Reportagem

Pessoas recuperam do trauma

Victorino Joaquim |

Há quase cem anos, começaram os estudos sobre a depressão. Até hoje, esta doença continua a preocupar as autoridades sanitárias. Apesar da situação, vários são os pacientes que apresentam melhorias dos sintomas.

Directora da Psiquiatria Antónia de Sousa
Fotografia: José Soares| Edições Novembro

Em conversa com o Jornal de Angola, Maria João (nome fictício), 45 anos, fala do seu passado, quando sofria de depressão.
Há um tempo, disse Maria, as emoções interferiram no meu comportamento. Essa interferência foi aumentando aos poucos. Era quase imperceptível. Os conflitos com os pais e irmãos, referiu, eram constantes. Sempre atribuí esses problemas aos outros e às circunstâncias externas.
“Tudo começou quando tive o primeiro filho. Após o parto, na Maternidade Lucrécia Paim, comecei a sentir medo, insónia e não queria falar com quem quer que fosse, nem sequer aceitei pegar o bebé. Eu pensava suicidar-me”, afirmou.
Acrescentou: “Hoje, passado um bom tempo e tendo reconquistado uma boa parte do que perdi, incluindo o meu filho, compreendo que se tivesse iniciado mais cedo o tratamento que nestes últimos meses tive, eu teria recuperado mais cedo. Hoje, consigo controlar-me. Estou bem melhor”, conta  Maria João, com lágrimas nos olhos.
Marcelina Marcos (nome fictício), 25 anos, perdeu o pai aos 17 anos, num acidente de viação. Conta que, depois da morte do pai, viveu um bom tempo com depressão. Com quase todos os sintomas possíveis, desânimo, falta de apetite e mau humor, “eu era chamada de mimosa, pois só chorava, mas nunca falava com ninguém dos motivos de minhas dores. Só rejeitava, com raiva, quem viesse me consolar”, conta Marcelina.
Ela não aceitava nada, chorava muito. A mãe teve de deixar de trabalhar para lhe prestar cuidados. A mãe e os irmãos tentaram encontrar uma solução e levaram-na à igreja. Mas não deu certo. Ela continuava a chorar. Contra a vontade dela, os familiares fizeram de tudo um pouco, mas sem sucesso.
Um tio de Marcelina teve a iniciativa de levá-la  ao Hospital Psiquiátrico de Luanda. Ali, passou a ser assistida por uma psicóloga. “Passado algum tempo, Marcelina começou a mudar de comportamento. Deixou de chorar, já falava com os familiares, embora com alguma timidez. Hoje, Marcelina é esta pessoa que vocês vêem”, conta Domingas Marcos, irmã mais velha.
“Acredite. Estive muito mal. Pensei em suicidar-me. Graças a Deus hoje estou melhor”, reconheceu Marcelina.
A depressão atinge de 20 a 25 por cento da população. Isto significa que 20 a 25 por cento da população tem, teve ou pode ter um quadro de depressão ao longo da vida. Pode atingir qualquer pessoa e em qualquer idade, como explica Cátia Francisco, psicóloga em serviço no Hospital Psiquiátrico de Luanda.
Cátia Francisco explica que a depressão não tem nada relacionado com a pessoa de classe social alta, média ou baixa. “Todos estão sujeitos a serem atingidos pela doença, seja nas zonas urbanas ou suburbanas”, frisou.  Não existe, especificamente, um método ou forma de prevenir-se a depressão, por se tratar de fórum psicológico. Logo, nunca se sabe o que pode acontecer hoje ou amanhã, que possa deixar uma pessoa deprimida.
A ciência aponta que a palavra depressão provém do termo latim depressus, que significa “abatido” ou “aterrado”. Trata-se de um distúrbio emocional, que se pode traduzir num estado de abatimento e infelicidade, o qual pode ser transitório ou permanente.
Para a psicóloga Cátia Francisco, a depressão é uma síndrome ou conjunto de sintomas e sinais que afectam principalmente a área afectiva/emocional de uma pessoa.
Depressão é um termo utilizado na psiquiatria para designar um transtorno de humor, uma síndrome em que a principal queixa apresentada pelos pacientes é o humor depressivo e às vezes irritável, durante a maior parte do dia.
Cátia Francisco explica que a depressão só é definida como tal, depois de a pessoa conviver pelo menos duas semanas com mau humor, baixa de auto estima, sem vontade de fazer as coisas que lhe dão prazer. É um transtorno psiquiátrico, onde a pessoa neste estado apresenta, na maior parte do tempo, tristeza maior.

