Reportagem

Presidente começa visita para constatar realidade do Zaire

João Dias | Mbanza Kongo

Mbanza Kongo mobiliza-se para a visita do Presidente da República, a acontecer hoje. À chegada, ao anoitecer, as luzes ludibriam a real imagem do município. É mais bonita à noite. Mas é a luz do sol que tudo descortina e mostra.

Fotografia: Santos Pedro | Edições Novembro | Zaire

O preto esbranquiçado do asfalto combina com o castanho acentuado do pó fino do Cacimbo. Ontem, pela manhã, Mbanza Kongo estava mobilizada para os últimos acertos e retoques para deixarem-na mais asseada e receptiva. Mas a poeira fina do Cacimbo sobre os tectos, sobre a copa das árvores e sobre os monumentos é um cenário do qual não se livra com facilidade. Quase se confunde poeira com tinta. É tão presente na cidade, que Mbanza Kongo já chegou a viver surtos de conjuntivite e de doenças respiratórias. O repuxo de água, na sede do Governo Provincial, que nunca mais tinha funcionado, ontem estava a ser ensaiado. O monumento com o busto do fundador da Nação, Agostinho Neto, foi delicadamente lavado. Passeios há muito esquecidos foram reabilitados às pressas, tal como algumas pinturas de faixas de edifícios públicos.

Museu dos Reis do Kongo

Mbanza Kongo. No centro da cidade está o recinto chamado Lumbo Lwanzi Ntotela (Lumbo dos Reis), agora Museu dos Reis. Era naquele recinto, pintado a branco e com cobertura de chapas de zinco, onde os antigos reis, a partir de 1901, viviam. Antigamente palácio real, hoje Museu dos Reis do Kongo. Era de lá que partiam todas as decisões para levar a bom porto o destino do antigo Reino do Kongo.
O director provincial da Cultura do Zaire, Biluka Nsenga, é um confesso entusiasta das histórias de Mbanza Kongo. É o cicerone na nossa viagem aos monumentos e sítios da pequena cidade. Voltando ao Museu dos Reis do Kongo, o interior é preenchido por um acervo riquíssimo e representa o modo como era o quotidiano do Rei e de toda a corte, bafejada, já naquela altura, com pequenos luxos e privilégios.
Atrás do edifício dos Reis do Kongo estão vários sítios históricos, que concorreram para que Mbanza Kongo se tornasse na cidade património mundial. Entre estes, destaca-se o Lumbo ou Tribunal Tradicional do antigo Reino do Kongo, mas que continua a ter eficácia até hoje, no plano consuetudinário.
“Os mais velhos que lá encontrámos são autoridades tradicionais do Lumbo, os guardiões das nossas práticas, usos e costumes da região Kongo”, lembrou o cicerone.
Se, antigamente, o juízo supremo desse tribunal tradicional era o Ntotela, hoje, apesar da modernidade, este ritualismo jurídico/tradicional continua vigoroso e eficaz. É por isso que ainda hoje todas as quartas e sextas-feiras há uma sessão de julgamento de casos de conflitos de terras, conflitos sobre rios, adultério e conflitos sobre reivindicação da filiação ou paternidade e até de feiticismo. “Tudo isso é julgado no nosso tribunal”, lembrou Biluka Nsenga.
À volta do Museu dos Reis do Kongo está o Sunguilo, local onde o Rei, quando morria no trono, era levado. Nesse lugar sagrado, os restos mortais eram preparados por mulheres escolhidas a dedo, especificamente para a tarefa delicada, secreta e até sagrada. Eram as mulheres que, com folhas aromáticas e fogueiras, preparavam o corpo do Rei.
Depois desse processo, os restos mortais do Rei eram levados para Mpindi Atadi, casa mortuária, nos tempos dos Reis do Kongo. Era ali onde o corpo era embalsamado. Com a ajuda de folhas aromáticas e fogo brando, o corpo jazia durante seis meses no mínimo.
“Para o funeral de um Rei, tinha de se aguardar por todos os Manis dos governos provinciais, porque o antigo Reino do Kongo tinha seis províncias. Os Reis saíam do Gabão e dos dois Congos e vinham até Mbanza Congo participar no funeral. Mas todos eles vinham a pé. Atravessavam rios, florestas e estepes, para participar no funeral”, contou Biluka.
Enquanto isso, prosseguiu, o segredo sobre a morte do Rei era guardado a sete chaves. A população não podia saber, para que não fosse criado um vazio de poder. Quando todos os Manis chegassem, faziam uma eleição real. Depois de eleito, o novo Rei presidia toda a cerimónia fúnebre do Rei morto.

