Reportagem

Poder feminino nas ruas

Edna Dala

As mulheres zungueiras colhem o olhar incrédulo de pessoas comuns que diariamente cruzam com elas pelas ruas das principais cidades, numa luta de se tirar o chapéu, pelas "torturas" a que estão sujeitas.

Ontem e hoje o trabalho dessas mulheres batalhadoras ajuda a sustentar famílias inteiras
Fotografia: Maria Augusta | Edições Novembro

Elas são hoje o verdadeiro reflexo da força e persistência da mulher angolana, que exalta as qualidades de mães, companheiras e guerreiras quando percorrem quilómetros para garantir o sustento e educação de suas famílias.
 Com coragem e determinação, as zungueiras acordam todos os dias às 4 horas da manhã para enfrentar o grande desafio das ruas, que põe à prova a sua capacidade de sobrevivência. Pois, este é o horário apropriado para a compra dos produtos em melhores condições e, a seguir, serem comercializados em vários pontos da cidade, conforme a sua caminhada.
 O nome Zungueira, tão comum entre nós, é de origem etimológica  kimbundo e deriva da palavra "Kuzunga", que em português significa passear. Algumas obras defendem que a prática da zunga já existia na época colonial, mas o fenómeno ressurgiu, porém, na década de 80, tendo ganho forma e grandes proporções a partir do ano 2000.
 A venda ambulante alcançou contornos dignos de registo com o agravamento do conflito armado que tomou o país e obrigou várias famílias a abandonarem as suas zonas de origem, deslocando-se maioritariamente para a cidade capital, Luanda.
 Elas são mulheres destemidas e se converteram por isso num dos principais postais desta imensa Angola, cheia de encantos e mistérios, reunindo um poder mítico envolto em grande curiosidade.
Por onde andam elas não passam despercebidas, pois com banheiras à cabeça e o seu canto típico anunciando os produtos que comercializam despertam a atenção de todos. O refrão, tão forte que toma atenção até daqueles que não estão interessados em comprar, como foi o caso de um “sujeito”, que por pouco não caiu, ao virar desperto pelo cantar da zungueira.
 Algumas gingam pela cidade com crianças às costas e a quinda (banheira) à cabeça. A mulher zungueira não se deixa abater, ela sabe que é no bem-estar dos filhos que encontra a grande motivação diária para se levantar ainda no "dobrar" da madrugada, para procurar o pão e sonhar com um futuro risonho para a sua família.
 Sem colocar as dificuldades à frente dos seus objectivos, as zungueiras enfrentam com coragem e dignidade o sacrifício de percorrer diariamente quilómetros a pé, em busca do sustento, educação e oferecer conforto aos seus.
Com a sua ginga e vozes gritantes, elas tomaram conta das ruas da cidade.
Margarida Rodrigues Figueira, de 39 anos, mãe de cinco filhos, vende pelas ruas da cidade há mais de 14 anos. Conta que sai de casa às 4h30, deixando os filhos ao cuidado da filha de 18 anos, por ela considerada sua grande parceira.
 É deste modo, disse, que apoia o marido que trabalha numa empresa de segurança e enfrenta graves atrasos salariais. Ela é vendedora de frutas. Com o semblante cansado e a banheira de mangostão à cabeça, Guida, como é carinhosamente tratada, disse estar farta de vender pelas periferias e baixa de Luanda, pois “gostava mesmo de ter um emprego, mas preciso de ajudar o lar, porque o salário do meu marido não é suficiente para atender a todas as necessidades de casa".
 Apesar das dificuldades que a vida impõe, Margarida sente-se orgulhosa por ser mulher e acima de tudo mãe. “É a maior dádiva que uma mulher pode alcançar", afiança. Questionada sobre a formação dos filhos, Guida mostrou-se orgulhosa e disse que tem os filhos a estudar, que é o garante da esperança de um futuro melhor.  Sublinhou que não quer que os filhos passem pelo mesmo que ela passou.

