Reportagem

População de Sacandica procura serviços médicos e escolares no Congo Democrático

Silvino Fortunato | Sacandica

A população da comuna de Sacandica enfrenta dificuldades decorrentes do corte da circulação rodoviária, que forçou a separação com o município de Maquela do Zombo e da própria sede provincial do Uíge. Os habitantes recorrem à República Democrática do Congo para terem acesso aos serviços de Saúde e Educação.

Os habitantes recorrem à República Democrática do Congo para terem acesso aos serviços de Saúde e Educação
Fotografia: Silvino Fortunato | Edições Novembro | Uíge

O corte da circulação rodoviária já se verifica há vários anos. Apenas os camiões com tracção conseguem vencer os 185 quilómetros de estrada esburacada e de pontes destruídas ou em péssimas condições até atingirem a vila de Sacandica.
A comuna fica no extremo norte da província e é um dos pontos fronteiriços de Angola com a República Democrática do Congo (RDC). Tem uma população estimada em 17.500 habitantes, distribuídos por 55 aldeias, organizadas em quatro regedorias.
A maioria dos  habitantes procura os serviços hospitalares e de Educação no outro lado da fronteira, na RDCongo,  na comuna de Kimvula, município de Matadi, que fica a 25 quilómetros da sede comunal.
“Os outros (as autoridades do Congo) é que estão a tomar conta de nós. Tudo o que precisamos vamos buscar lá no Congo”, revelou ao Jornal de Angola a  autoridade tradicional da regedoria da sede de Sacandica, o soba Alberto Capitão. Ele desconhece a sua idade, mas  lembra-se de nunca ter recebido a visita de um governador provincial nos   últimos 20 anos. “Queremos que os governadores nos visitem para verem o sofrimento que a população está a enfrentar”, disse.

Assistência médica
Muitos moradores do município procuram os serviços hospitalares em Kimvula. O soba Capitão diz que as pessoas se deslocam a pé à RDCongo para receberem tratamento médico. Para tal têm de andar 25 quilómetros se estiverem na sede comunal. Outros andam muito mais para atingirem a fronteira. Com tristeza, o soba declarou: “Alguns acabam por morrer pelo caminho.”
É triste quando vêem os enfermeiros e técnicos de Saúde da comuna a levarem os poucos medicamentos que o Governo Provincial envia para os  postos médicos. “Há vezes em que o Governo manda medicamentos, mas acabam dois ou três dias depois. Depois vemos as farmácias particulares cheias de medicamentos e os enfermeiros a remeterem os doentes para as mesmas, com as receitas”, disse.
Os serviços de Saúde em Sacandica são assegurados por dois técnicos, sendo um deles o chefe. Eles atendem todos os dias inúmeros pacientes que padecem de malária e de doenças diarréicas e respiratórias agudas.
O administrador comunal, Afonso Daniel, disse ser real que muita gente se desloque ao país vizinho em busca de tratamento médico. Para ele “mil vezes ir ao Congo para receber assistência médica”, do que recorrer à sede municipal de Maquela do Zombo ou à capital provincial pelos custos da deslocação.
A população enfrenta  problemas devido à falta de medicamentos. Muitas vezes, a população é obrigada a recorrer  a  ervas para combater a malária,  que Afonso Daniel considerou ser uma epidemia na localidade.
O reconhecimento das vicissitudes veio também do chefe dos serviços de Saúde. Kumbu Alfredo confirma haver muitas dificuldades para atender os doentes. Há cinco meses não recebem qualquer vacina para as crianças recém-nascidas. Muitos pais  deslocam-se à RDCongo
para vacinarem os seus filhos menores de cinco anos.
“Muitas vezes são mal recebidos. Os enfermeiros de lá armam várias artimanhas, chegando a cobrar muito mais do que o habitual, quando se trata de doentes provenientes de Angola”. Há  dificuldades na evacuação dos doentes graves para outras unidades médicas superiores ao existente na comuna, disse Kumbu Alfredo.
No momento em que falava à reportagem do Jornal de Angola, havia um doente que não conseguiu ser assistido por falta de transporte. “Há vezes em que somos obrigados a colocar os doentes graves em camiões”, os únicos que conseguem atingir a localidade.
O Governo Provincial do Uíge envia medicamentos sempre que os helicópteros das Forças Armadas Angolanas, que  transportaram os repórteres do Jornal de Angola, se deslocam às regiões de difícil acesso em missões de acompanhamento das unidades aí estacionadas.

