Reportagem

Problemas sociais na base da desagregação familiar

Manuel Fontoura | Ndalatando

Com um conceito de família alargada, como pode essa instituição ser comprometida pelo comportamento dos seus membros em África? A questão tem como principal resposta a desestruturação provocada, sobretudo, pelos diferentes conflitos armados, como é o caso de Angola.

Devido ao conflito armado muitas são as famílias que foram assoladas por vários males sociais dentre eles a falta de emprego e de habitação contribuindo assim para a sua desestruturação
Fotografia: Nilo Mateus

Na nossa sociedade, muitas famílias viveram momentos conturbados por causa da guerra que as desagregou. Findo o conflito armado, as famílias estão a ser assoladas por outros males sociais, como a falta de emprego e de habitação. Dar a volta por cima afigura-se difícil para a maioria.
O Executivo, a sociedade civil e, em especial, as próprias famílias têm feito a sua parte. Mas atingir o ideal ainda é um sonho, cujo alcance especialistas contactados acreditam ser possível. Para isso, emitem as suas ideias e mostram caminhos.
 
Separação conjugal

A nossa reportagem conversou com um casal que, por diversos motivos, hoje está separado. Os dois contaram a sua versão dos motivos da separação.
Miguel do Sacramento, 26 anos, e Josefa Alexandre, 25, viveram casados durante dois anos. Os problemas e brigas constantes no lar puseram fim ao relacionamento.
Para Sacramento, durante a fase do namoro, a vida do casal era muito linda, estavam sempre juntos, sorridentes e felizes, até que decidiram casar-se em 2014, após um namoro de quase quatro anos.
Viviam num dos bairros da cidade de Ndalatando com os dois filhos. Acabaram por se separar devido a desentendimentos. O funcionário público diz que almejava um relacionamento feliz, mas a esposa não deixava. Não podia sair depois de regressar do trabalho, não podia ter amigos e até era impedido de visitar parentes.
Todos os dias, havia motivos para briga, embora Miguel tentasse resolver tudo na base do diálogo, a esposa partia para a agressão verbal e física. “Ela é muito agitada, briguenta e autoritária, dificilmente levava as coisas com diálogo, não tinha respeito de ninguém, inclusive dos meus familiares e amigos. Engoli muita coisa feia, até que um dia resolvi sair de casa e até hoje estamos separados”, conta.
Miguel diz que ama muito os dois filhos, que sempre apoia e visita, pois não têm culpa da separação dos pais. Para ele, o mais importante agora é dar-lhes o acompanhamento necessário, para que sejam bem educados, orientados e tornem-se bons no futuro.
Josefa Alexandre conta que, apesar de ser considerada a mentora da separação, cabe-lhe apenas parte da culpa. Agora, separada do marido, se sente só na companhia dos filhos, de três e um ano de idade.
Mostra-se arrependida das atitudes antes demonstradas, embora já nada possa fazer. Sem querer falar muito da relação, diz apenas que os dois pediram o divórcio e aguardam o momento final.
Tal como Miguel e Josefa, quase todas as semanas se assiste à separação de casais. As causas apontadas são as mais distintas. A conservadora do Registo Civil, Felisbina Dias de Almeida, diz que mais de70 casais contraíram matrimónio durante o ano, todos por comunhão de bens adquiridos. Sabe que, desses, muitos já estão separados, sem formalizarem a separação.
 
Falta de diálogo

O sociólogo Belchior Gomes aponta vários factores que estão na base da desagregação familiar, como a falta de diálogo, alcoolismo, a ausência dos pais e o desemprego, dentre outros, que geram conflitos contínuos com separações traumáticas. Além de afectarem os menores, os desentendimentos chegam mesmo a provocar a perda dos valores éticos e morais no seio familiar.
O principal factor, referiu, que contribui para a não coesão social é sem dúvida a falta de respeito no seio familiar.
Neste caso, disse, o respeito vai resultar no comprometimento das responsabilidades de cada individuo no seio da família, embora existam outros factores não menos importantes, como o diálogo, afecto e amor ao próximo, trazendo consigo os valores éticos e morais de que a família tanto precisa. Para Belchior Gomes, a igreja foi sempre um incentivo de relações conjugais fortes, baseadas na aceitação mútua e no respeito, no desenvolvimento dos laços de amor e na partilha de um projecto de vida eterno, ensino da paternidade responsável e encorajadora e o cultivo dos valores morais na família. “A igreja também desempenha um papel muito importante na construção do individuo, tanto moral como espiritualmente”, afirma.
O sociólogo acrescenta que o Estado angolano criou instituições voltadas para a família, como o Ministério da Família e Promoção da Mulher, os centros de aconselhamento, o Ministério da Reinserção Social, mas são ainda insuficientes, pelo que deve criar parcerias com instituições filantrópicas e a sociedade em geral. “Todos somos chamados a contribuir para a coesão familiar, uma vez que este problema diz respeito a todos nós”, afirma.
A base das famílias desestruturadas, na visão de Belchior Gomes, é que o homem, enquanto membro de uma sociedade é susceptível de interagir com todo o tipo de indivíduos, que podem influenciar no seu comportamento. Tais influências podem ser as rodas de amigos, a     rádio, a televisão, as redes sociais e a ausência dos pais ou dos encarregados de educação.
“Isto faz com que os indivíduos interiorizem hábitos maus, como o tabaco, as drogas e álcool, a formação de gangs, dentre outras, muitas vezes sem o conhecimento dos pais ou de parentes próximos”, precisou Belchior Gomes.

Apoio generalizado


Com base nos conceitos jurídicos, de família nuclear e alargada, esta é tida como o núcleo fundamental da organização de qualquer sociedade, afirma o jurista Lucas Leitão. Mestre em Solicitadoria Jurídica, Lucas defende a protecção tanto do casamento como da união de facto, pelo Estado.
Lucas Leitão refere que, de um modo geral, existem conflitos entre elementos de uma mesma família. Para se alcançar o bem-estar, deve haver reuniões de concertação. A desagregação familiar tem como base a falta de diálogo.
Na opinião deste jurista, o factor religioso também contribui para a coesão das famílias, a cristandade ou crença religiosa ajudam a reforçar a espiritualidade e a adopção de um estilo de vida baseado na unidade e ajuda mútua. “O papel principal da igreja é a educação das famílias para a adopção de uma vida baseada na espiritualidade cristã, onde reine a paz e a harmonia”, disse.
Para o interlocutor, o Estado deve adoptar políticas cada vez mais voltadas para o apoio às famílias, sobretudo, no que concerne ao acesso aos principais serviços sociais básicos, como a educação e a saúde, que garantam a sustentabilidade e a harmonia plena.
Ao invés de lugar de criar instituições, o Estado deve criar políticas públicas de apoio às famílias, sobretudo, aquelas afectadas por carências sociais, a garantia de emprego e outros direitos fundamentais indispensáveis para a subsistência e estabilidades das famílias, afirma. “Essa tarefa ingente à questão familiar não pode envolver apenas o Estado, mas toda a ­sociedade, pois configura, além da componente educativa, a componente moral”, diz o mestre em Solicitadoria Jurídica.

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