 As causas

Os problemas nas relações inter-pessoais e os traumas pós-parto são tidos como os mais frequentes dos que causam depressão, como salientou Cátia Francisco. A par dos problemas interpessoais, como separação do casal, violência doméstica, morte de um familiar, perda de um bem, desemprego, uso de drogas, doenças crónicas, decepções amorosas, dificuldade sociais, relação conflituosa entre pais e filhos e conflitos na escola fazem parte das causas.
 Cátia Francisco precisou que a depressão é  mais comum em pessoas com idades compreendidas entre os 24 e os 44 anos. Devido à sua maneira de ser e pelas responsabilidades que ocupam na sociedade, as mulheres têm duas vezes mais probabilidades de desenvolver depressão em relação aos homens, diferença que vai diminuindo com a idade. A depressão nervosa é mais comum em reformados, segundo estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2020, a depressão nervosa pode passar à segunda causa de morte mundial, após as doenças cardiovasculares.
Cátia Francisco deu a conhecer que, por semana, o sector de psicologia do Hospital Psiquiátrico recebe de 4 a 5 pessoas. No caso das mulheres, a maioria apresenta depressão pós-parto.
“Estas mulheres entram em depressão por vários factores:  gravidez indesejada, dificuldades para cuidar o recém-nascido. Às vezes, sofre desprezo por parte dos familiares ou o parceiro não aceita assumir a paternidade, por não ter um lugar próprio para cuidar condignamente o filho”, disse.
Mas para este e outros casos, acrescentou a psicóloga: “nós temos feito um trabalho psicológico com os pacientes, a começar por (psico-educação), explicar o que é a depressão, as suas causas, consequências, terapia cognitiva comportamental, ensinar o paciente a encarar a vida numa outra perspectiva.”
 
Tratamento

Pelo facto de as causas da depressão derivarem de problemas que não dependem unicamente da pessoa deprimida, “nós mobilizamos  os pacientes, no sentido de aceitarem  e reconhecerem que estão nesta condição e depois mostramos como ele ou ela podem, com a nossa ajuda, sair desta situação”.
 Algumas vezes, o tratamento, disse Cátia Francisco, fica complicado, porque muitos dos pacientes não aceitam reconhecer que estão com depressão e não colaboram. Nas fases mais graves, é solicitada a intervenção dos médicos psiquiátricos, que têm a responsabilidade de passar uma receita para um tratamento eficaz.
“Muitas vezes, as pessoas não procuram os serviços de assistência médica dos psicólogos e deixam tudo para depois de a patologia estar num nível preocupante. Há uma necessidade de fazer-se um trabalho pedagógico. E, para tal, contamos com os órgãos de comunicação social e não só”, afirmou.

Preocupação da família

A psicóloga Cátia Francisco afirma que a família desempenha um papel muito importante na recuperação do paciente. É no seio da família que o paciente é acompanhado, no sentido de cumprir algumas das recomendações indicadas pelos psicólogos. “Nesta situação, o paciente não tem forças suficientes para cuidar de si próprio. Com a família próximo, a possibilidade de recaída do paciente é pouco provável”, explica Cátia Francisco, acrescentando que, “quando não há apoio familiar, a recuperação do paciente torna-se lenta,  devido às recaídas que o mesmo pode ter”.

 Histórico da depressão

 A directora do Hospital Psiquiátrico de Luanda, Antónia de Sousa, revelou que o início de estudos sobre depressão começou em 1920. Hipócrates criou a teoria de quatro humores corporais, que são sangue, fleugma ou pituta, bílis amarela e bílis negra.
Em Angola, o Hospital Psiquiátrico de Luanda tem sido a principal unidade especializada no tratamento de doenças de fórum psicológico. O Hospital Psiquiátrico de Luanda funciona com 21 camas no banco de urgência, das quais cinco na sala de observação geral, sete na de homens e oito na das mulheres.
Neste momento, explica a médica Antónia de Sousa, directora do Hospital Psiquiátrico de Luanda, estão internados 185 pacientes que sofrem de depressão, dos quais 121 são homens distribuídos em quatro pavilhões e 64 são mulheres que estão num único pavilhão. Estes recebem atendimento multidisciplinar, com psicólogos, médicos psiquiátricos, assistentes sociais e enfermeiros, entre outros.