“Por que razão não vivo o paraíso aqui !?”

“A nossa diversão é lavrar a terra. Não tens tantas escolhas, numa cidade onde falta emprego e tudo o resto. Não há campos de futebol nem espaços de lazer. Ainda assim, gosto muito da província. Já estive em Luanda durante 13 anos, mas voltei. Não me adaptei. A minha vida é aqui. Saí de lá há 12 anos e não tenho saudades. O que me pergunto é porque razão não vivo o paraíso aqui?”, questiona Cristiano Lussalo, 29 anos.
A pergunta por que razão não vive o paraíso no seu bairro, Martins Kidito, Zona 1, é apenas uma: no bairro falta quase tudo. “Não é pedir muito; devíamos ter o essencial. E até isso falta. Aliás, cresci a esperar por isso e hoje ainda o futuro tarda a chegar, pelo menos para mim, porque, se calhar, os outros já vivem o paraíso”.
No bairro Martins Kidito, zona 1, há dezenas de postes de iluminação pública, com lâmpadas bem colocadas há anos. Mas nunca estiveram acesas. À noite, o bairro é escuro como breu. Apesar da escuridão das ruas, as casas beneficiam de luz eléctrica.
“Da energia, nas nossas casas, não temos razões de queixa. Sempre em dia”, disse Lussalo, que reclama da água intermitente do chafariz, colocado à porta da casa. “Temos água do chafariz. A água vem do rio Luegi. É-nos dada três vezes ao dia: de manhã, das 6 às 9h00. Das 15 às 17 e das 18 às 20h00”, contou.
O líquido tem a virtude de falhar pouco. Mas quando acontece, não facilita. Nessa situação, a água bruta do rio é a solução, mais bem prática, à mão de semear, mesmo quando as consequências passam por doenças diarreicas ou infecções de toda ordem.
“Queríamos ver as estradas melhoradas ou reabilitadas”, partilha o desejo que carrega há anos e que é o desejo de todos. Actualmente, a estrada do Madimba, que liga Mbanza Kongo ao Uíge, reclama de urgente reabilitação. Já tinha começado a ser intervencionada, mas o processo parou pelo meio. Nunca mais avançou.
A estrada de Mbanza Kongo ao Kuimba nunca foi asfaltada. Tentam tapar buracos e terraplanar, mas nunca resultou. De Mbanza Kongo a Nóqui, mais de 160 quilómetros, é a pior estrada que existe. É toda cheia de buracos. Encheram-na de britas, mas tem sido, até agora, uma solução de pouca dura.

Escolas e hospitais
Quanto a estabelecimentos de ensino, Mbanza Kongo tem escolas, pelo menos, em número suficiente para evitar que centenas de crianças permaneçam fora do sistema de ensino. As reclamações neste aspecto são poucas, ao contrário do que acontece com o domínio da saúde.
O Hospital, que nunca mais teve passeios, ganhou-os de última hora. O Hospital Maria Eugénia Neto é pequeno demais para a demanda. Além disso, o exíguo Aeroporto do Zaire faz paredes meias com o estabelecimento sanitário.
“Às vezes, tens doentes que não suportam o barulho dos voos. Ainda bem que não temos muitos voos por aqui. Quando os aviões aterram, o hospital estremece todo. Quem está lá teme que destroços caiam sobre si”, lamenta Cristiano Lussalo, jovem mecânico.
Se Lussalo sonha com o paraíso na zona 1 do Bairro Martins Kidito, Nimi Zayana Eduardo, 70 anos, perde a esperança, à medida que os anos passam.
“Já fui ao Congo e voltei. Estamos muito longe para realizar o nosso sonho colectivo de uma vida social melhor. Não sei porquê, mas já não tenho esperança de que um dia irá melhorar. Espero estar enganado, mas é o que sinto”, afirmou à nossa reportagem.
Nimi Zayana fala de Kuimba, a 70 quilómetros do município sede. Para ele, o drama daquele município começa com a ausência de, no mínimo, uma via que estivesse em situação razoável.
“A via é toda ela, na sua extensão, cheia de buracos. Para lá chegar, são necessárias quase 4 horas. Só a via já te diz tudo. É o município mais populoso, mas não tens nada por lá que indicie crescimento”, lamentou Nimi Zayana Eduardo, que frequentou um curso superior com o filho cassule. Aguarda pela defesa do trabalho de fim de curso.

