Reportagem

“Picolé cuia”, mas pode prejudicar a saúde

Yara Simão

“Picolé cuia”, dizia o menino Cristian dos Santos (nome fictício). “A mamã sempre me dava 50 kwanzas para comprar no “Mamadu”. Mãe e filhos não sabiam, porém, que este produto era confeccionado em péssimas condições de higiene e com substâncias de origem duvidosa, na rua 2 do bairro Avô Kumbi, distrito do Golfe, município do Kilamba Kiaxi.

Fotografia: DR

Local predilecto dos “Kupapatas”, a rua destaca-se pelo movimento quase permanente de peões e veículos e pela linha arquitectónica, no mínimo estranha, de muitas casas. À dificuldade de entender o pensamento de quem as construiu, junta-se a improvável ideia de sequer imaginar que naquela zona existe uma fábrica de gelados dentro de uma moradia.
Bem próximo à Administração, da Fiscalização e da Direcção de Saúde do Município do Kilamba Kiaxi, cidadãos de nacionalidade vietnamita produziam mais de 8 mil gelados por dia. A distribuição era depois feita a vários retalhistas, sendo maioritariamente proprietários de cantinas, os famosos “Mamadus”, como são identificados cidadãos estrangeiros da África Ocidental.
Mas diz a sabedoria popular que “um dia a casa cai”. E desabou, efectivamente, para a dupla de vietnamitas que, clandestinamente, atentou contra a saúde de milhares de cidadãos durante anos, com os famosos Picolés de 50 e 100 kwanzas. Uma denúncia anónima permitiu às autoridades deter os infractores e encerrar a fábrica.
Quando a Polícia chegou ao local, um dos cidadãos estrangeiros tentou escapar, através de um esconderijo criado por eles, dissimulado por trás de um guarda-roupa, para proporcionar a fuga, em caso de necessidade.
O corredor, construído e dissimulado a partir do quintal, dava acesso à rua contígua. Um dos indivíduos tentou escapar pela “saída de emergência”, sem sucesso. Desconfiada da demora para abrir a porta, a Polícia no terreno de operações conseguiu a colaboração dos moradores, para deter o presumível infractor.
O flagrante ajudou a confirmar que a fábrica não reunia condições para confeccionar um produto com as exigências mínimas para o consumo humano.
A salubridade do meio em que se processava a produção não era recomendável e as condições de segurança no trabalho estavam piores, segundo as autoridades.
A dupla produzia o Picolé de forma artesanal, com equipamento inadequado. Sete aparelhos de ar-condicionado, a funcionar no máximo da sua potência, eram utilizados para o fabrico do gelo, com o qual confeccionavam os gelados de hora a hora. Eram usados recipientes sem condições de higiene.
O chão da zona fabril é bruto e sujo. Ao redor, paredes que já foram de cor branca tornaram-se castanhas, devido à sujidade. Os corantes utilizados eram guardados em pequenos bidões de água mineral, sem rótulos. Distinguem-se apenas as várias cores, sem se conseguir ver a origem do produto nem os componentes.
Com o piso da zona produtiva completamente sujo, as arcas para conservação do produto cheias de fungos, os baldes e bacias onde confeccionavam os picolés encardidos, facilmente se constatou o atentado à saúde pública que era a fábrica.
A mão de obra era formada por cinco moradores dos arredores. Numa total despreocupação com as normas elementares de higiene, os gelados eram feitos com os ingredientes no chão, sem o uso de luvas, nem protecção contra bactérias.
A água usada para fabrico do gelado era acastanhada, logo, imprópria para consumo humano. A ela se juntava o leite em pó, conservado em baldes sujos. A lista de ingredientes era complementada pelo trigo, utilizado no lugar da nata, para deixar o gelado mais cremoso.
Na hora do flagrante, os vietnamitas terminavam a preparação de grandes quantidades do produto, para colocá-lo à venda. Viam-se moscas mortas dentro de baldes, já com gelado pronto a ser colocado nas formas.
Ngunhene Van Tai, o proprietário da fábrica, que arrecadava 200 mil kwanzas por dia, um milhão por semana e 4 milhões por mês, está detido e o espaço encerrado.

