Reportagem

Produção agrícola familiar ganha espaço nas Lundas

Leonel Kassana |

Com forte tradição na extracção industrial e artesanal de diamantes e na monocultura da mandioca, a província da Lunda Norte acaba de fazer uma autêntica reviravolta na sua história agrícola,

Fotografia: Kyanda Kyangu | Angop

ao avançar para a diversificação das culturas, fundamentalmente hortícolas, tirando maior proveito das imensas extensões de terras férteis e dos abundantes recursos hídricos de que dispõe.
A aposta na agricultura familiar e empresarial em todos os municípios ganha cada vez mais espaço, como resultado dos incentivos do Executivo para a diversificação da economia.
A auto-suficiência do mercado local, primeiro, e a comercialização noutros mercados, depois, mobilizam hoje um número significativo de camponeses organizados em associações e cooperativas, em todos os municípios que recebem apoio do Governo em instrumentos de trabalho, sementes, adubos e outros inputs agrícolas.
Dados fornecidos ao Jornal de Angola pela Direcção da Agricultura na Lunda Norte indicam  que, entre famílias camponesas e pequenos agricultores, a província tem o registo de cerca de 304.397 habitantes distribuídos por aldeias e comunas de municípios como Cambulo e Chitato.
É esse universo de pessoas que é alvo principal dos responsáveis da Agricultura, num quadro de prioridades estabelecidas pelo Governo. Nos municípios do Cambulo, Xá-Muteba e Chitato, o número de famílias camponesas que recebe assistência das autoridades ascende aos 8.631. Quanto aos pequenos agricultores, a cifra é mais modesta, com um total de 54 assistidos num universo de 266 registados em quase toda a província. Mas, o movimento associativo é hoje bastante notável na Lunda Norte, com milhares de pessoas organizadas em associações e cooperativas agrícolas, o que viabiliza não só o aumento da produção, em grande escala, de tubérculos, frutícolas e hortofrutícolas, como  tomate, repolho, cenoura, pepino, couves e pimentos, mas também a canalização dos indispensáveis apoios, pelo Governo, dos meios técnicos e insumos diversos.
A província tem registadas 877 associações, que congregam 41.471 camponeses. Desta cifra, 20 mil 649 são mulheres. À excepção do Lôvua e Lubalo, em todos os municípios da Lunda Norte trabalham cooperativas agrícolas, que mobilizam actualmente mais de 5.177 pessoas. Pela sua importância, as associações de camponeses são, hoje, consideradas como actores incontornáveis na estratégia do Governo para o combate à fome e à pobreza.
Aos líderes das cooperativas e associações de camponeses são ministradas, por peritos agrários do Ministério da Agricultura e parceiros, as mais modernas formas de cultivo, o que contribui para o aumento significativo dos níveis de produção de hortícolas, cereais, tubérculos e outros, que fazem hoje da Lunda Norte um Pólo de Desenvolvimento Agrícola a ter em conta nas equações da política de diversificação da economia.

Incentivo à produção

Em todos os municípios da Lunda Norte, o Governo tem vindo a disponibilizar aos camponeses vastos espaços de terra para a prática da agricultura. Trata-se de áreas já trabalhadas e prontas a receber sementes diversas, o que é facilitado pela abundância de chuvas na região. À escala provincial, foi concebido um programa de preparação de terras com mais de 20 mil hectares.
Além da preparação de terrenos para a agricultura nos municípios, o Governo está, também, muito focado na distribuição de insumos agrícolas, sementes, fertilizantes, bem como na assistência técnica, como apurámos na Direcção Provincial da Agricultura.
Em todos os municípios onde as autoridades da província se deslocam  com frequência, a entrega de enxadas, catanas, electrobombas e outros instrumentos de trabalho às famílias camponesas, associações e cooperativas tornou-se já uma obrigação, o que é um significativo incentivo para o aumento dos níveis de produção.

