Reportagem

Por que terá a Colômbia demorado 100 anos a construir a obra mais importante

*Daniel Pardo

Na sexta-feira, dia 4, uma festa marcou a inauguração de um túnel na Colômbia - o fim de um tortuoso parto de um projecto germinado há 100 anos.

Fotografia: DR

"Vamos celebrar um projecto que deveria ter sido concluído há pelo menos 15 anos", disse Germán Pardo, presidente da Sociedade dos Engenheiros. "Não devemos ver isso como uma construção épica, mas como uma paixão de Cristo, porque foi um processo muito sofrido."

Por pelo menos um século houve a ambição na Colômbia de cruzar a Cordilheira Central (uma das três cordilheiras nas quais os Andes se dividem quando chegam ao Norte do continente) e, assim, conectar o centro do país com o Oceano Pacífico.

Com isso, o país, de grande potencial exportador, estaria a agilizar o comércio com a Ásia. Atravessando o interior de uma montanha, o túnel estaria também a ajudar a economizar o tempo e a evitar acidentes que ocorrem diariamente nos trajectos pela estrada que sobe e desce a montanha.

Só foi no século 21 que a construção, com apoio do Estado, finalmente entrou em um ritmo acelerado. Mesmo assim, foram 11 anos de atrasos, escândalos de corrupção e esperas, longas esperas.

Nos cálculos de Pardo, apresentados à Associação Internacional de Túneis (ITA, na sigla em inglês), a construção do túnel da Linha, como é chamado, levou o mesmo tempo de obras semelhantes erguidas no século 19: 0,7 km por ano.

Com 8,6 km de extensão - que o tornavam o mais longo túnel das Américas - e construído a 2,4 mil metros acima do nível do mar, o túnel da Linha promete acelerar em 230% a velocidade média de travessia da cordilheira e reduzir a viagem em 21 quilómetros. E isso é apenas num sentido, do Oeste para o Centro. A inauguração do segundo trecho, que dará à estrada os dois sentidos, está prevista para Abril de 2021.

Desde os tempos em que era colónia espanhola, a Colômbia tem tido problemas em apostar num único meio de transporte para ligar as regiões, mas viu-se obrigada a assistir à concorrência entre vários, como navios, comboios, aviões e veículos.

"A diversidade da produção em cada região exigia um meio de transporte diferente para cada uma", explica Enrique Ramírez, um veterano especialista em economia de transporte. "Um comboio não é bom para colher café, assim como um camião não consegue transportar bananas com eficiência."

Talvez um pouco tarde, o túnel da Linha chega para ajudar a conectar um "país de países" que há séculos procura articular-se.

Solução
A Cordilheira dos Andes, que nasce no Sul da América, abre-se na sua última etapa, o Norte da América do Sul. Na Colômbia, a cadeia montanhosa transforma-se em três cadeias de montanhas que separam do Caribe e do país selvas, desertos, savanas, planaltos e as costas.

Mas a riqueza da geografia da Colômbia, o segundo país com maior biodiversidade do mundo, depois do Brasil, também é uma dor de cabeça: um obstáculo ao transporte, para o desenvolvimento e, segundo historiadores, à construção de uma identidade nacional.

Por isso, além dos escândalos que o tornaram famoso, o túnel da Linha é tão simbólico, porque promete ligar a capital, Bogotá, ao porto que escoa mais da metade das exportações, em Buenaventura.

O primeiro projecto que tentou cruzar a Cordilheira data de 1913. Depois, há registos de 1929 e 1950. Todos foram arquivados e o trecho foi simplificado a uma estrada várias vezes reformada, que chega a 3,4 mil metros acima do nível do mar e onde ocorrem uma média de 200 acidentes por ano, segundo dados oficiais.

Quando se decidiu pela retomada do projecto, no início deste século, um estudo constatou que a Cordilheira Central possui oito falhas geológicas de uma complexidade particular e que um terço do túnel teria de ser construído nessas fendas da crosta terrestre.

Dada a incerteza sobre a viabilidade da obra, o Governo colombiano decidiu abrir um túnel piloto, cuja construção começou em 2005 e terminou em 2008. Deu certo. Em 2009, a obra do túnel principal foi passada à Construtora Carlos Collins S.A, de origem colombiana.

Avanço lento, violações de contrato e quebras do orçamento levaram ao abandono da obra, em 2016. Dois anos depois, o Governo de Iván Duque concedeu-a a uma nova empreiteira, que retomou as obras.

A Justiça não esclareceu o ocorrido, apesar da imprensa local ter reportado gastos além do orçamento de até 500% (o total da obra foi de 750 milhões de dólares) e ligado o caso ao chamado "cartel da contratação", um escândalo de corrupção que levou à prisão de prefeitos e empresário, por causa de obras públicas falidas e mal geridas.

"Levaram 15 anos para fazer 55% e esse Governo, em dois anos, vai entregar 44%", vangloriou-se recentemente Duque.

Mas muitos responderam que, em 2016, quando uma fiscalização estadual investigou falhas na obra, estimou que faltavam apenas cerca de 12% da construção.

"Nós construímos sobre o que encontrámos", disse a ministra dos Transportes, Angela María Orozco. "(Governos anteriores) contrataram o empreiteiro errado, mas deixamos isso para os juízes; o que fizemos foi articular empresas, governos e empreiteiros de maneira eficiente, usando o que já existia."

"Este trabalho não é do Governo, é dos colombianos", dissea à BBC News Mundo.

O que muda

Mas por que razão a obra demorou tanto? A pergunta marca a inauguração do túnel. A resposta depende da relevância dada aos dois elementos principais da equação: complexidade geológica e incompetência institucional.

Juan Esteban Gil talvez seja uma das pessoas que melhor conhece o projecto, pois trabalhou durante anos no Ministério dos Transportes e no Instituto Nacional de Estradas de Rodagem, do qual é director desde 2018.

Para ele, o institucional pesou mais: "Vendeu-se mal o projecto ao país, porque não foi explicado que era tecnicamente muito complexo e que o desenvolvimento estava em fases. Mas acho que o não cumprimento da empreiteira foi o que mais teve impacto no atraso".

"A construção do túnel abre uma porta para o país, pois foram desenvolvidos padrões, programas educacionais e uma cultura de não temer projectos como esse que nos permitirá construir muitos mais túneis".

O engenheiro conclui: "Mas é claro que poderíamos ter desenvolvido isso há 50 anos."

O túnel está atrasado, mas, segundo o Governo, trará benefícios: veículos de carga e leves levarão menos 80 e 40 minutos, respectivamente, para cruzar a cordilheira, mais 77 milhões de dólares por ano serão gerados em comércio e turismo e os acidentes serão reduzidos em 75%.

"Mas o debate agora deve ser sobre o que nos custou, não a obra em si, mas o atraso, porque, se colocarem um valor nisso, chegarão a 20 vezes o que se pagou. O custo de não ter o túnel para o desenvolvimento do país foi enorme. Perdeu-se uma geração", diz o engenheiro Pardo.

Há um dado famoso que diz ser mais caro transportar cargas de Bogotá a Buenaventura (35 dólares) do que de Buenaventura a Tóquio (20 dólares). Viajar apenas 100 quilómetros na Colômbia pode levar quatro horas, três ou quatro vezes mais do que num país com topografia normal.

Desde que surgiu a ideia de uma nação na Colômbia, a geografia e a precariedade da infra-estrutura mantiveram os colombianos separados uns dos outros. Agora, mesmo que seja tarde, estão um pouco mais próximos.

*Correspondente da BBC News Mundo na Colômbia

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