Indignação e decepção

Após a descoberta, muitos moradores manifestaram preocupação com a sua saúde e a dos seus filhos, porque consomem o gelado há mais de um ano. A mesma inquietação foi sentida por comerciantes que adquiriam o produto em grandes quantidades para revenda.Os vendedores mostram-se apreensivos por terem colocado no mercado um gelado muito apreciado e consumido, sobretudo por crianças, mas que é prejudicial à saúde.
“Estou muito decepcionado com esses asiáticos. Eles não deveriam fazer isso. Somos pessoas de bem e confiávamos no trabalho deles. Vendemos muito desse gelado às crianças aqui do bairro”, lamentou Mohamed Edue, proprietário de uma cantina.
O morador Patrício Joaquim garantiu à nossa reportagem que sempre desconfiou de que algo se passava, porque não deixavam ninguém entrar. “Nós sabíamos que eles alugaram a casa e que vendiam gelados. Nunca imaginei que esse mesmo gelado que comprávamos e consumíamos em família estava a matar-nos aos poucos. Podem não acreditar, mas o gelado é mesmo bom”.
Muito preocupada, Marta Victor espera que as autoridades tomem as medidas necessárias para que acções do género não voltem a acontecer.
“Nossos filhos consomem esse gelado todos os dias. Não sabemos quantas outras fábricas clandestinas existem no país. Deve haver maior fiscalização sobre esses estrangeiros que vêm fazer negócio no país. Espero que justiça seja feita”.

Encerrada fábrica de gelo que funcionava ilegalmente

Além da de gelados, no mesmo bairro foi também encerrada uma fábrica de gelo, que funcionava de forma clandestina em condições precárias e sem segurança no trabalho. Os proprietários eram igualmente vietnamitas e tinham como empregados cidadãos nacionais.
O cenário era em tudo idêntico ao do negócio do picolé. Electro-bombas gastas pelo tempo e mais de meia dúzia de aparelhos de ar condicionado eram alimentados por um gerador, formando um conjunto de aparelhos adaptados para maximizar a produção.
Também aqui, a qualidade da água era um pormenor de somenos importância, longe das condições ideais para o fim ao qual se destinava. O trabalho braçal era realizado por rapazes com idade inferior a 18 anos. Sem qualquer protecção, andavam de chinelos pela zona produtiva, correndo o risco de electrocussão, face à precariedade da instalação de energia. Irino Francisco, um funcionário, garantiu que nunca imaginou que estivesse empregado numa instituição ilegal.
“Eu trabalho aqui há cinco meses e não sabia que era um negócio clandestino. Só fazíamos o que eles mandavam. O que não gostávamos era a falta de respeito e o material de trabalho. Éramos obrigados a pegar o gelo com as mãos. Muitas vezes, estávamos molhados e apanhávamos esticão nas paredes. Só não deixámos o emprego porque temos que mandar dinheiro para as nossas famílias em Benguela”, denunciou.
Com cabos de energia descascados e remendados a atravessar as paredes, o chão do quintal constantemente molhado, dada a especificidade do trabalho, o risco de electrocussão era iminente. Os dois vietnamitas que lá trabalhavam estão a contas com a Justiça e os três cidadãos nacionais estão desempregados e com medo de prisão.
Os infractores usavam um quadro artesanal, com vários disjuntores, que sugava a energia do bairro. Os moradores simplesmente questionavam como é que todos ficavam sem água e energia, à excepção dos proprietários da fábrica.
“Achávamos que eles tinham usado a ‘lei da gasosa’ para não lhes faltar água e luz. Afinal é tudo falcatrua. A polícia tem que trabalhar mais. Eles não admitem isso nos seus países”, disse dona Joana, revoltada por se sentir lesada pela falta de água.

Um atentado

“As fábricas eram clandestinas e trabalhavam de forma rudimentar e sem condições de higiene e segurança no trabalho, o que é muito perigoso”, disse Josefa Costa, directora municipal da Saúde do Kilamba Kiaxi.
“Fizemos colheita dos produtos aí confeccionados. Nesta altura, essas colheitas encontram-se no Laboratório de Saúde Pública. Suspeitamos que existam nos picolés algumas bactérias, porque são feitos com leite, havendo fortes possibilidades de conterem salmonelas e coliformes fecais”.
Josefa Costa explicou que, pela forma como o produto era confeccionado, pode provocar diarreias, alergia e gastroenterites. Alertou que as crianças são as mais vulneráveis, podendo as reacções acontecer a longo prazo.
“No ano passado, tivemos muitas crianças com diarreia, resultante da qualidade da água e de alimentos que elas gostam de consumir”.
Por considerar um caso de atentado à saúde pública, a responsável espera que o assunto não seja encarado de ânimo leve.
“As autoridades devem tratar esta situação com muita seriedade, por se tratar de saúde. Estes indivíduos devem sentir a mão pesada da Lei, para que actos como este passem a ser desencorajados por parte de pessoas que agem de má fé”, sublinhou.
Nos próximos dias, saem os resultados das análises do laboratório, que irão permitir saber quais as consequências que estes gelados deixaram na saúde de milhares de cidadãos, na sua maioria crianças.

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