A depressão no mundo

 
Este ano, para o 7 de Abril, Dia Mundial da Saúde, a Organização Mundial da Saúde definiu como tema de reflexão a depressão, com o lema “Vamos conversar sobre a depressão”. Na cerimónia de comemoração do 7 de Abril, que ocorreu na Escola de Formação de Técnicos de Saúde de Luanda, o representante da OMS, em Angola, disse que a escolha deste tema justifica-se, porque a depressão é a principal causa de incapacidade a nível mundial, afectando pessoas de todas as idades e de todos os escalões sociais.
A escolha deste tema não foi em vão, segundo Antónia de Sousa, porque esta doença preocupa as autoridades sanitárias, devido às suas consequências e grau de abrangência. Pessoas vítimas de depressão estão sujeitas ao estigma e a um receio de isolamento social que constituem barreiras na procura de ajuda, tratamento e recuperação. Estima-se que, a nível mundial, 322 milhões de pessoas são vítimas de depressão, o que representa 4,6 por cento da população mundial. A depressão como causa de suicídio é a segunda causa de morte em pessoas com idades entre os 15 e os 30 anos.

O Hospital Psiquiátrico de Luanda

O actual Hospital Psiquiátrico de Luanda era o dispensário de higiene mental, construído há mais de 68 anos, e dependia do Hospital Maria Pia, actual Josina Machel.
Após a Independência de Angola, a partir de 1978 passou a ser autónomo e, no mesmo ano, surge o Hospital Psiquiátrico de Luanda, de âmbito nacional.
É uma instituição do terceiro nível, vocacionada ao tratamento, reabilitação e reinserção de pacientes do foro psiquiátrico.
Com capacidade para internar 300 pessoas, apenas está com 163 pacientes internados, devido ao trabalho de reabilitação em curso desde 2000. O hospital está a ser reabilitado de forma faseada. Conta com 16 médicos psiquiatras, 12 psicólogos, 168 enfermeiros, 13 técnicos de farmácia, 17 técnicos de laboratório e 48 administrativos.
O Hospital Psiquiátrico de Luanda atende pacientes nos serviços de Psiquiatria, Forense, Pedopsiquiatria, Toxicodependência, Psicogeriatria, Psicologia Clínica, Defectologia, Psicanálise, Terapia Ocupacional, Assistência Social e Sociologia.

Cresce a preocupação em consultar psicólogo

Há dez anos, não havia muita preocupação por parte dos cidadãos em consultar um psicólogo. Mas, nestes últimos tempos, a procura já tem sido grande.
“Agora, há uma coisa que deve ser dita. As consultas com os psicólogos não estão ao alcance de toda a gente. As pessoas de baixa renda não têm condições para suportar os gastos”, conta o psicólogo Carlinhos Zassala, bastonário da Ordem dos Psicólogos de Angola.
Até ao presente momento, disse, está-se à espera que os seus estatutos sejam publicados no Diário da República para se trabalhar na criação de condições que possibilitem atender cidadãos de todas as camadas da sociedade.
Como se sabe, as entidades públicas têm direito a apoios financeiros a partir do Orçamento Geral do Estado. “Com este dinheiro, podemos pagar os psicólogos que vão ser indicados para atender a população de baixa renda. Neste momento, as pessoas com condições financeiras é que conseguem suportar os custos e são atendidas por psicólogos nos seus consultórios”, conta Carlinhos Zassala.
As consultas com especialistas particulares em Psicologia têm o preço fixado entre 10 e 17 mil kwanzas por cada sessão. “Este também é um dos problemas que a ordem quer ver resolvido. Pretendemos uma uniformização dos preços das consultas”, frisou Carlinhos Zassala, acrescentando que, no seu consultório, faz consultas na área de Psicologia Escolar e, semanalmente, recebe de 5 a 6 pessoas. Carlinhos Zassala, que também é docente universitário, disse que muitos dos pacientes confundem a consulta psicológica com a de medicina, em que o paciente é observado, diagnosticado e medicado, enquanto a consulta de psicologia leva tempo e depende muito da disponibilidade de o paciente “abrir-se” para que o psicólogo possa fazer o diagnóstico. Muitas vezes, depois de duas ou três sessões, os pacientes abandonam, principalmente, quando já começam a constatar melhorias.
Dados fornecidos pela Ordem dos Psicólogos de Angola indicam que, em Luanda, existem cerca de cinco consultórios psicólogos inscritos na ordem.

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