 Dificuldades
 
O corre-corre pelas ruas com os fiscais foi apontado pelas zungueiras como a maior dificuldade, já que eles chegam até a castigá-las. Margarida disse que tem consciência do trabalho dos fiscais, mas “todas nós precisamos de ajudar a sustentar as nossas famílias”. Denunciou que nem todos os fiscais cumprem  as normas, em muitos casos levam-nos e querem apenas tirar dividendos, como por exemplo, pedir dinheiro... “Quem se prestar a oferta, é logo solta”, e quem não colaborar a “azarada vai mesmo parar à esquadra”.
 Além dos fiscais, apontados como um dos grandes constrangimentos da zunga, as vendedoras queixam-se de assaltos e de outros males, como estando entre os principais riscos. Os assaltos acontecem normalmente quando se recolhem tarde das ruas.
 Conceição António, de 30 anos, vende limão, um produto também muito procurado. Ela está orgulhosa e honrada por ser mulher, apesar das dificuldades por que passa no seu dia a dia e fez saber que gostava de ver “as  mulheres mais valorizadas e reconhecidas pela sociedade.
 Conceição António era vendedora do antigo mercado informal Roque Santeiro  e ao contrário do que as suas colegas defenderam, ela prefere vender pelas ruas da cidade. “É melhor vender nas ruas, e não num mercado fixo, porque na zunga o negócio corre melhor e é mais rápido”.
 A comerciante reconhece que andar pelas ruas é cansativo e às vezes perigoso, mas “é pensar nos meus filhos que enfrento todas as dificuldades”. Radiante, disse que sempre que chega a casa a primeira preocupação é saber se os filhos passaram bem o dia.
 Já Odete Araújo, vendedora de  panos, mulher de poucas palavras, diz apenas que os fiscais as incomodam muito. “Nós precisamos de um mercado, e se o governo nos ceder um espaço, vamos para lá vender à vontade, sem todas essas confusões”.
 A equipa de reportagem dirigiu-se à ilha de Luanda, onde nos deparámos com um grupo de peixeiras, algumas com o semblante triste, outras nem por isso. Saltavam e dançavam com uma alegria contagiante. Cristina Ernesto explicou ao Jornal de Angola que o motivo da tristeza tem a ver com a falta de peixe, que há dois dias “desapareceu”. Ela disse que não conseguia nada desde sábado , o que estava a criar-lhe sérios problemas, porque tem os filhos para sustentar e o marido está desempregado há um bom tempo.
 
Curiosidades

O Mangostão é uma fruta redonda de cor roxa ou vinho, apresenta uma crosta firme e o interior branco, a polpa branca comestível é de uma textura suave e adocicada. A fruta que tomou conta das banheiras das nossas zungueiras, segundo alguns clientes que compraram a fruta no momento da reportagem, tem vários benefícios para a saúde. A casca do Mangostão serve para fazer chá que por sua vez tem poderes curativos.

Mais mercados

Além de Cristina, que vive no Kikolo, todas defenderam a existência de mais mercados, em particular um de peixe naquele município, tendo em conta que reconheceram que as vendas pelas ruas sãos cansativas. Todas as zungueiras defenderam a construção de mais mercados para deixarem as ruas. Actualmente, sempre que se dirigem a um mercado à procura de lugar são mal sucedidas, pois os lugares estão todos preenchidos.
 Cristina António Ernesto disse que as mulheres são hoje mais valorizadas em comparação ao passado. “O nosso trabalho é sacrificante. Não é fácil acordar todos os dias às 4 horas para sair em busca do pão para dar aos nossos filhos, sobretudo quando não se tem apoio financeiro do marido, por estar desempregado”.
 Domingas Juliana também vive o dilema porque o marido se encontra desempregado, daí a necessidade de alguém tomar as rédeas de casa de modo a garantir a sustentabilidade do lar. Para piorar a situação,  disse, são estigmatizadas por algumas pessoas quando vão para os mercados. Em alguns casos, chegam a ser maltratadas psicologicamente por outras vendedoras que dizem que as “peixeiras cheiram mal”, uma atitude repugnante.
 Além das frutas, a nossa equipa de reportagem deparou-se com uma série de produtos que são comercializados nas ruas que vão desde as plantas, panos, bebidas diversas, roupas, enfim, tudo o que encontramos nos estabelecimentos hoje são encontrados nas ruas pelas mãos das zungueiras.
 Muitos dos produtos comercializados nas ruas não oferecem segurança por causa das condições de armazenamento, devido à falta de higiene, colocando em risco a saúde dos consumidores.  

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