 Auto-suficiência

O director provincial da Agricultura na Lunda Norte, José Mendes, assegura que a aposta em culturas não tradicionais, sobretudo hortícolas, é uma garantia segura para a auto-suficiência alimentar das populações e está perfeitamente alinhada com a estratégia de diversificação seguida pelo Governo. O responsável destaca riqueza e fertilidade das terras lundas para uma agricultura com potencial para abastecer outras regiões do país e mesmo para a exportação.
Os dados da campanha agrícola 2015 e do ano precedente reflectem, na verdade, um crescimento notável, resultado directo das políticas de incentivo do Governo, como refere o engenheiro José Mendes. Se em 2015, a produção de raízes e tubérculos (batata e mandioca) foi de mais de 458.861 toneladas, o ano passado essa cifra passou para 531.884.
Quanto aos cereais, na campanha agrícola 2016 foram colhidas mais de 40,8 toneladas, superando em mais de oito a cifra do ano anterior. Se os avanços em cereais foram mais modestos, já no que toca às leguminosas assistiu-se a um autêntico “boom”. A produção de leguminosas passou de 28.719,8 toneladas em 2015 para 151.562,5, na campanha agrícola passada. Particularmente significativo foi o registo de 170, 2 toneladas de hortícolas, quando no ano anterior ficou-se por pouco mais de 8.399 toneladas.
As quebras registadas na produção de frutícolas, que passou de 96.904 em 2015 para 94.632 toneladas em 2016, não perturbam a conclusão de que a província está efectivamente na rota do desenvolvimento agrário.
 Mas se os números em presença mostram já um crescimento notável, há, contudo, preocupações numa forte aposta no empresariado agrícola, para colocar a Lunda Norte na senda das províncias mais produtivas de bens alimentares no país.
A falta de tradição nas culturas economicamente mais rentáveis tem vindo a ser contornada pelas autoridades, que privilegiam a passagem de uma agricultura de subsistência, para uma agricultura moderna, com recurso, em larga escala, à mecanização e outros meios tecnológicos, pois, como se diz noutro espaço, terras férteis e recursos hídricos é o que há em abundância nessas paragens.
A implementação de um serviço de extensão rural e mais institutos de pesquisa, a aquisição de mais equipamentos pesados para a abertura de mais áreas produtivas, bem como a disponibilidade de mais técnicos agrários são vistos como factores essenciais para o aumento das cifras de produção agrícola na Lunda Norte.

Pólos de desenvolvimento

No mapa agrícola da Lunda Norte destacam-se vários pólos de desenvolvimento, como é o caso da Fazenda Agro-pecuária de Cacanda, a cerca de quatro quilómetros do Dundo e que foi inaugurada em 2012 pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos. Trata-se de um empreendimento que resultou da modernização da antiga ­Fazenda Cacanda, criada há mais de quatro décadas, pela então Companhia de Diamantes de Angola(Diamang) e que, além da produção agrícola, também dedica-se agora à criação de gado e produção de ovos. Maior infra-estrutura do género no Leste de Angola, a Fazenda agro-pecuária Cacanda estende-se por mais de 10 mil metros quadrados, preenchidos por aviários, fábrica de rações, matadouro, oficinas, viveiros de plantas, centros de formação agrícola, entre outras áreas. O empreendimento está perfeitamente alinhado com a estratégia do Executivo para a diversificação da economia.
Quando foi inaugurada, essa fazenda previa a criação de mil empregos directos e três mil indirectos. Números bastante significativos, para uma região onde o desemprego, sobretudo entre os jovens, apresenta-se ainda elevado. Além das áreas ligadas à sua cadeia produtiva, Cacanda preparou-se ao pormenor, mesmo nas áreas de maior complexidade técnica, como engenharia civil, administração, a­gronomia, veterinária e outras. O próprio governador da província, Ernesto Muangala, diz que Cacanda é um orgulho para a população da Lunda Norte, pelos elevados benefícios que traz ao programa de combate à fome e à redução da pobreza no seio das famílias.
Um outro projecto estruturante e com potencial para impulsionar o desenvolvimento agro-pecuário é a Fazenda agro-pecuária do Cossa, vocacionada para a criação de gado leiteiro e  abate, suínos, frangos para carne e poedeiras, produção de citrinos, cereais, café, piscicultura e mel. Ao que o Jornal de Angola apurou, estudos para a implementação do projecto estão já concluídos, aguardando apenas por financiamento. À Fazenda agropecuária do Cossa junta-se ainda a do Calonda, destinada à exploração de gado de corte.
 Mas o mapa agrícola da Lunda Norte não se resume a isso. Inclui a Fazenda do Mucologe, que se dedica à produção de mudas de frutas, cereais e hortofrutícolas, a uma Estação experimental agrícola e outra zootécnica e um Instituto politécnico para a formação de técnicos médios agrários em diversas especialidades. Tudo isso foi pensado para ter, na Lunda Norte, uma agricultura robusta e competitiva.
 
Repovoamento animal


Com os elevados índices de precipitação que a província da Lunda Norte regista, em combinação com o potencial hídrico disponível, propiciando a abundância de pastagens, o Governo concluiu estarem reunidas as premissas para um plano mais ambicioso no domínio da criação de gado bovino.
Dados da Direcção Provincial da Agricultura rezam que na Lunda Norte estão disponíveis 1.500.000 hectares de terras, propícias para a exploração pecuária,  uma aposta do Governo inserida do Plano de Desenvolvimento da província e que prevê o repovoamento animal gradual, até alcançar cerca de 1.000.000 de cabeças de gado em 2030.

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