Reportagem

Polícia Nacional desmantela rede de marginais em Luanda

André da Costa |

As estatísticas da Polícia Nacional apontam para o roubo ou furto de uma viatura por dia só em Luanda. As taxas de recuperação são de 47 por cento. Isto quer dizer que de cada 100 viaturas roubadas, 40 a 60 são recuperadas.

Há viaturas que são roubadas mediante solicitação prévia de clientes e o Serviço de Investigação Criminal (SIC) tem vindo a realizar um aturado trabalho de investigação que resulta na detenção de vários cidadãos entre nacionais e estrangeiros
Fotografia: Domingos Cadência | Edições Novembro

A Polícia Nacional tem nos seus parques mais de sete mil motorizadas e acima de mil viaturas à espera que os proprietários as levantem. Estas viaturas foram apreendidas por acidentes de viação ou por terem sido roubadas ou furtadas.
O roubo ou furto de viaturas tem levado os automobilistas aos piquetes de Polícia de esquadras de distritos e municípios para apresentarem queixa. Em muitos casos, os marginais desmontam e vendem as peças a retalho.
Há viaturas que são roubadas mediante solicitação prévia de clientes. Atendendo a esta realidade, o Serviço de Investigação Criminal (SIC) tem vindo a realizar um aturado trabalho de investigação que resulta na detenção de vários cidadãos entre nacionais e estrangeiros, supostamente por estarem implicados nesta actividade. As viaturas são de marcas e modelos diferentes, que, num abrir e fechar de olhos, são retiradas à força e levadas ao mercado paralelo ou a casas de venda de motores.
Nikilsom Wanovula levou as mãos à cabeça quando se deparou com a sua viatura, um Hyundai Elantra, cor marrom, matrícula LD-95-86-EW, completamente desmontada, aos pedaços. A mesma  estava exposta no pátio do Comando de Divisão de Polícia do Kilamba Kiaxi.
O carro do jovem Nikilsom foi roubado no dia dois de Fevereiro deste ano, por volta das 23h54, na rua direita do Kapolo II. A acção foi praticada por quatro meliantes armados com metralhadoras AKM.
Estes faziam-se acompanhar de uma viatura de marca Mitsubishi, cor branca, roubada horas antes no bairro Vila Flor.
 Os marginais pararam de repente a sua viatura em frente ao carro conduzido por Nikilsom, na altura em que se dirigia para a sua residência, depois de mais jornada laboral.   
Nikilsom Wanovula, completamente assustado com a acção dos marginais, tremia ao ver o carro dos seus sonhos ser levado por marginais num abrir e fechar de olhos. A viatura foi comprada há três meses numa concessionária em Luanda, a cinco milhões de kwanzas, para facilitar a sua deslocação ao serviço e para apoio à família. O carro foi desmontado e as peças vendidas a retalho, ficando por menos de um milhão de kwanzas.

Destino das viaturas roubadas   

Os marginais, identificados por Pamoké, Messi, Jessé, Zuanini e Luieie Malonguidi depois de se apossarem da viatura de Nikilsom, levaram-na até ao bairro Calemba na residência do mecânico identificado por Kinguera.
 Este, na companhia de outros comparsas, Richo e Júnior, desmontaram o carro e a carcaça foi deitada numa lixeira.  Quem conheceu aquela bonita viatura, com jantes especiais, dificilmente podia acreditar que se tratava do mesmo carro, a julgar pela forma como foi desmanchada.
O motor foi vendido a  300 mil kwanzas e as outras peças comercializadas no mercado do Golfe Correio  e casas de venda de viaturas. A mesma foi encomendada por um indivíduo que vende peças de carro numa das lojas de revenda de motores que também se encontra detido. Messi, Jessé, Zuanini e Luieie Malonguidi realizavam acções de forma concertada. O mesmo grupo roubou outras seis viaturas com a mesma finalidade. Um  Toyota Land Cruiser Prado, cor preta, matrícula LD-91-46-FH, um Toyota Hiace azul e branco, matrícula LD-65-66-FT, um Hyundai grande I10, preto, matrícula LD-42-62-GE, um Hyundai Elantra, azul, matrícula, LD-66-09-EF, um Toyota Prado, cor verde, LD-04-98-AO e Hyundai I10, azul, matrícula LA-21-42-EF.
As viaturas foram todas roubadas no período da noite. Além das viaturas, os meliantes levam igualmente os pertences pessoais da vítima, tais como cartões multicaixa, fios de ouro, relógios, sendo considerados pelo Serviço de investigação Criminal altamente perigosos.
As características das jantes especiais raras que tinha o Hyundai Elantra do jovem Nikilsom facilitaram as investigações dos homens do SIC, pois as mesmas foram encontradas à venda no mercado dos Correios ao preço de 240 mil kwanzas, culminando na detenção da rede de marginais que já têm passagem pelas cadeias de Luanda.  “Você compra algo com tanto esforço para usufruir e, de repente, é retirado à força e vendido aos pedaços, logo, o sentimento é de muita tristeza e revolta”, disse Nikilsom visivelmente inconformado.

