era esperada com expectativa de ajudar a melhorar a oferta de rações, mas passados cinco meses a situação continua inalterada.

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