Yala Nku, a Árvore Sagrada
A escassos metros do Museu dos Reis, está a Árvore Sagrada, misteriosa, que sangra e prenuncia acontecimentos, infortúnios ou agouros: a Yala Nku (Boas Vindas).
O director da Cultura, Biluka Nsenga, conta que foi sempre à sombra da árvore Yala Nku que o Rei recebeu as visitas mais importantes. Ao longo de muitos anos, todos os dias, pela manhã, para fazer uma boa leitura sobre como estava o seu reino no plano da espiritualidade e de futuro, ia verificar a árvore, a ver se não acontecia algum infortúnio.
“Se tivesse caído um ramo ao chão, era prenúncio de desgraças. E podiam decorrer em vários locais, não apenas na cidade, mas até no longínquo Gabão”.
A dada altura, conta Biluka, por descuido ou ingenuidade, alguém terá posto fogo num dos ramos da árvore. O que aconteceu foi que, segundo os anciãos, a árvore começou a sangrar pelos seus caules, poros e cascas. O sangue era tanto, que se espalhou até à Igreja Kulumbimbi.
A Yala Nku, a misteriosa árvore que sangra, nos idos de 90, teve um dos seus galhos cortado por um cidadão sem noção histórica e da tradição oral daqueles tempos. Sem um ritual adequado para expurgar o mal feito à árvore, o resultado não se fez esperar:
“Negligenciaram o ritual para acalmar os espíritos. O que aconteceu depois foi que houve uma missão do Bispo da Igreja Católica que ia do município do Soyo, com dirigentes militares da Região Norte, ao Nóqui, 150 quilómetros do município sede, morreram a bordo de um helicóptero, que se despenhou. Morreu o Bispo D. Afonso Nteka e outros dirigentes militares", elucidou o guia.
Coincidências ou não, a verdade é que, em 2007, mais uma vez, trataram a árvore, como era tradição. Mas as pessoas que a trataram não foram as mesmas que nela “treparam” para dela retirar algum lixo e parasitas. Resultado: uma semana depois da limpeza, despenhou-se um avião da TAAG, em pleno Aeroporto de Mbanza Kongo, vitimando o administrador do município, Manuel Cristóvão “Paciência”, o padre italiano George Zulanelo e um cidadão da RDC. Hoje, já não há como negligenciar, pois “sempre que os mais velhos constatam a queda de um galho, os anciãos do Lumbo fazem um ritual tradicional para evocar os espíritos dos antepassados e, ao mesmo tempo, acalmá-los para que não haja algo triste”.
Bem perto dali, Mbanza Kongo guarda intacta o monumento Kulumbimbi, a primeira Igreja construída ao Sul do Sahara, nos remotos anos de 1491. É naquele monumento, mesmo sem nada erguido, onde os ancestrais veneravam Nzambi a Mpungo (Deus Todo Poderoso). Quando os missionários se fizeram à terra de monumentos e histórias fascinantes, Mbanza Kongo, já o seu povo adorava o Deus Todo Poderoso.
“Confrontados com a realidade de crença, devoção e fé, os missionários decidiram construir a Igreja Kulumbimbi, que resiste ao tempo, suas vicissitudes e variações.
Mbanza Kongo guarda o monumento Tadi diabukikua, um sítio arqueológico, onde foi erguida a primeira casa real, que chegou a ser também convento.
“Das amostras retiradas, quando da classificação de Mbanza Kongo como património mundial, orientaram um trabalho arqueológico de equipas de angolanos, portugueses e camaroneses. Os vestígios encontrados datam de 1439, antes da chegada dos portugueses, o que significa que o povo do Congo já fazia grandes infra-estruturas”, lembrou.
Do conjunto da grandeza está também o cemitério dos capuchinhos e outros sítios que fizeram com que grande parte da cidade fosse classificada como património mundial. Hoje, a tarefa é apenas uma: divulgação, valorização, conservação e preservação desse primeiro património angolano inscrito na lista da UNESCO. É o que se pede; é o que se deseja, tal como ver Cuito Cuanavale e Tchitundo Ulo serem elevados a patrimónios mundiais.

Agenda

O Presidente da República, João Lourenço, trabalha hoje e amanhã na província do Zaire. No primeiro dia da visita, reúne-se com os principais integrantes do Governo Provincial, pouco depois de desembarcar em Mbanza Kongo, devendo, a meio da tarde, ter um encontro com o Conselho Provincial de Auscultação da Comunidade.
Amanhã, a jornada será cumprida no município do Soyo, aonde o Presidente da República chega cedo pela manhã, ido da capital da província.
Ainda amanhã, João Lourenço vai à Central do Ciclo Combinado do Soyo, seguindo-se um encontro com jovens em representação dos seis municípios da província do Zaire. Esta actividade, a última do programa do Chefe de Estado, será realizada no anfiteatro da Escola Superior Politécnica do Zaire, na vila.

 

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