Outro carro desmanchado


Alberto Luchico seguia ao volante de um Hyundai, modelo Santa Fé, em direcção ao serviço. O alternador deixou de funcionar e procurou uma oficina a escassos metros. O suposto electricista solicitou 25 mil kwanzas para reparação da mesma e pediu que regressasse no dia seguinte para levar o carro.
 O suposto electricista meteu-se em fuga com a viatura durante 30 dias. O proprietário apresentou queixa e a viatura foi encontrada  pelo SIC, no dia dois deste mês, por volta das 10 horas, no bairro da Caop, num quintal, completamente desmontada e a carcaça cortada ao meio.
O desmanche das viaturas estava a cargo dos jovens Kinito, 27 anos, Fininho, 26, Barroso, 37, Senza, Jota e Sebastião, uns com a função de mecânicos e outros de serralheiros. Desmontaram-na e revenderam as peças no mercado do Golfe dos Correios.  O motor foi vendido ao cidadão Luke Chidozie, de nacionalidade nigeriana, proprietário de uma casa de venda de motores ao preço de 250 mil kwanzas.        
 
A alegria de ter a viatura de volta

Augusto Manuel Jesus é proprietário da viatura Land Cruiser  branca. Viu a mesma a ser levada pelos marginais que andavam de motorizada. Os mesmos faziam-se acompanhar de uma arma de fogo que lhe foi apontada ao pescoço e levaram a viatura e bens pessoais. Tudo ocorreu por volta das 19 horas, nas imediações do Cemitério da Camama. Entrou em pânico,  mas não reagiu ao crime. Em menos de 48 horas, a mesma foi recuperada.
Sebastião Cabenguela agradece o trabalho levado a cabo pela Polícia Nacional que resultou na recuperação da sua viatura. Conta que a perdeu, um  Wolkswagem Polo, na zona do Calemba II, quando levava os colegas para casa no bairro conhecido por Vila Nandó e os meliantes levaram-lhe a viatura.
 Aldir Sambimbi  também está feliz com o trabalho da Polícia. A sua viatura Hyundai foi recuperada. A mesma tinha sido roubada no mês passado, por volta  das 21 horas, por quatro meliantes que se faziam acompanhar de uma outra viatura. Embateram na parte traseira com violência e quando desceu foi colocado com arma de fogo. 

Como tudo funciona

O roubo de viaturas é feito de forma organizada, por vários grupos na cidade de Luanda, muitos dos quais já desmantelados pelo Serviço de Investigação Criminal e apresentados ao tribunal, onde uns foram julgados e condenados.
Há casos em que indivíduos, supostamente, pertencentes à corporação associam-se aos malfeitores para cometerem esse tipo de ilicitude, como é o caso do jovem Pamoké que, por esta prática, foi expulso da corporação, segundo informações recolhidas da Investigação Criminal. 
Os marginais identificados por Pamoké, Messi, Jessé, Zuanini e Luieie Malonguidi constituem um grupo de marginais considerados altamente perigosos, pela forma cruel como retiram as viaturas das mãos dos proprietários.
 Alguns dos integrantes desse grupo, como é o caso de Pamoké e Messi, já cumpriram pena de prisão sentenciada  pelo tribunal, mas ainda assim continuam com a mesma prática.  
Os grupos de marginais agem de forma organizada e concertada. As viaturas são previamente identificadas mediante a solicitação de um cliente. O período preferível é de noite, mas há casos de recepção de viaturas durante o dia.
 Depois de identificarem o carro, mediante várias artimanhas, perseguem a viatura com uma outra, muitas vezes também roubada, ou de motorizada. Há casos em que os meliantes se fazem passar por passageiros ou então aguardam pelas vítimas junto das lombas. Durante o  abrandamento e mediante ameaça de arma de fogo, recebem as viaturas e conduzem-nas para parte incerta.
Marcelino Pintinho viu a sua viatura, um Hyundai Accente, matrícula, LD-71-79-GH, roubada no dia 8 de Janeiro, por  volta da uma hora e 46 minutos, na Centralidade do Kilamba.O trabalho de investigação levado a cabo pelo Serviço de Investigação Criminal culminou com a detenção dos supostos meliantes, que confessaram a autoria do roubo, tendo-a abandonado no mesmo dia na via pública, nas imediações da Vila Pacífica. O lesado está preocupado e pretende que o SIC a encontre rapidamente. A prova da preocupação é a sua deslocação, diariamente, a esse órgão do Ministério do Interior na esperança de encontrar a sua viatura, até agora em parte incerta.
Outro grupo de marginais desmantelado pelo SIC é composto pelos jovens Toy, Cazuza, Lemos, Celé e Reigide, cujas idades vão dos 28 aos 38 anos de idade.  Este grupo, no dia 20 de Fevereiro, por volta da meia noite, furtou uma viatura Hyundai Santa Fé, de cor vermelha, pertença do cidadão Mohamed Camara.
Munidos de pistolas, o referido grupo, a bordo de duas viaturas Hyundai também roubadas, interpelou, na via pública, o lesado que circulava na companhia da sua esposa e obrigaram-nos a mostrar a residência.
 Já em casa dos lesados, os meliantes submeteram as vítimas a agressões físicas e levaram a viatura em causa, mais de três milhões de kwanzas e oito mil dólares norte-americanos, entre vários bens pessoais. Os jovens Toy, Cazuza e Lemos já cumpriram pena de prisão por crimes de roubo de viaturas. Foram colocados em liberdade e continuam a praticar o mesmo acto.
Os jovens identificados por Fao e Maita foram detidos por terem sido encontrados com duas viaturas Hyundai Accente roubadas na Centralidade do Sequele.