Dificuldades escolares

Tal como na Saúde, muitos jovens  estudam fora da fronteira nacional. Segundo o administrador Afonso Daniel, os pais optam por mandar os seus filhos para o Congo por causa da carência de professores na localidade.
Existem apenas 44 professores e há aldeias com falta de professores.
O soba Alberto Capitão reconhece haver vontade de as crianças irem à escola mas “os professores são poucos”. Muitas crianças, diz o soba, ficam em casa e dedicam-se a  tarefas de adultos.
O adolescente Bikotele Silva foi quem levou os repórteres do Jornal de Angola à residência do soba grande da vila de Sacandica. Pelo trajecto revelou ter estudado da 1ª a 7ª classes numa escola da comuna de Kimvula. As aulas são leccionadas em língua nacional Kikongo. Depois da sétima classe são dadas em francês. Em Kimvula, os professores não pedem dinheiro para repetir uma prova que o aluno perdeu. Aqui em Sacandica um professor chega a cobrar três mil kwanzas para repetir a avaliação de um aluno que faltar por qualquer razão. “Mesmo apresentando uma receita médica, o professor diz que não quer saber, se não trazes o dinheiro não há prova”, disse.
Uma das razões que levam os pais a preferir mandar os seus filhos para a RDCongo são alguns vícios e mau serviço das pessoas ligadas à Educação na comuna. Para matricularem um aluno, os professores chegam a cobrar sete mil kwanzas e durante o ano as cobranças continuam por outras razões.
Muitos pais, incapazes de  satisfazerem as exigências, tiram os filhos da escola. “No Congo os pais apenas pagam às direcções das escolas três mil kwanzas no fim do ano, que corresponde a todos os emolumentos.”
Há muitos jovens que concluíram o ensino médio. Eles dedicam-se a  actividades como a pesca e a agricultura. Zolani Mateus disse ter concluído a sua formação média há dois anos. Tem vontade de continuar os  estudos, entretanto a sua família está incapaz de sustentar os seus estudos fora de Sacandica. Por isso tornou-se num revendedor de um comerciante que vem do Congo. Zolani Mateus diz que muitos professores que leccionam as classes do ensino médio em Sacandica também têm  formação média.
“Há professores com o ensino médio que dão aulas a alunos do mesmo nível”, afirmou. O dia em que houver concurso público aqui em Sacandica, ele, garantiu, vai concorrer.

Comércio

Um pequeno mercado, com barracas de pau-a-pique, está no centro da sede comunal. Geralmente há venda diversa. Aos comerciantes que vêm de fora são vendidos produtos do campo como bombó, feijão e ginguba.
Há fluência nas vendas quando os camiões entram na vila. Em cada semana entram dois camiões em dias diferentes.
Os camiões transportam as quitandeiras que vendem a quadra de sabão por 100 kwanzas, custando a barra 700 kwanzas. Um peixe sardinha de pequeno tamanho custa 100 kwanzas. Três tomates 200 kwanzas. O quilograma de açúcar é comprado a 300 kwanzas, enquanto o  de sal é comercializado a 250 kwanzas.
Os camionistas cobram 2.000 kwanzas pelo transporte de cada saco de bombó.  Silva João Maito dedica-se ao trabalho de mototaxista, desde que terminou os seus estudos secundários. Algumas vezes diz ter dificuldades na sua actividade por causa  do custo  da gasolina.
Os motociclistas de Sacandica pagam 350 kwanzas por cada litro de gasolina. Cobram de 1.000 a 2000 kwanzas por cada corrida que fazem  para as aldeias mais próximas.

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