Viaturas levadas ao Huambo


Luizinho e Sousa são dois jovens detidos pelo SIC por roubo de uma viatura Hyundai que prestava serviço de táxi em Viana, por volta das 22 horas, quando simularam ser passageiros.
No meio do trajecto, sacaram a arma de fogo, ameaçaram o motorista, identificado por Augusto Pequeno, e levaram a viatura.Diligências levadas a cabo pelo SIC determinaram que estes dois indivíduos tinham roubado dias antes a viatura de marca Toyota Hilux, preta, junto de uma padaria com a chave na ignição.
Segundo fonte do SIC, o suposto meliante Luizinho é altamente perigoso e, há dois anos, roubou nove viaturas de marca Toyota, vulgo quadradinho, e  vendeu-as a um milhão de kwanzas na província do Huambo. As viaturas foram já recuperadas e os compradores detidos.

Detidos em flagrante delito                   

No dia dois de Fevereiro, no quintal de uma residência no bairro da Caop, em Viana, foram detidos os cidadãos identificados por Quinito, Fininho, Barroso, Senza, Sebastião, Jota e OBI,  por terem sido encontrados a desmontar uma viatura de marca Hyundai Santa Fé. A mesma foi roubada no mês de Janeiro. Alguns destes meliantes já estiveram detidos por crimes diversos.
Os roubos de viaturas constam das preocupações do Comando Provincial de Luanda da Polícia Nacional. Os marginais para concretizarem as suas acções actuam com armas de fogo.
O inspector-chefe Mateus Rodrigues, director provincial de Comunicação Institucional e Imprensa da Delegação do Ministério do Interior em Luanda, afirma que nos casos em que as vítimas reagem, ao roubo, os marginais disparam contra as mesmas, daí o apelo da Polícia Nacional no sentido de, sempre que se confrontar com tal realidade, evitar oferecer resistência para preservar a vida humana.
Parte dos homicídios registados em Luanda, considerou, é derivada de crimes de roubos de viatura em que as vítimas oferecem resistência. “O crime ocorre, porque os cidadãos não obedecem os cuidados preventivos de segurança”, disse. Acrescentou que no caso de as viaturas terem GPS, as mesmas aparecem com facilidade, daí o apelo aos automobilistas para a colocação deste sistema nas viaturas.
 O desmanche das viaturas não é algo novo. Os cidadãos devem tomar precaução, colocando sistema GPS nas viaturas como garantia de segurança, para, em caso de roubo, ela ter a possibilidade de ser recuperada. Isso porque a segurança colectiva é o conjunto da segurança individual. 

Reclamação em noventa dias

Os proprietários das viaturas têm um tempo de reclamação de noventa dias. Passado esse período, as reclamações são encaminhadas às estruturas superiores, podendo mesmo vir a ser submetidas a leilão.
O roubo de viaturas consta das principais preocupações do Comando Provincial de Luanda da Polícia Nacional, segundo o inspector-chefe Mateus Rodrigues, director provincial de Comunicação Institucional e Imprensa da Delegação do Ministério do Interior na capital do país.

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